Eu desenho sobre mim retas que não se encontram
Eu derramo ilusões num mar de desejos, às vezes sem querer
Grito nomes que não escutam e que se fazem de surdos ou preferem calar
Rasgo, Tento, Repasso, Trago de volta à tona a vontade ser, querer, estar
Sento por cima do divino e me prosto soberano
Decido que daqui por diante quero a vida mais leve, independente, a brisa que vem do leste
E se eu não te espero é por que talvez eu já tenha ido embora
Eu vou de ônibus e caminho por lugares desconhecidos
Dentro de mim trago cada pedaço dessa cidade, ruas, avenidas, pontes e vilas
Desbravo a vontade que tenho de mergulhar nesse rio que é você
E por vezes sonho em poder entender o real sentido da vida
Comer? Ser comido? Existir é viver? Talvez
E por mais que o silêncio seja a mais bela tradução de todas as palavras
As palavras que têm no silêncio doem mais do que um discurso armado
E as estrelas? Que porra querem as estrelas a mais do que já damos a elas?
Talvez eu seja apenas só, talvez eu derrame menos linhas nessa reta que é a vida
É isso.
- Estevão Eduardo -
sexta-feira, 28 de maio de 2010
sábado, 22 de maio de 2010
Meu gole diário
Sobre a mesa o café ainda quente, preste a esfriar com o tempo. Um livro aberto na página noventa e sete. E eu não parecia interessado em nenhum dos dois. Na cafeteria o sol ainda insistia em aparecer, porém tímido, com a chegada da noite já dava adeus aos que estavam ali. O mundo me era invisível na cafeteria, os problemas eram imperceptíveis. Minha relação consistia basicamente entre eu, meu café e meu livro, e mesmo assim nem tudo parecia completo. A tarde amarga parecia querer dormir e o tempo parecia não acompanhar o relógio. Um aceno de mão e eu peço um pouco mais de açúcar ao garçom. Ele até que é simpático, mas não vou perguntar o nome dele. Daqui a meia hora eu tenho aula mas não sei se quero ir. Acho que vou continuar com meu livro por aqui mesmo, talvez eu peça mais uma xícara de café, ou melhor, acho que vou pedir uma água pra tirar o amargo do café - ou da vida. Mas cadê o garçom? Onde será que ele foi? Ah, está ali atendendo uma senhora, muito idosa por sinal. Na mesa à frente uma outra senhora vai embora com seu marido, os dois parecem tão apaixonados. Eu fico pensando como alguém pode gostar de outra por tanto tempo, eu acho que vira costume, sei lá. Mas eu bem que gostaria de ficar velho assim. Enfim, é melhor eu ir me preparando pra ir embora, eu não posso perder a aula de hoje, um professor vai substituir o antigo, dizem que ele é bem jovem e mais simpático que o outro. Eu e essa minha mania de acreditar no destino. Vou pedir ao garçom pra trazer uma água e minha conta, ou é melhor eu ir lá? Não, não, deixa ele vim até aqui mesmo. Vou chamá-lo assim que encontrá-lo. Na mesa à minha frente um jovem senta, ele com certeza atraiu muitos olhares, mas também, não é por menos. Encontrei! Chamo o garçom com um aceno de mão e ele vem até a minha mesa. "Tu pode trazer a conta e uma garrafa de água, por favor", "ok". Ele tá olhando pra mim. Não, deve ser engano, eu acho que estou com alguma sujeira ou mancha no rosto, ele não pode estar olhando pra mim. Ele continua olhando, odeio isso, me faz sentir a pior pessoa do mundo, senão intimidado. Meu Deus. Vou fingir que não estou olhando também, já sei, vou atender o celular e falar alguma coisa, só pra ver se ele para. Tiro o celular da bolsa, "alô, não, não, daqui a pouco eu tô chegando, acho que daqui a uns dez minutos, é, tá bom, tchau, beijo." Olho pra ele e ele tá olhando pra moça do outro lado, ainda bem. Lá vem o garçom, ótimo. Ele me entrega a água e a nota. R$ 5,50. Pelo visto não é só o gosto do café que era amargo, mas enfim, tirei uma nota de cinco e fiquei procurando uma moeda de cinquenta no fundo da bolsa, não queria pegar uma nota de dez e dar a ele, isso daria mais trabalho e eu me atrasaria, já que ele ainda teria que pegar meu troco. Achei, uma moeda de cinquenta. Entreguei ao garçom, coloquei meu livro dentro da bolsa, pendurei-a nas costas e água ia segurando na mão. Ia até a porta de saída, mas não aguentei e olhei de novo pro jovem da outra mesa e não para minha surpresa ele também estava olhando na minha direção, foi quando ele soltou um sorriso tímido e desviou o olhar. Merda, só me resta agora três horas seguidas de aula.
