quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sodoma

Talvez um dia enxerguemos onde foi que erramos durante todo esse tempo.
Um dia pararemos de chorar pelos que ainda estão vivos.
Ou talvez façamos menos orações e mais ações.
Uma noite talvez não mais ouviremos as mesmas vozes que pairam sobre a cabeça.
As roupas talvez não sirvam mais e tenhamos que emagrecer dez quilos.
Realizaremos mais nossos sonhos ao invés de sonhar mais com a realidade.
Falaremos mais, em voz baixa, tendo sempre o que falar.
Deixaremos de lado o tudo que preenche o nada e seremos felizes sendo vazios.
Olhe para o céu. O que você vê?
Nuvens, estrelas, gotas de chuva, Lua?
Pois é, eu também.

- Estevão Eduardo -

domingo, 18 de abril de 2010

É meu direito querer ser feliz

Era a minha fazenda. Eu tinha o direito de plantar nela o que eu sempre quis. Cultivei durante tempo o suficiente para que tudo o que fosse necessário crescesse e desse frutos. Plantas de todas as cores e formas. Frutos de todos o sabores e tamanhos. Animais, tinham poucos. Algumas cabeças de gado ali, umas cabras aqui, enfim, somente o suficiente para dar alimento a toda família. Meus filhos, todos crescidos, preferiram se mudar para a cidade grande, onde encontraram mais chances para seguirem suas vidas. Nunca quiseram construir suas casas e famílias perto de mim e da minha esposa, exceto o mais novo, mas infelizmente ele morreu aos quatorze anos em um acidente de carro. Desculpe-me, mas eu não quero me deter nesse assunto, é algo que eu não gosto de relembrar. Minha esposa ainda mora comigo, mas não pode mais mexer-se, muito menos realizar qualquer tarefa. Infelizmente ela também estava no carro quando ocorreu o acidente com meu filho. Ela teve o que alguns médicos chamam de derrame e não pode mais movimentar os músculos, inclusive os da face, o que a impossibilita de falar. Isso ocorreu há sete anos. E há cinco anos que todos os meus outros três filhos partiram para a cidade grande. Nesse meio tempo várias coisas ocorreram, não muito importante obviamente, mas o suficiente para movimentar um pouco essa minha vida. Não que eu esteja reclamando, morar nessa fazenda foi uma escolha minha há trinta anos atrás, e de modo algum eu a deixaria agora. Esse lugar tem algo de pacífico, que nessas cidades grandes não têm. Eu vi meus filhos nascerem aqui, crescerem aqui, morrerem aqui. Eu e minhas esposa fomos bastante felizes, tivemos nossos momentos de alegria, tristeza e encanto, quando finalmente nasceu nosso primeiro neto. Eu sempre acordei cedo para poder passear pelos arredores da fazenda, me certificando se tudo estava na perfeita forma e se o trabalhos dos empregados estava rendendo. Tínhamos cinco empregados que trabalhavam na roça e com o gado, mas infelizmente um teve de parar de trabalhar por causa da saúde, nada grava, porém destrutivo a longo prazo, logo ficamos apenas com quatro trabalhores. Na casa trabalhava duas senhoras cuidando das nossas refeições e de nossas necessidades, mas com a impossibilidade da minha esposa tivemos que contratar mais duas moças, uma para ajudar na casa e outra para tomar conta de minha mulher, por tempo integral. Eram pessoas de bem, pelo menos eu acho, nunca tive interesse de saber sobre suas vidas. Nunca me interessei por ninguém que realmente não chamava a minha atenção. Pra falar a verdade se me perguntassem hoje qual o nome de todos eles que trabalham aqui dificilmente eu conseguirei responder. Apesar de receber cuidados integrais, sempre cuidei e dei a maior atenção à minha esposa. Lembro-me que assim que ocorreu o acidente e ela teve que voltar pra casa, eu passava praticamente o dia todo, todos os dias ao seu lado, tentando consolá-la e tentando exprimir, por ela, a tristeza que sentia pela perda de nosso filho. Já que não podia falar, ela só chorava e foi assim por um bom tempo. As pessoas sempre me falavam que era da vontade de Deus que tudo isso ocorresse, mas eu sempre tentava não associar Deus a isso, na verdade eu nunca associei Deus a nada. Talvez isso seja bom. Meus passeios matinais pelas redondezas tornaram-se mais frequentes quando nossos outros filhos nos deixaram. E mesmo que não quisesse admitir, mas um enorme abismo se abria entre eu e minha esposa. Será realmente que tudo que nos ligava era apenas nossos filhos, e que agora que todos eles foram embora, cada um à sua forma, nada mais nos ligava? Embora essa fosse uma pergunta frequente eu tentava não achar a resposta. Alguns dias adiante trouxeram a leveza das chuvas outonais, o que serviu para me deixar mais preso em casa durante as manhãs. Deitado ao lado da minha esposa eu conversava com ela, relembrando fatos tão marcantes de nossas vidas, não os tristes, esses não merecem ser lembrados, mas o alegres, ou até aqueles mais estranhos, sem respostas. Mas ela não podia retribuir, ela não sorria, ela não movia o olho. Mas por dentro talvez ela gritasse. Chorasse. Eu sabia que ela podia me ouvir, mas era muito egoísmo da sua parte não responder. Infelizmente não inventamos nenhuma forma pra nos comunicar, se é que exista alguma, mas enfim, preferimos continuar sendo egoístas, eu apenas falando, ela apenas escutando. Minha fazenda tinha se tornado definitivamente fazia. Repleta de silêncio por todos os lugares. Cheia de nada que preenchesse o vazio que era do tamanho do terreno lá fora. Talvez eles voltem. Talvez um dia meu caçula queira ficar e morar conosco. Talvez minha esposa invente uma nova maneira pra se comunicar. A fazenda é minha eu a mantenho porque tenho esperança de que algum dia tudo volte a ser como era no início.

