Era a cela 59. Não era muito diferente das outras que se seguiam pelo corredor do presídio. Todas com quatro paredes brancas, uma porta de aço que impedia qualquer fuga, duas camas, um projeto de sanitário e uma janela muito bem fechada, que servia apenas para iluminar durante o dia. Chegara ali há dois meses e felizmente não tinha tido o desprazer de dividir a minúscula cela com ninguém. Ele já havia se acostumado a rotina do local. Todos os dias eram o mesmo processo. Ás sete da manhã se levantar para tomar café com os outros num enorme salão de refeições. E apesar desse ser um dos únicos momentos no qual podia interagir com outra pessoa, Yuri não era uma pessoa que gostava de partilhar experiências com estranhos. Ás dez da manhã eles voltavam cada um para suas celas, após tomar o famoso banho de sol, nos quais frequentemente havia desentendimentos e brigas entre alguns presos. Dali por diante o dia passava lento como um relógio que para ao meio dia. Sem muita noção de hora, ele guiava-se apenas pela luz do sol. As outras refeições lhe eram servidas em suas próprias celas, decisão essa tomada pelo diretor do presídio para evitar certos confrontos que poderiam acabar em grandes revoltas. Assim passou mais um mês na vida de Yuri, e ele só sabia porque alguns presos faziam questão de comentar nas refeições matinais, mas não era uma coisa que lhe importava o bastante. Certo dia durante o banho de sol um detento chegou a lhe perguntar o que tinha feito para estar ali. Yuri respondeu:
- Matei uma pessoa. - de forma frívola e direta, com os olhos atentos no nada.
- Todos nós estamos aqui por algum motivo, mas todos nós também tivemos motivos para fazer o que fizemos - respondeu o jovem que lhe fez a pergunta.
- Tanto faz. Se estamos aqui é porque devemos. Não me interessa o que fiz, nem porque o fiz. Eles não querem saber de motivos.
- Eu também matei uma pessoa. Mas não me arrependo. Eu acho que fiz o que deveria ser feito. Algumas pessoas não tem o direito de viver.
- Interessante - respondeu Yuri com a face ainda indiferente.
- Você não é muito de falar não é? - perguntou o jovem detento.
- Eu só falo o necessário.
- Sabe que desde que você chegou aqui eu te observo, e você tá sempre tão calado. Você deveria falar mais com os outros ou pelo menos arrumar uma briga de vez em quando. Você tem que fazer valer a pena estar aqui - Yuri soltou um pequeno sorriso.
- Eu soube que você matou sua esposa - disse o jovem detento num tom mais baixo depois de um certo tempo.
- Então porque me perguntou o motivo de eu estar aqui? - indagou Yuri mostrando agora um pouco mais de interesse.
- Sei lá, eu fiquei pensando que talvez você não estivesse a vontade para falar disso. Eu não queria parecer muito intruso nem queria que você me achasse um chato por estar fazendo tantas perguntas. Mas sabe o que eu acho? Você deve ter o seus motivos, assim como todos nós. Eu não vou perguntar os seus porque eu acho que talvez você não queira dizer e muito menos é do meu interesse, mas enfim...
- Cara, você fala muito - interrompeu Yuri soltando um sorriso mais aberto dessa vez.
- Ah - soltou um breve suspiro - todos sempre dizem isso. Mas se você quiser eu posso ir embora.
- Pra mim tanto faz - disse Yuri.
- Então tá eu vou ficar aqui, mesmo que você não queira conversar sobre isso mas eu acho que a gente pode conversar sobre outras coisas, tentar esquecer um pouco do porque estarmos presos - soltou um breve sorriso - você se importa se eu continuar falando? É porque aqui a gente se sente as vezes tão só, e eu sempre gostei muito de conversar, e durante todo esse tempo que estou aqui e já vai fazer um ano, a única pessoa com quem eu mais converso é comigo mesmo. Então pelo menos o fato de você está me ouvindo já ajuda e muito.
- Tá certo. Pode continuar falando - disse Yuri agora retomando a face indiferente.
Foi assim durante muitos dias. O jovem detento passava todas as três horas nas quais eles tinham para comer e ver o sol falando com Yuri. Não era bem uma conversa já que Yuri não participava muito. Poderíamos chamar de monólogo. No começo não era uma coisa que agradava muito à Yuri, mas ele não reclamava e com o tempo até foi achando razoável ter alguém para ouvir durante essas míseras três horas em "liberdade" da cela. Durante longos cinco anos, todos os dias, o jovem detento chegava à mesa onde Yuri estava sentado para poder falar a ele o que tinha sonhado, ou sobre o que gostava de fazer quando tinha liberdade, ou sobre seus familiares e de como odiava a cada um deles. Com o tempo chegou a lhe contar até alguns segredos, que Yuri preferia fingir não acreditar ou não estar escutando. Disse-lhe que morria de medo do seu companheiro de cela e que já tinha ido até a diretoria pedir para ficar na mesma cela que Yuri, mas que seu pedido não foi nem escutado por completo. Contou-lhe o porquê de ter matado seu melhor amigo, e até chorou ao dizer que por mais que tinha motivos o suficiente, ainda assim sentia muita falta dele e que saber que ele não estaria lá fora quando saísse não era uma das melhores lembranças. Certo dia chegou a encostar a cabeça no ombro de Yuri e apenas por um momento preferiu não falar nada, apenas ficar ali, e incrivelmente pra Yuri era como se ele tivesse falado certas coisas que ninguém nunca havia lhe falado. Aquele momento de silêncio valeu mais do que mil palavras que foram ditas durante muitos dias.
Depois de seis anos Yuri foi liberto por bom comportamento, e soube que o jovem detento ainda ficaria lá por um bom tempo. No dia em que foi liberto preferiu não comunicar ao jovem. Deixou o presídio sem nunca ter dividido a cela com ninguém. Saiu meio confuso sem saber o que fazer. Porém resolveu que iria reconstruir a vida em outra cidade, decisão tomada semanas antes de ser liberto. Conseguiu um emprego como garçom em um bar. Ganhava pouco, mas o bastante para se sustentar. Não se casou nunca mais. As vezes sentia falta do jovem detento falando-lhe sobre sua vida e passando horas narrando suas aventuras aqui fora. Yuri tinha aprendido que tanto fazia o que o jovem lhe falava, o que importava era quando ele falava, sua voz com o tempo se tornou mais bonita do que as palavras que ele proferia, mas Yuri não tinha se dado conta. Nunca mais ouviu falar do jovem detento, até procurou saber mas desistiu quando soube que ele já tinha sido liberto, exatamente três anos depois dele. Yuri não achou conveniente ir atrás dele, afinal o jovem detento era do mundo. Era impossível tentar encontrá-lo. Não houve sequer um dia no qual Yuri não lembrasse da voz inquietante do jovem detento. Mas o que ele não esqueceria jamais seria o momento de silêncio que guardou tantas palavras.
- Estevão Eduardo -