- Estevão Eduardo -
- Estevão Eduardo -
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Independência grupal
Meu vizinho têm a triste mania de pregar sua independência absoluta. Têm a falha ideia de um mundo individualista. Ontem ele me pediu uma xícara de açúcar. Meu vizinho têm a triste mania de pregar a independência. Têm a falha ideia de um mundo socialista.
- Estevão Eduardo -
Uníssono
Todos nós temos o direito de ficar calados
Todos temos a independência necessária pra nos tornarmos dependentes de alguma ideia ou conceito
Todos temos Deus em nossas casas, resta saber se o deixaremos no nosso quarto ou no sótão sozinho
Todos podem cuidar de seus animais da forma como bem entende, mostrando-lhes carinho dando leves dentadas em sua carne macia
Todos nós podemos nos fingir de mortos e esperar que alguém que nos ressuscite
Todos os humanos, exceto Jesus, são imperfeitos, o que faz cada um de nós único, assim como todos os outros
Todos temos o direito de errar e escolher permancer no erro
Cada um pode fazer a diferença que lhe bem entende e ainda assim permanecer alegre
Todos temos o direito de expressar o que sentimos, desde que saibamos do que estamos falando.
- Estevão Eduardo -
Todos temos a independência necessária pra nos tornarmos dependentes de alguma ideia ou conceito
Todos temos Deus em nossas casas, resta saber se o deixaremos no nosso quarto ou no sótão sozinho
Todos podem cuidar de seus animais da forma como bem entende, mostrando-lhes carinho dando leves dentadas em sua carne macia
Todos nós podemos nos fingir de mortos e esperar que alguém que nos ressuscite
Todos os humanos, exceto Jesus, são imperfeitos, o que faz cada um de nós único, assim como todos os outros
Todos temos o direito de errar e escolher permancer no erro
Cada um pode fazer a diferença que lhe bem entende e ainda assim permanecer alegre
Todos temos o direito de expressar o que sentimos, desde que saibamos do que estamos falando.
- Estevão Eduardo -
terça-feira, 18 de maio de 2010
Em nome do Filho
"Um padre é alguém que orienta, que responde, que acalenta, sendo assim, somos semelhantes a Deus, ou seja, precisamos estar acima das pessoas normais para que só assim possamos ajudá-las." Isso foi a primeira coisa que Edgard escutou ao chegar no seminário. Não era oobviamente algo de tão ruim, afinal estar acima das outras pessoas lhe torna alguém especial, superior, inatingível. Era assim que por algum tempo pareceu sua nova carreira aos olhos do pobre jovem de apenas 15 anos. Pra chegar a essa conclusão precisamos primeiro saber como Edgard chegou ao seminário, mais precisamente como veio a se tornar padre. A história começou quando o menino tinha apenas cinco anos e sua mãe em uma promessa feito ao nosso Senhor, entregou seu filho, desde criança e sem conhecimento do próprio, nas mãos de Deus. Como se nosso Senhor realmente fosse se interessar em receber mais um, ou menos um. Mas enfim, sua mãe, religiosa fervorosa, ofereceu seu filho ao seminário quando esse completasse quinze anos em troca de que ele pudesse se recuperar de uma grave doença. Edgard finalmente foi curado, após seis meses de internamento, pelos médicos, pelo menos é o que parece, já que Deus não se pronunciou nem ao menos para dar sequer um diagnóstico. Sua mãe muito feliz agora sabia que teria que cumprir a promessa que havia feito, já que seu filho fora salvo e saiu ileso. Porém não foi fácil para a mãe de Edgard contar isso a ele, na verdade de morou alguns anos e ele só veio a saber disso quando tinha acabado de completar dez anos. Naquela época foi fácil para Edgard aceitar a promessa feita por sua mãe e que envolvia todo o resto de sua vida, afinal sua mãe não poupou os prós de se levar uma vida religiosa e não faltou pessoas para aconselhá-lo a de que aquele era o melhor modo de vida. Padres, "amigos", vizinhos, parentes religiosos, todos fizeram questão de acostumar Edgard a sua futura vida. E assim o próprio garoto foi se acostumando, já que tinha adquirido certa fé, mesmo sabendo que para ele Deus, em si, era algo bastante abstrato. Ele referia-se ao Senhor como uma pessoa inexistente, ou apenas como um ser impróprio responsável por nos controlar e com o tempo Edgard começou a sentir medo de Deus, mas do que amor, se é que uma criança pode amar