- Estevão Eduardo -

sábado, 17 de abril de 2010

O jovem detento

Era a cela 59. Não era muito diferente das outras que se seguiam pelo corredor do presídio. Todas com quatro paredes brancas, uma porta de aço que impedia qualquer fuga, duas camas, um projeto de sanitário e uma janela muito bem fechada, que servia apenas para iluminar durante o dia. Chegara ali há dois meses e felizmente não tinha tido o desprazer de dividir a minúscula cela com ninguém. Ele já havia se acostumado a rotina do local. Todos os dias eram o mesmo processo. Ás sete da manhã se levantar para tomar café com os outros num enorme salão de refeições. E apesar desse ser um dos únicos momentos no qual podia interagir com outra pessoa, Yuri não era uma pessoa que gostava de partilhar experiências com estranhos. Ás dez da manhã eles voltavam cada um para suas celas, após tomar o famoso banho de sol, nos quais frequentemente havia desentendimentos e brigas entre alguns presos. Dali por diante o dia passava lento como um relógio que para ao meio dia. Sem muita noção de hora, ele guiava-se apenas pela luz do sol. As outras refeições lhe eram servidas em suas próprias celas, decisão essa tomada pelo diretor do presídio para evitar certos confrontos que poderiam acabar em grandes revoltas. Assim passou mais um mês na vida de Yuri, e ele só sabia porque alguns presos faziam questão de comentar nas refeições matinais, mas não era uma coisa que lhe importava o bastante. Certo dia durante o banho de sol um detento chegou a lhe perguntar o que tinha feito para estar ali. Yuri respondeu:

- Matei uma pessoa. - de forma frívola e direta, com os olhos atentos no nada.

- Todos nós estamos aqui por algum motivo, mas todos nós também tivemos motivos para fazer o que fizemos - respondeu o jovem que lhe fez a pergunta.

- Tanto faz. Se estamos aqui é porque devemos. Não me interessa o que fiz, nem porque o fiz. Eles não querem saber de motivos.

- Eu também matei uma pessoa. Mas não me arrependo. Eu acho que fiz o que deveria ser feito. Algumas pessoas não tem o direito de viver.

- Interessante - respondeu Yuri com a face ainda indiferente.

- Você não é muito de falar não é? - perguntou o jovem detento.

- Eu só falo o necessário.

