segunda-feira, 28 de junho de 2010

Quilombo Groove

Minha terra nunca dorme. Minha terra tem estrelas que brilham e ofuscam as luzes
de outras cidades, na minha terra as luzes brilham com mais força, o tambor bate
mais alto e a cidade nunca descansa. Lugar de homens bravos, do maracatu
atômico, das ruas repletas de história pra contar. Do Recife Antigo e os falos
do artista, das vilas que viraram cidades, da Olinda imortal, patrimônio do
mundo. Do sertão que passa sede, das crianças adultas, das mulheres valentes, do
banditismo. Na minha terra os coqueiros são mais altos, as frutas mais doces, os
oceanos mais largos, os rios mais longos e destruidores. Na minha terra o mangue
tem história, o pato nasce na lama e os homens nascem no mato. Olinda, com suas
ladeiras, suas noites e seu batuque. Recife, com suas pontes, seus rios, seu
brilho que nunca se apaga. Levo em mim cada parte desse estado, cada monte de
Jaboatão, cada serra de Gravatá, todos os lugares que os leões frequentam. No
meu sangue corre a lama dos mangues, toca o tambor dos maracatus, sofre as
enchentes dessa Veneza, a mais bonita de todas. Terra de Chico, dos zumbis, do
Manuel, do João Cabral, dos caranguejos com cérebro. Sou Pernambucano, sou Leão
do Norte, faço parte desse mundo, dessa vila, desse Estado que guarda o passado
visando o futuro.

- Estevão Eduardo -

domingo, 27 de junho de 2010

Na varanda

Meu copo de leite gelado sobre a mesa. Meus sonhos presos na cabeça, lá fora uma chuva forte molhava e parecia derreter o chão. Escorria pela calçada até entrar numa vala e de lá seguia o caminho até o nada. Chuva, pequenas e solitárias gotas que unidas podem destruir todo o mundo, que correm em direção ao nada, que secam, que fervem e voltam ao céu. Viram nuvens pra depois descer, correr e perseguir o mesmo caminho em diferentes lugares. Meu rosto sente o frio que a chuva traz e meu corpo quente aos poucos cede à pressão. Meus sonhos secos parecem agora querer chuver. Da janela do meu quarto eu vejo a chuva molhar o telhado das outras casas, vejo ela molhar as roupas estendidas no varal e estragar o trabalho das lavadeiras, do meu quarto eu vejo a chuva cumprir seu sentido. Vejo minha vida perder o rumo e aos poucos querer escorrer para o nada. Na minha cama, o único espaço quente do meu quadrado frio, eu deito e abraço meu corpo tentando fingir ter alguém ali para me ajudar a secar. Na varanda eu vejo as pessoas serem molhadas pela chuva, algumas parecem estar apavoradas ao serem tocadas e invadidas pelas pequenas gotas, outras parecem não se interessar e até gostarem de estar ali, ficam paradas em pé no meio da rua esperando a chuva passar. Eu olho e toco a chuva com as pontas do dedo, estendo meu braço até onde as gotas podem me tocar, mas não me invadir. É gelada, fria, solitária, as gotas sozinhas parecem querer gelar, juntas parecem querer destruir. Penso em voltar pra cama quente, tomar meu copo de leite gelado e dormir, ou pelo menos tentar, mas prefiro ficar na varanda, esperar a chuvar passar, ver o que acontece com as pessoas em pé diante da rua molhada, as que se apavoram com os céus, os telhados marrons e o céu cinza. Prefiro sentir o frio no rosto e a àgua tocando as pontas dos dedos. Prefiro ficar ali, parado, observando. Prefiro molhar e deixar escorrer para o nada até voltar ao céu novamente.

