Ela havia acabado de nascer. Era uma mosca como todas as outras, pelo menos no que diz respeito à aparência. Estavam ali todas as centenas de olhos, um par de asas, que logo aprendeu a usar, e perninhas tão finas, porém tão ágeis. Moscas não têm muito tempo de vida, aliás, elas têm apenas de vinte e cinco a trinta dias de sobrevivência, ou seja, perspectiva de vida muito pouca, se é que há alguma. Nossa mosca era comum, ou como chamam, mosca doméstica, fazia parte do grande conjunto da maioria de seu grupo de insetos, que tem como principal finalidade perseguir e destruir a paciência de qualquer ser vivo. Logo que nasceu aprendeu a voar, apesar de não saber como nasceu e nem ao menos como aprendeu a voar ela estava ali, e havia acabado de nascer e aprendera a alçar voo logo nos primeiros minutos. Assim que voou foi embora, nem despediu-se de sua genitora ou de qualquer familiar mais próximo, mas talvez isso seja normal no mundo em que ela vive. Tratou logo de procurar alimento, o que diga-se de passagem não foi tão difícil, ao lado da casa em que nasceu havia outra casa, devia ser um desses conjugados que nós humanos sempre arrumamos um jeito de fazer. Lá encontrou comida farta à mesa, principalmente porque àquela hora já devia ser de refeição, seja qual for. Posou sobre um pão e começou a devorá-lo, obviamente a seu modo, o que pra nós não representa muita coisa, pra não dizer absolutamente nada. Ficou farta, mas não deixou o seu posto, afinal até então ninguém a tangera dali. Ficou a observar como os seres humanos, tão grandes em sua altura, e tão fortes possuíam apenas dois olhos para ver tudo o que os rodeava, enquanto ela, tão frágil e recém vinda ao mundo, tinha centenas de olhos com sensores que percebia qualquer movimento ao seu redor. Alçou voo mais um vez, mas dessa vez sobrevoou um ser humano ao seu redor e percebeu que ele nem notara sua pequena presença ali no ar, talvez perturbando-o. Tentou mais uma vez, agora em outro ser humano que também estava à mesa, e mais uma vez nada. Eles nem sequer notaram sua presença. Posou um pouco mais longe e começou a pensar que talvez os humanos realmente não conseguissem sentir o que lhes ocorria ao redor, afinal, dois olhos só não servem para absolutamente nada. Decidiu que iria mais além. Alçou voo novamente e dessa vez posou encima do ombro de um dos humanos, e nada. Nem sequer tangeram-na. Desconfiou de que aqueles gigantes realmente poderiam ser amigos e que talvez não precisasse ficar tão desconfiada daquele modo. Então foi pousar no ombro do outro humano, e mais uma vez nada. Sentiu-se feliz, sentiu que poderia fazer parte do círculo de amizade daqueles gigantes tão atraentes, afinal eles nem sequer se incomodaram com sua presença ali, mesmo que pequena. Foi então, assim como todo amigo, desfrutar e partilhar do que tinha ali na mesa, ou seja, foi comer de novo. Começou pelo queijo, onde passou um bom tempo, depois foi até uma superfície lisinha e fria, que mais parecia uma fruta. Comeu bastante e até bebeu algo que também estava ali por cima, apesar dos humanos não terem visto a parte da bebida, mas enfim. Ficou observando-os enquanto trocavam palavras e sinais, que ela não entendia nada, mas achava bonito eles se comunicando, apesar de na sua opinião falarem muito alto. Planejou o que poderiam fazer juntos, afinal ela tinha ainda cerca de vinte e cinco dias pela frente e se desse sorte poderia ter até mais, daí poderia aproveitar bastantes com seus novos amigos gigantes. Imaginou a quantidade enorme que comida que teria, as conversas que fingiriam ter e pensou até em procurar seus familiares pra deixá-los com um pouco de inveja, queria gabar-se. Pensou, refletiu, comeu, observou. Estava à planejar encima da mesa, quando de repente um forte peso veio sobre suas pequenas costas e esmagou suas patas e também destruiu uma de suas asas. Na hora não conseguiu pensar em nada, a dor era imensa, como aquilo havia acontecido e o que poderia ter causado aquilo? Ela se contorcia em dor e aos poucos podia ver seus pequenos órgãos saindo de suas pequenas entranhas, devido a forte pancada. Passou alguns segundos assim, quando sentiu novamente e por último outra forte rajada de peso sobre sua outra asa e sobre sua cabeça. Após essa segunda pancada ela resistiu durante alguns ligeiros segundos e não conseguiu pensar em absolutamente nada que não fosse nos seus planos e de como eles não seriam concretizados. Deu seu último suspiro e por fim morreu no seu primeiro dia de vida. Quando acabou de tomar café, Jorge retirou a mesa e por fim com um pequeno estalo dos dedos chutou a mosca morta longe.
- Estevão Eduardo -