- Sabe que desde que você chegou aqui eu te observo, e você tá sempre tão calado. Você deveria falar mais com os outros ou pelo menos arrumar uma briga de vez em quando. Você tem que fazer valer a pena estar aqui - Yuri soltou um pequeno sorriso.

- Eu soube que você matou sua esposa - disse o jovem detento num tom mais baixo depois de um certo tempo.

- Então porque me perguntou o motivo de eu estar aqui? - indagou Yuri mostrando agora um pouco mais de interesse.

- Sei lá, eu fiquei pensando que talvez você não estivesse a vontade para falar disso. Eu não queria parecer muito intruso nem queria que você me achasse um chato por estar fazendo tantas perguntas. Mas sabe o que eu acho? Você deve ter o seus motivos, assim como todos nós. Eu não vou perguntar os seus porque eu acho que talvez você não queira dizer e muito menos é do meu interesse, mas enfim...

- Cara, você fala muito - interrompeu Yuri soltando um sorriso mais aberto dessa vez.

- Ah - soltou um breve suspiro - todos sempre dizem isso. Mas se você quiser eu posso ir embora.

- Pra mim tanto faz - disse Yuri.

- Então tá eu vou ficar aqui, mesmo que você não queira conversar sobre isso mas eu acho que a gente pode conversar sobre outras coisas, tentar esquecer um pouco do porque estarmos presos - soltou um breve sorriso - você se importa se eu continuar falando? É porque aqui a gente se sente as vezes tão só, e eu sempre gostei muito de conversar, e durante todo esse tempo que estou aqui e já vai fazer um ano, a única pessoa com quem eu mais converso é comigo mesmo. Então pelo menos o fato de você está me ouvindo já ajuda e muito.

- Tá certo. Pode continuar falando - disse Yuri agora retomando a face indiferente.

Foi assim durante muitos dias. O jovem detento passava todas as três horas nas quais eles tinham para comer e ver o sol falando com Yuri. Não era bem uma conversa já que Yuri não participava muito. Poderíamos chamar de monólogo. No começo não era uma coisa que agradava muito à Yuri, mas ele não reclamava e com o tempo até foi achando razoável ter alguém para ouvir durante essas míseras três horas em "liberdade" da cela. Durante longos cinco anos, todos os dias, o jovem detento chegava à mesa onde Yuri estava sentado para poder falar a ele o que tinha sonhado, ou sobre o que gostava de fazer quando tinha liberdade, ou sobre seus familiares e de como odiava a cada um deles. Com o tempo chegou a lhe contar até alguns segredos, que Yuri preferia fingir não acreditar ou não estar escutando. Disse-lhe que morria de medo do seu companheiro de cela e que já tinha ido até a diretoria pedir para ficar na mesma cela que Yuri, mas que seu pedido não foi nem escutado por completo. Contou-lhe o porquê de ter matado seu melhor amigo, e até chorou ao dizer que por mais que tinha motivos o suficiente, ainda assim sentia muita falta dele e que saber que ele não estaria lá fora quando saísse não era uma das melhores lembranças. Certo dia chegou a encostar a cabeça no ombro de Yuri e apenas por um momento preferiu não falar nada, apenas ficar ali, e incrivelmente pra Yuri era como se ele tivesse falado certas coisas que ninguém nunca havia lhe falado. Aquele momento de silêncio valeu mais do que mil palavras que foram ditas durante muitos dias.

Depois de seis anos Yuri foi liberto por bom comportamento, e soube que o jovem detento ainda ficaria lá por um bom tempo. No dia em que foi liberto preferiu não comunicar ao jovem. Deixou o presídio sem nunca ter dividido a cela com ninguém. Saiu meio confuso sem saber o que fazer. Porém resolveu que iria reconstruir a vida em outra cidade, decisão tomada semanas antes de ser liberto. Conseguiu um emprego como garçom em um bar. Ganhava pouco, mas o bastante para se sustentar. Não se casou nunca mais. As vezes sentia falta do jovem detento falando-lhe sobre sua vida e passando horas narrando suas aventuras aqui fora. Yuri tinha aprendido que tanto fazia o que o jovem lhe falava, o que importava era quando ele falava, sua voz com o tempo se tornou mais bonita do que as palavras que ele proferia, mas Yuri não tinha se dado conta. Nunca mais ouviu falar do jovem detento, até procurou saber mas desistiu quando soube que ele já tinha sido liberto, exatamente três anos depois dele. Yuri não achou conveniente ir atrás dele, afinal o jovem detento era do mundo. Era impossível tentar encontrá-lo. Não houve sequer um dia no qual Yuri não lembrasse da voz inquietante do jovem detento. Mas o que ele não esqueceria jamais seria o momento de silêncio que guardou tantas palavras.

