Ele possivelmente deveria ter ligado entre as três ou quatro da manhã, mas eu não entendo o porquê da indiferença, e acima de tudo eu não entendo o que lhe fazia querer gritar exatamente quando eu lhe dava uma bronca no meio de todos, ou quando talvez eu lhe chamava no canto e contava como era aterrador está dizendo coisas tão feias no meio de todos. O motivo foi que talvez ele não quis mais olhar pra trás em busca de tudo que tinha planejado somente pra ele e quem sabe tudo que desenhou e escreveu em seu caderno de pensamentos sejam reflexos de uma mudança, que aos meus olhos não passava de uma mera fase ruim. Certa vez conversamos a respeito de como tudo que fazíamos e falávamos era tão nojento aos olhos de certas pessoas e diante daquelas palavras soltas e de cunho odioso, você soltou um leve suspiro que pra mim foi um espelho ou talvez uma forma cansada de dizer que "tanto faz, afinal não estamos vivos?". Seu quarto bagunçado já era indício de que algo nele - ou seria em mim? - estava errado. Quando eu encontrei você na parada eu pensei em tudo que havia ocorrido, me chegou à cabeça a lembrança daquele dia em que você simplesmente ignorou o fato de que já havia quatro meses que não nos víamos. Eu quis parar o ônibus e lhe dizer um simples "oi". Você parecia alegre demais quando estava pra sair pra qualquer lugar que não fosse seu quarto, mas depois porém as coisas foram mudando e essa alegria transformou-se em mera distração. O cinema estava marcado para às quatro da tarde daquele dia de agosto tão cheio de ventos, mas ela lhe disse que não poderia ir ao encontro porque haveria provas na próxima semana pra ela, ou seja, tudo estava acabado. Foi engraçado o modo como nesse dia você resolveu dá um jeito em sua tristeza alheia e observar o quão ridículo as pessoas podem ser, sentado em um banco e olhando à todos que sua vida não parecia tão vazia - ou quem sabe fosse? Enfim quando você me contou a respeito de tudo que havia acontecido eu ri tão alto que você quis se esconder como ninguém além de você mesmo. Afinal porque logo eu teria sido o escolhido pra rir de suas desventuras? Não, isso bastava pra perceber que tudo que eu escrevera naquele seu caderno, você nem ao menos tinha notado, ou se dado ao luxo de abri-lo na última página, assim como você havia feito no meu. Mas deixemos pra lá detalhes tão inoportunos como a vontade que você teve de me matar naquele dia. Na semana passada você disse que não aguentava mais seus pais, seria verdade ou apenas uma desculpa pra puxar assunto diante daquele tédio que você criou pra todos que lhe rodeavam? Eu sei que eles não são as melhores pessoas, mas pais são pais, são todos iguais, querem nos controlar e pôr fim a nossa vida amorosa e pessoal, então tanto faz se você já não os aguentava, pra mim você continuava aquela criança que pedia um abraço sempre que achava que ia morrer por um simples machucado no coração. Talvez fosse o homem certo pra mudar a vida de muita gente mas preferiu ficar de ligar entre às três e quatro da manhã de um domingo insosso, pra mim. Eu sei que depois de todos aqueles remédios que você começara a tomar, me ligar àquela hora era a ideia mais tola e impossível de acontecer, mas com um pequeno atraso de quinze minutos - verifica-se quatro e quinze da manhã - você me liga pra dizer o quão triste está em observar as estrelas no céu e notar a diferença que é voar e pousar sobre o céu. Durante longos sessenta minutos, e o sol já dava sua graça mesmo que indiscretamente, você narrou tudo que sentia em relação à sua família, seus amigos e sobre Deus. Disse que não aguentava mais certas coisas, ideias e pessoas e que talvez fosse a hora certa pra fugir e tentar construir uma nova vida longe de tanta gente querendo decidir sua vida por você. Depois de uma longa prosa e já cansado de tanto chorar do outro lado e narrar a vida estafante enfim você me pergunta o que eu acho. Não pude responder tudo que queria, afinal aquela não era a hora e nem o meio certo, mas de um modo seco e rápido respondi um simples: "tanto faz, afinal não estamos vivos?".
- Estevão Eduardo -
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