Eu parei. Soltei um leve suspiro que tomou todo o meu corpo. Minha cabeça doía. Meus braços soltos, meu corpo leve, tremendo a cada toque que o vento, daqueles do mês de Julho, me tocava à pele. Não arrepiava porque nunca fui propício a arrepios, mesmo que acompanhados de grandes surpresas. Mas não era uma surpresa que me vinha a mente naquele exato momento. Também não diria que houvesse sido uma revelação, até porque, já me havia sido revelado e esse era um dos meus "maus", a maldita revelação de cada dia. Mas naquele momento percebi que não me foi difícil acordar. Há dias que vinha numa dificuldade incrível de acordar, não porque era difícil de fazê-lo, mas sim, porque era deprimente. Cada dia eu abria os olhos e nascia novamente, mas aí a maldita revelação me vinha de surdina à mente, se enfiando de guela abaixo, recordando cada lembrança amarga, coisas que não se têm quem acaba de nascer. Mas nesse dia, nesse dia, eu já não havia deplorado ter que encarar a verdade, talvez porque no dia anterior eu havia falado o que se prendia na minha garganta. Vomitado minhas desconfianças e torturas à respeito de algo que nunca se viu, nem ouviu, apenas histórias. E eu ali, sentindo a brisa do vento forte, que já não era mais brisa, tentando me segurar nas paredes de minha própria segurança, apenas para me manter firme, apenas para dizer a mim mesmo que eu já havia desfalecido e que agora, de uma forma ou de outra, já não precisava deplorar ter que acordar, porque de certa forma, e isso é o mais irônico, aquela situação já não me doía. Já havia saído de mim. E eu, eu passei a falar pra mim mesmo, agora ouvindo minha própria voz, não a do pensamento, que só ouve a si mesma, mas a voz que saía da minha garganta e pulava pra fora da boca, e que se fazia chegar até os ouvidos, como agora uma nova revelação. Mas que não me afligia. Respirar tem sido uma das minhas maiores obras primas, talvez minha maior superação, pois aos poucos venho desistindo de entender os desígnios não só de deus, mas do ser humano, e respirar é o que me basta. Olhar pro mar, sem ter que me importar em sabê-lo quem o criou, ou se pessoas, no mais alto clímax de sua paixão, se amaram naquelas areias, fazendo-me recordar algo de que nunca tive a oportunidade de viver. Respirar é definitivamente minha arte suprema, sem ela não seria o artista que sou, e quando pará-lo talvez, assim quando o destino bem lhe entender, estarei destinado a ser lembrado. Lembrado como o cansado de pensar, de nunca arriscar, de parar, saltar leves suspiros, exceto os da minha arte, e assim apenas existir.
- Estevão Eduardo -
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