- Estevão Eduardo -

Lembre de mim, nem que seja pra me esquecer

Quando você chegar onde quer lembre de mim
Quando você for finalmente feliz lembre de mim
Quando tudo começar a fazer um mínimo de sentido me ligue
Quando você encontrar a pessoa certa, que faria tudo por você, me mande uma carta

Se tudo der certo eu torço para que você seja mais compreenssivo
Se tudo der certo eu espero não ter que chorar mais
Se eu não estiver mais lá, onde deveria estar, tomara que você se esqueça
Se por algum motivo relevante você quiser chorar, não conte a ninguém

Que tudo que se passou, no futuro, seja apenas motivo para vagas lembranças
Que seus filhos sejam mais felizes do que nós
Que minha vida comece da onde você deixou ela cair
Que o destino pare de nos pregar peças

Que a vida passe sem nunca ter acontecido.

- Estevão Eduardo -

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Exploda, isso basta

Desculpe-me mas eu vou explodir sua cabeça. Eu vou ter que forçar você a acreditar no Bem e no Mal. Isso é certo. Aquilo é errado. Seu pai é doido. Seu Pai é perfeito. Sua mãe é uma vagabunda. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Deus é bom. Seus vizinhos são maconheiros e prostitutas. Seus amigos são perversos e fazem sexo sem camisinha. Sua comida é cheia de pólvora e sua mão cheia de graxa. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Essa é a arma que terá que usar. Atire em sua cabeça. Roube a comida do seu próximo. Mate-o. A igreja é uma benção. O inferno é cheio de dor e enxofre. Fale "porra", se arrepende e peça perdão enquanto há vida. Desculpe-me mas eu vou ter explodir sua cabeça. Colonize esses índios. Acabe com suas casas. Destrua seus bens e estupre suas filhas. Coloque fogo em seus corpos e os cubra de terra. Grite em seus ouvidos e morda seus lábios até sangrar. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Coma seu cachorro. Vomite seu almoço. Engorde cinquenta quilos e os perda nas academias. Corra para os restaurantes e coma mais, mais, mais. Jogue fora o resto. Esfregue o lixo na cara dos pobres. Deixe seus restos mortais terem cheiro de hamburguér recém saído do forno. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Suba encima da mesa. Quebre os copos. Corte os pulsos com os cacos. Faça da cortina um gancho para a morte. Quebre as cadeiras nas costas de sua esposa. Induza seu gato a pular da janela de seu apartamento próprio do décimo andar, ou talvez você prefira jogar sua própria filha. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Declare morte aos diferentes. Quebre suas pernas. Mate seus amantes. Arraste seus restos mortais até as portas da igreja e os queime em praça pública. Antecipe o inferno concedido aos errantes, que o diabo providenciou tão cuidadosamente. Grite seus nomes o mais alto que puder. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Seja racional. Mate. Coma. Viva em torno de uma mentira. Corra para o céu. Abrace Deus. Diga: "missão cumprida". Desculpe-me mas eu vou ter que explodir minha cabeça.

- Estevão Eduardo -

do verbo "Crescer".