- Estevão Eduardo -

domingo, 20 de junho de 2010

A mosca

Ela havia acabado de nascer. Era uma mosca como todas as outras, pelo menos no que diz respeito à aparência. Estavam ali todas as centenas de olhos, um par de asas, que logo aprendeu a usar, e perninhas tão finas, porém tão ágeis. Moscas não têm muito tempo de vida, aliás, elas têm apenas de vinte e cinco a trinta dias de sobrevivência, ou seja, perspectiva de vida muito pouca, se é que há alguma. Nossa mosca era comum, ou como chamam, mosca doméstica, fazia parte do grande conjunto da maioria de seu grupo de insetos, que tem como principal finalidade perseguir e destruir a paciência de qualquer ser vivo. Logo que nasceu aprendeu a voar, apesar de não saber como nasceu e nem ao menos como aprendeu a voar ela estava ali, e havia acabado de nascer e aprendera a alçar voo logo nos primeiros minutos. Assim que voou foi embora, nem despediu-se de sua genitora ou de qualquer familiar mais próximo, mas talvez isso seja normal no mundo em que ela vive. Tratou logo de procurar alimento, o que diga-se de passagem não foi tão difícil, ao lado da casa em que nasceu havia outra casa, devia ser um desses conjugados que nós humanos sempre arrumamos um jeito de fazer. Lá encontrou comida farta à mesa, principalmente porque àquela hora já devia ser de refeição, seja qual for. Posou sobre um pão e começou a devorá-lo, obviamente a seu modo, o que pra nós não representa muita coisa, pra não dizer absolutamente nada. Ficou farta, mas não deixou o seu posto, afinal até então ninguém a tangera dali. Ficou a observar como os seres humanos, tão grandes em sua altura, e tão fortes possuíam apenas dois olhos para ver tudo o que os rodeava, enquanto ela, tão frágil e recém vinda ao mundo, tinha centenas de olhos com sensores que percebia qualquer movimento ao seu redor. Alçou voo mais um vez, mas dessa vez sobrevoou um ser humano ao seu redor e percebeu que ele nem notara sua pequena presença ali no ar, talvez perturbando-o. Tentou mais uma vez, agora em outro ser humano que também estava à mesa, e mais uma vez nada. Eles nem sequer notaram sua presença. Posou um pouco mais longe e começou a pensar que talvez os humanos realmente não conseguissem sentir o que lhes ocorria ao redor, afinal, dois olhos só não servem para absolutamente nada. Decidiu que iria mais além. Alçou voo novamente e dessa vez posou encima do ombro de um dos humanos, e nada. Nem sequer tangeram-na. Desconfiou de que aqueles gigantes realmente poderiam ser amigos e que talvez não precisasse ficar tão desconfiada daquele modo. Então foi pousar no ombro do outro humano, e mais uma vez nada. Sentiu-se feliz, sentiu que poderia fazer parte do círculo de amizade daqueles gigantes tão atraentes, afinal eles nem sequer se incomodaram com sua presença ali, mesmo que pequena. Foi então, assim como todo amigo, desfrutar e partilhar do que tinha ali na mesa, ou seja, foi comer de novo. Começou pelo queijo, onde passou um bom tempo, depois foi até uma superfície lisinha e fria, que mais parecia uma fruta. Comeu bastante e até bebeu algo que também estava ali por cima, apesar dos humanos não terem visto a parte da bebida, mas enfim. Ficou observando-os enquanto trocavam palavras e sinais, que ela não entendia nada, mas achava bonito eles se comunicando, apesar de na sua opinião falarem muito alto. Planejou o que poderiam fazer juntos, afinal ela tinha ainda cerca de vinte e cinco dias pela frente e se desse sorte poderia ter até mais, daí poderia aproveitar bastantes com seus novos amigos gigantes. Imaginou a quantidade enorme que comida que teria, as conversas que fingiriam ter e pensou até em procurar seus familiares pra deixá-los com um pouco de inveja, queria gabar-se. Pensou, refletiu, comeu, observou. Estava à planejar encima da mesa, quando de repente um forte peso veio sobre suas pequenas costas e esmagou suas patas e também destruiu uma de suas asas. Na hora não conseguiu pensar em nada, a dor era imensa, como aquilo havia acontecido e o que poderia ter causado aquilo? Ela se contorcia em dor e aos poucos podia ver seus pequenos órgãos saindo de suas pequenas entranhas, devido a forte pancada. Passou alguns segundos assim, quando sentiu novamente e por último outra forte rajada de peso sobre sua outra asa e sobre sua cabeça. Após essa segunda pancada ela resistiu durante alguns ligeiros segundos e não conseguiu pensar em absolutamente nada que não fosse nos seus planos e de como eles não seriam concretizados. Deu seu último suspiro e por fim morreu no seu primeiro dia de vida. Quando acabou de tomar café, Jorge retirou a mesa e por fim com um pequeno estalo dos dedos chutou a mosca morta longe.

