quarta-feira, 14 de abril de 2010

Nossas fotos de cada dia

Onde foram parar as minhas chaves? Eu tinha absoluta certeza que as tinha deixado sobre o sofá, mas você insiste em dizer que não sabe onde elas estão. Não me faça se atrasar, eu tenho que pegar o próximo ônibus, com destino para o inferno, então tenho que me apressar muitíssimo, antes que alguém mais perverso que o próprio diabo me mande pra lá. Não se preocupe com essas pequenas lágrimas que caem do meu rosto, são só imagens repetidas de outras décadas. Não me leve pra cama, é sério, eu preciso encontrar minhas chaves. Porque sempre que eu estou atrasado você insiste em me deitar sobre seu peito e me contar estórias engraçadas? Não pegue na minha mão fingindo não saber o que se passa na minha mente. Poxa amor, você tem que me mostrar e me ajudar a encontrar a porra das chaves. Não que eu queira, mas eu preciso muito ir embora. Não me agarre assim, eu sinto o cheiro da sua pele como ninguém mais poderia sentir. E eu odeio quando você começa a tirar fotos minhas inesperadas, você poderia só por um minuto crescer? Já é tarde, na verdade eu creio que já passa das dez da manhã, então seria bom que você comece a se aprontar e se vestir, tire esse pijama ridículo que sua mãe lhe deu no seu aniversário de dezenove anos e me ajude a encontrar minhas chaves. Pare de me fotografar. Pare de me levar pra cama. Já sei. As chaves devem estar na cozinha, eu acho que as deixei lá quando fui fazer um café pra você ontem à noite. Não, espere. Devem estar no banheiro. Pare de falar no meu ouvido que me ama. Não segure na minha mão desse jeito, eu estou muito atrasado pra poder falar de amor agora. Você continua insistindo. Você sempre foi assim. Difícil. Sempre sóbrio, diferente de você. Mas quer saber? Que se foda. Que se foda minhas chaves. Que se foda o inferno, ou o táxi lá embaixo me esperando. Eu vou ficar aqui com você, fingindo estar triste. Tirando fotos de nossos rostos cansados. Vou deixar você pegar na minha mão e observar as fotos que você grudou, de nós dois, no teto, cair sobre nossas cabeças. Talvez passe o tempo suficiente pra eu esquecer que existe um mundo lá fora. E que se passe o tempo. Amanhã eu juro que encontro minhas chaves.

- Estevão Eduardo -

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