Quando eu crescer quero ser igual a Deus. Não quero ter que me preocupar com os outros e com o que eles fazem de errado, muito menos as consequências. Não quero perder meu tempo pensando nas tragédias. Eu quero ser famoso, ser reconhecido no mundo inteiro e ter milhões de pessoas chamando pelo nome. Não precisar ter que dormir e nem pensar nas coisas horríveis que antecedem a noite. Muito menos ter que viver preocupando-se em acertar a cada mísero minuto e seguir linhas desenhadas por outras pessoas. Quero ser perfeito e não chorar por ser um simples humano. Não quero pagar pelos erros dos outros e muito menos ter que aguentar as consequências de atos inpensados. Não quero ter princípio, nem pais, obviamente não sentir falta de nenhum deles. Não precisar amar seria uma das melhores qualidades, principalmente não consumar o amor em atos carnais, seria bárbaro. Ter dezenas de e-mails na minha caixa de correio eletrônico e não ter que me preocupar em responder a todos. Não ter amigos e nem precisar agradá-los. Viver em eternas férias e poder visitar lugares maravilhosos sem ser notado. Mudar os pensamentos das pessoas e de vez em quando se esquecer de que existe um mundo aqui embaixo. Não ter defeitos, apenas qualidades. Poder está em todos os lugares, e não estar em nenhum ao mesmo tempo. Não precisar sonhar com o futuro e não ter obrigações domésticas, muito menos ter que trabalhar, até porque já teria gente o suficiente para suprir essa necessidades. Ter o poder de mudar as coisas, mas preferir ver até onde elas vão, só para poder provar minha superioridade. Quando eu crescer, se eu crescer, não quero ter que me preocupar com a existência de nenhum lugar a não ser com aquele que eu estou no exato momento de cada segundo, porque cada segundo por si só é único.

- Estevão Eduardo -

Vocês

Que seja eterno enquanto dure
Que dure enquanto seja feliz
Que seja feliz enquanto há tempo
- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Nossas fotos de cada dia

Onde foram parar as minhas chaves? Eu tinha absoluta certeza que as tinha deixado sobre o sofá, mas você insiste em dizer que não sabe onde elas estão. Não me faça se atrasar, eu tenho que pegar o próximo ônibus, com destino para o inferno, então tenho que me apressar muitíssimo, antes que alguém mais perverso que o próprio diabo me mande pra lá. Não se preocupe com essas pequenas lágrimas que caem do meu rosto, são só imagens repetidas de outras décadas. Não me leve pra cama, é sério, eu preciso encontrar minhas chaves. Porque sempre que eu estou atrasado você insiste em me deitar sobre seu peito e me contar estórias engraçadas? Não pegue na minha mão fingindo não saber o que se passa na minha mente. Poxa amor, você tem que me mostrar e me ajudar a encontrar a porra das chaves. Não que eu queira, mas eu preciso muito ir embora. Não me agarre assim, eu sinto o cheiro da sua pele como ninguém mais poderia sentir. E eu odeio quando você começa a tirar fotos minhas inesperadas, você poderia só por um minuto crescer? Já é tarde, na verdade eu creio que já passa das dez da manhã, então seria bom que você comece a se aprontar e se vestir, tire esse pijama ridículo que sua mãe lhe deu no seu aniversário de dezenove anos e me ajude a encontrar minhas chaves. Pare de me fotografar. Pare de me levar pra cama. Já sei. As chaves devem estar na cozinha, eu acho que as deixei lá quando fui fazer um café pra você ontem à noite. Não, espere. Devem estar no banheiro. Pare de falar no meu ouvido que me ama. Não segure na minha mão desse jeito, eu estou muito atrasado pra poder falar de amor agora. Você continua insistindo. Você sempre foi assim. Difícil. Sempre sóbrio, diferente de você. Mas quer saber? Que se foda. Que se foda minhas chaves. Que se foda o inferno, ou o táxi lá embaixo me esperando. Eu vou ficar aqui com você, fingindo estar triste. Tirando fotos de nossos rostos cansados. Vou deixar você pegar na minha mão e observar as fotos que você grudou, de nós dois, no teto, cair sobre nossas cabeças. Talvez passe o tempo suficiente pra eu esquecer que existe um mundo lá fora. E que se passe o tempo. Amanhã eu juro que encontro minhas chaves.

- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Monstros

Pequenos monstros. Sob a luz refletora do sol tentam se safar de um dia serem destruídos. Tentam encontrar saídas para problemas diversos. Monstros repugnantes, por que ainda insistem em viver? Querem a todo custo achar um pouco de felicidade para esse insosso dia que começa com o sol machucando-os. Buscam tornar um pouco mais útil suas vidas insignificantes. Procuram em outros de sua espécie algo que lhes traga alegria. O Senhor acredita que eles crêem no Mal? Oh Céus, pobres coitados. Alguns mais espertos e inteligentes acabam com sua própria vida, antes mesmo que o destino, ou um de sua espécie, tão retardado quanto os outros, venha e lhe tire a vida. Outros dedicam a maior parte da sua miserável condição a se dedicar à algum outro. Se tão soubessem que aqui é tudo melhor e mais fácil. Mas felizmente - ou não - eles sempre arranjam uma solução. Maldita inclusão intelectual. Se fossem robôs, e não monstros (ir)racionais, talvez pudessem lidar mais facilmente com o fato de terem um conjunto de ordens a obedecer. Idiotas. Todos tão fadados a ignorância. Alguns até conseguem se libertar do corpo, e através da mente, buscar novas formas de evoluírem. Só alguns. Devemos continuar a guiá-los sem saber pra onde eles vão? Devo contá-lo que alguns, por vezes, cometem atos tão animalescos, que ver por outra, continuo me perguntando realmente se o Senhor não acredita na evolução. Perdoe-me por esta observação, apenas ocorreu-me um fato contraditóro durante algum tempo. E pensando assim, talvez chegue-se à conclusão de que talvez algo, ou alguém lhes conduzam a irracionalidade. Mas enfim, não é do meu departamento investigar esses casos. Chocou-me perceber a fé que eles têm em certas coisas. Coisas essas tão banais. Porque eles choram e se entregam por elas? Porque, na verdade, eles choram por tudo? Imbecis. O Senhor não os criou para que eles chorassem, nem mesmo lhes deu essa opção. Na verdade não lhes deu opção alguma a não ser a de quererem ser monstros ou robôs. Mas eu acho que eles estavam fadados sempre a serem monstros. Monstros que procuram respostas, monstros que querem se sentir completos. Monstros que se alegram de sua condição monstruosa. Definitivamente retardados o suficiente para achar que nos importamos com eles, ou quem sabe, que ouvimos tudo o que falam. Temos que informa-lhes que trabalhamos apenas com robôs, e que por enquanto não lidamos com seres pensantes. Senhor destrua-os logo, não que eu queira acabar com sua diversão, nem muito menos retardar seu horário de lazer, mas está se tornando cada vez mais insuportável ver esses monstros tentando, de alguma forma, sobreviver nesse resto de universo que o Senhor construiu. Dispense-os, imediatamente. Depois talvez se sentir entediado pode criar outros e começar tudo de novo.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Enquanto estamos em dúvida

Você não precisa se preocupar com sua consciência, você nem ao menos sabe o que é isso. Você não tem que chorar toda noite se sentindo culpado por apenas ser um ser humano. Talvez até quisesse curar meu mal, mas está com uma preguiça interminável que o impossibilita de ver, com os meus olhos, que não, eu não estou bem. Você quis provar pra todos que seu lado é o melhor e que não há outro que se preocupa tanto com o bem-estar alheio quanto ao que você criou. Você não tem pais pra lhe dizer que é feio brincar com as pessoas dessa maneira? Talvez meu castigo seja ter conhecido a moral e ter deixado, de uma só vez, que tudo que você nos ensinou fosse absorvido como àgua na esponja, mas eu to cheio demais pra me sentir devidamente afogado. Lá encima é tão alto que talvez você nos veja tão pequeno quanto devíamos parecer. As pessoas são boas assim mesmo, ou isso tudo é só ilusão? Eu queria que você fosse meu pai, só meu. Queria ir até a biblioteca de nossa casa e contar a você que eu não sou como os outro. Você diria que tudo bem, num estalar de dedos eu estaria totalmente perfeito da forma como você tinha planejado ao saber que eu ia nascer. Não importa o que eu sentisse, ou fizesse, imperfeito assim como eu sou, você daria um jeito de me olhar e concertar tudo em mim. Infelizmente você adotou todos nós e sente agora uma dificuldade imensa em olhar nos meus olhos e se importar com o que talvez possa ocorrer comigo. Tudo bem, tudo ainda está bem, enquanto você estiver apenas me ouvindo, eu estarei apenas falando.