- Estevão Eduardo -

terça-feira, 15 de junho de 2010

Nostalgia

Às vezes, incoscientemente, eu tenho saudade de coisas que não aconteceram. Talvez não haja explicações certas e abalizadas à respeito disso, mas é algo que completa os meus dias, à medida que eles vão se acabando.
- Estevão Eduardo -

domingo, 13 de junho de 2010

Ele

"Estava perdido", foi o que constatei ao vê-lo passar três vezes seguidas pela mesma rua. Algo em sua face também deixava nítido seu incômodo em não reconhecer o lugar, talvez uma mistura de medo, de tristeza. Do alto do prédio eu observava calado o ocorrido. Em sua primeira passada pela rua logo observei-o, um garoto bonito, alto, vestia-se bem, pensei comigo mesmo: "qual a distância entre eu e ele?". Deveria ter sido o amor de muitas pessoas, deveria ter amado tantas outras, mas ao passar pela rua era nítida sua indiferença ao lugar. Senti uma ponta de saudade ao vê-lo indo embora. Pela segunda vez ao passar notei que havia algo errado. Um espanto contido pintava-se em seus olhos. Pensei que talvez o destino tivesse sendo bondoso o bastante em conceder-me a visão de um espelho duas vezes seguidas. Pela terceira vez tive a absoluta certeza de que estava perdido, só, vulnerável, sob o meu olhar. A rua deserta, as lojas fechadas, aquele ar de antiguidade em que vivia a rua deixava seu corpo mais parte do local. Ninguém passava para ajudá-lo, nenhuma alma caridosa prestava-se ao favor de ir ao seu encontro oferecê-lo o caminho de volta. Ele olhava para todos os lados, esperava ainda que alguém gritasse o seu nome, talvez em sua cabeça perguntava-se: "como vim parar aqui?". Numa tentativa frustrada de acalmar-se, sentou-se num banco de frente à loja de um velho amigo do meu avô. Tentou conter o medo, era sensível vê-lo abraçar o nada. Pensei em ajudá-lo, afinal teria feito isso logo na segunda vez que percebi que ele estava perdido, mas não me conti em ver aquele garoto vagando. Pela primeira vez não quis ajudar alguém, não fiz sequer um esforço para tentar mostrá-lo as ruas seguintes, nem ao menos mexi um pé ao seu encontro. Observando-o por mais um tempo vi que ele estava chorando. Com a cabeça encostada nos joelhos, as pernas dobradas encima do banco, as mãos abraçando as pernas. Eu senti suas lágrimas na minha boca, o amargo dos seus olhos no meu ser. E de repente, num acesso de alegria contida ainda não percebida, notei que ele era meu, ali sentado, tão vulnerável, tão inocente, tão sozinho. Apenas eu poderia mostrá-lo a saída, a volta. Dependia de mim se queria soltá-lo ou apenas continuar guardando-o por mais tempo. Eu nunca havia me sentido tão próximo de alguém assim. Eu nunca tinha descoberto tanto a respeito de alguém que não fosse eu próprio. E ali estava ele, um espelho refletindo o meu maior sentimento. O que fazer de mim? O que fazer dele? Estava perdido.

- Estevão Eduardo -

terça-feira, 1 de junho de 2010

Meu OntemAmanhã

Dez copos de água, uma bolsa cheia de seguros de vida, uma cabeça repleta de sonhos, seis telefonemas, cinco músicas cantadas durante o dia, três olhares que me façam acreditar que ainda exista amor, seis risos insossos, uma noite bem dormida, duas frases que valham a pena ser faladas, um sol brando, uma alegria disfarçada, um choro de dor, alguém que te abrace, uma companhia silenciosa, a simples tristeza de acordar e a dor de dormir sozinho. Como conseguir um dia perfeito?
- Estevão Eduardo -