- Estevão Eduardo -

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cena doméstica

Pra mim seria absolutamente normal se ela de sobressalto metesse a mão na minha cara, ou como sempre gostou de fazer um drama e chamar a atenção para suas necessidades e problemas incuráveis, talvez ela começasse a chorar e colocasse a mão sobre o peito como um prenúncio lógico de um desastre familiar. Já ele ficaria imóvel, ou se por alguma surpresa do destino começasse a palestrar o fato de sermos uma família pseudo-feliz, ficaria completo por saber que tudo que falou, pra todos, mas somente pra ele de certa forma fazia algum sentido. Por outro lado a única que eu sempre quis que ficasse do meu lado, com quem eu gostaria de poder me abrir, contar segredos e desejos e partilhar o fato de termos nascido de uma mesma fonte para torná-la não apenas um membro familiar porém mais que isso, uma amiga. Essa serviria apenas para dizer o quão infeliz eu tornei a todos e me crucificar numa estaca que ela construiu, preparada desde que nasci apenas para mim, como uma forma lógica de que sempre algo estava errado no meu modo de agir. Mas nem sempre fora assim, houve momentos bons de alegria, conversas e trocas de segredos tão secretos quanto o céu azul. Houve momentos em que quis chorar, mas isso passou, hoje talvez seja uma mistura simples de engano, tristeza e fuga. Os piores momentos, por incrível que pareça, sempre foram acompanhados dos melhores, e isso talvez tenha sido um pouco confuso para minha mente infantil. Os fins de semana em guerra por simples palavras soltas, ou ciúmes bobos. Brigas intermináveis por problemas facilmente resolvíveis e que com o tempo percebi que eram tão pequenos quando comparados a imensidão de medo que tenho de mim mesmo e deles quanto ao meu desejo. Simples e prática eram a forma como passavam de um desentendimento e hoje não é difícil vê-los, vez por outra, trocando farpas pequenas e feríveis, uns com os outro. De certa forma eu não sou o melhor, nem nunca serei, mas tomei partido por não tentar compreender e me tornar invisível em certos momentos do dia todo. Essa cena deprimível talvez não seja apenas a minha, mas foi simplesmente a que Deus criou.

- Estevão Eduardo -

domingo, 4 de abril de 2010

Viva

Ele possivelmente deveria ter ligado entre as três ou quatro da manhã, mas eu não entendo o porquê da indiferença, e acima de tudo eu não entendo o que lhe fazia querer gritar exatamente quando eu lhe dava uma bronca no meio de todos, ou quando talvez eu lhe chamava no canto e contava como era aterrador está dizendo coisas tão feias no meio de todos. O motivo foi que talvez ele não quis mais olhar pra trás em busca de tudo que tinha planejado somente pra ele e quem sabe tudo que desenhou e escreveu em seu caderno de pensamentos sejam reflexos de uma mudança, que aos meus olhos não passava de uma mera fase ruim. Certa vez conversamos a respeito de como tudo que fazíamos e falávamos era tão nojento aos olhos de certas pessoas e diante daquelas palavras soltas e de cunho odioso, você soltou um leve suspiro que pra mim foi um espelho ou talvez uma forma cansada de dizer que "tanto faz, afinal não estamos vivos?". Seu quarto bagunçado já era indício de que algo nele - ou seria em mim? - estava errado. Quando eu encontrei você na parada eu pensei em tudo que havia ocorrido, me chegou à cabeça a lembrança daquele dia em que você simplesmente ignorou o fato de que já havia quatro meses que não nos víamos. Eu quis parar o ônibus e lhe dizer um simples "oi". Você parecia alegre demais quando estava pra sair pra qualquer lugar que não fosse seu quarto, mas depois porém as coisas foram mudando e essa alegria transformou-se em mera distração. O cinema estava marcado para às quatro da tarde daquele dia de agosto tão cheio de ventos, mas ela lhe disse que não poderia ir ao encontro porque haveria provas na próxima semana pra ela, ou seja, tudo estava acabado. Foi engraçado o modo como nesse dia você resolveu dá um jeito em sua tristeza alheia e observar o quão ridículo as pessoas podem ser, sentado em um banco e olhando à todos que sua vida não parecia tão vazia - ou quem sabe fosse? Enfim quando você me contou a respeito de tudo que havia acontecido eu ri tão alto que você quis se esconder como ninguém além de você mesmo. Afinal porque logo eu teria sido o escolhido pra rir de suas desventuras? Não, isso bastava pra perceber que tudo que eu escrevera naquele seu caderno, você nem ao menos tinha notado, ou se dado ao luxo de abri-lo na última página, assim como você havia feito no meu. Mas deixemos pra lá detalhes tão inoportunos como a vontade que você teve de me matar naquele dia. Na semana passada você disse que não aguentava mais seus pais, seria verdade ou apenas uma desculpa pra puxar assunto diante daquele tédio que você criou pra todos que lhe rodeavam? Eu sei que eles não são as melhores pessoas, mas pais são pais, são todos iguais, querem nos controlar e pôr fim a nossa vida amorosa e pessoal, então tanto faz se você já não os aguentava, pra mim você continuava aquela criança que pedia um abraço sempre que achava que ia morrer por um simples machucado no coração. Talvez fosse o homem certo pra mudar a vida de muita gente mas preferiu ficar de ligar entre às três e quatro da manhã de um domingo insosso, pra mim. Eu sei que depois de todos aqueles remédios que você começara a tomar, me ligar àquela hora era a ideia mais tola e impossível de acontecer, mas com um pequeno atraso de quinze minutos - verifica-se quatro e quinze da manhã - você me liga pra dizer o quão triste está em observar as estrelas no céu e notar a diferença que é voar e pousar sobre o céu. Durante longos sessenta minutos, e o sol já dava sua graça mesmo que indiscretamente, você narrou tudo que sentia em relação à sua família, seus amigos e sobre Deus. Disse que não aguentava mais certas coisas, ideias e pessoas e que talvez fosse a hora certa pra fugir e tentar construir uma nova vida longe de tanta gente querendo decidir sua vida por você. Depois de uma longa prosa e já cansado de tanto chorar do outro lado e narrar a vida estafante enfim você me pergunta o que eu acho. Não pude responder tudo que queria, afinal aquela não era a hora e nem o meio certo, mas de um modo seco e rápido respondi um simples: "tanto faz, afinal não estamos vivos?".

- Estevão Eduardo -

um símbolo de ingratidão

Eu parei de fazer sentido no momento em que descobri que poderia ser maior do que meus sonhos, quando percebi que finalmente eu respirava e sentia medo por amar outra pessoa. Eu quero fugir e começar a desenhar no céu, com um lápis mágico, o que me dá vontade de dizer e fazer, sem ter que me perguntar se Deus aprova que eu escreva na sua parede pensamentos tão perversos. Só por um instante eu queria me jogar da janela que está atrás de mim e realmente vê se existe um lugar lindo para onde todos os que foram bons vão, ou se eu, de tanto querer e errar, entraria nesse lugar tão perfeitamente idealizado. Eu gostaria de poder calar a voz que grita no meu peito e cessar as lágrimas que dia após dia caem em nome de sua memória. Queria sair de casa sem ter que me preocupar com meus pais e suas vidas limitadas. Ou quem sabe poderia recriar um mundo, dentro do meu próprio quarto, onde pessoas chorariam de alegria por serem extremamente amadas e sorrirem por nunca sentirem o gosto que é amar alguém que não se pode. A minha cama pegaria fogo no momento exato de incosciência que meu corpo traz pra fora de si nos inúmeros sonhos de liberdade que venho tendo. E quem sabe por um momento eu pararia de correr em busca de respostas tão óbvias pra questões tão tolas quanto a existência do amor divino. E pararia imediatamente de rezar esperando que Deus aceite minha condição contrária. Acho que poderia avançar no que chamo de descoberta solo, na qual, independente de todos, eu iria me escutar e fazer tudo que guardei dentro de mim, na escuridão dos meus pesadelos - ou seriam sonhos? Posso voltar a fazer sentido quando essas correntes que me prendem à casa da moralidade se quebrarem diante de todos os desejos que alimento. Isso é tudo pelo qual eu espero.

- Estevão Eduardo -