alguém que nunca viu. Com o passar de alguns anos Edgard foi notando algo de diferente em seus sentimentos, nada que não pudesse ser superado ou que precisasse ter a atenção do Nosso Senhor. Enfim, um dia após completar quinze anos, Edgard foi mandado ao seminário para estudar teologia. Tudo ali pra ele era novo, e tudo que é novo é atraente, mesmo que não seja bom. Os padres muito educados aparentemente, as poucas freiras lembravam sua mãe e outras até sua avó, o local era calmo e tinha um ar que com o tempo poderia se tornar um pouco monótono. Não havia garotas, e a entrada das mesmas era proibida, talvez uma tentativa de impor o celibato desde cedo. Algumas aulas eram bastante interessantes, outras nem tanto, algumas cansativas e outras técnicas. Certo dia no quarto que dividia com seu colega, Pablo, Edgard se defrontou com uma situação que nunca tinha acontecido. Pablo era um garoto bem diferente de Edgard, era extrovertido e quem o conhecia duvidava de que talvez algum dia pudesse se tornar um padre, acreditava-se que nem virgem ela era mais, já que na sua vizinhança o comentário era que aos onze anos havia se deitado com a filha da vizinha, acontecimento extremamente comentado na época pela cidade. Mas Pablo havia ido parar no seminário pelos mesmos motivos injustos que Edgard, seu pai também havia feito uma promessa, mas de benefício próprio, e em troca teria oferecido o filho a Deus. No quarto Pablo sentia-se bem a vontade, mesmo com a presença de Edgard, com quem ele convivia a pouco tempo. E foi nessa noite que Edgard se deparou com Pablo se despindo, tirando cada parte de sua roupa de seminarista, ficando completamente nu, deixando a mostra suas costas de garoto homem, deixando à mostra seus músculos de menino adulto. Suas partes íntimas despidas de pudor. E Edgard sentiu-se envergonhado, sentiu um ardor nas orelhas, afinal nunca havia visto uma pessoa nua, nem ao menos a si próprio Edgard tinha coragem de olhar no espelho nu. Aquele momento pertubador cheio de segundos monótonos, cheio de orelhas ardentes e sangue pulsante deixou Edgard desconsertado, mas Pablo seguiu o ritmo deixando as roupas caírem no chão e dirigindo-se ao banheiro. Edgard adormeceu e pediu a Deus para que desse vergonha a Pablo. Infelizmente Deus não ouviu Edgard nesse dia. O tempo passou e Edgard foi acostumando-se à vida no seminário. Mas existiam coisas que ele ainda não entendia, ou preferia não entender. Certa vez encontrou uma freira beijando o padre Marcelo, seu professor, em uma sala vazia. Edgard ficou perguntando-se se aquilo era certo. Uma contradição estabeleceu-se em sua mente, qual a diferença entre ensinar e cumprir o ensinamento? Algumas vezes ele tinha achegado-se a mãe para contar essas coisas, mas a única vez que conseguiu recebeu de resposta um: "Pare de bobagem garoto, esses confinamento está deixando você maluco, mas é pro seu bem, logo logo você poderá sair e virar um lindo padre, assim como seus professores". Mas Edgard não queria ser como seus professores. Pablo continuava dando problemas aos Padres e as Freiras, cogitou-se a ideia de que talvez ele pudesse até ser expulso, mas renegaram a pedidos e clamores do pai dele. Agora Pablo nutria o costume de ir dormir completamente nu e lidar com a pele e a nudez foi algo complicado para Edgard. Todas as noites aquele corpo sobre a cama, aquela pele jovem que fervia atrás da orelha era algo que perturbava de uma forma estranha Edgard. Finalmente após saber que Pablo dormia nu, os Padres resolveram expulsar de uma vez por todas ele do seminário. Edgard sentiu-se alegre, pois parte do seu corpo agora podia dormir em paz todas as noites. A solidão crescera com o tempo e os acontecimentos sem explicações aumentavam a partir do momento em que os dias passavam. Com o tempo Edgard começou a nutrir certo ódio por estar ali e a pensar de que talvez tivera sido melhor morrer ao invés de lidar com algumas incertezas que aquele local trazia à sua mente e ao seu corpo. Passados quatro anos enfim ele saiu do seminário para servir em uma pequena igreja no interior da sua cidade. Depois de todo esse tempo Edgard ainda lembra dos seus vizinhos, "amigos', parentes, aconselhando-o a uma vida religiosa. Lembra-se todo dia do corpo de Pablo caído sobre a cama e de como ele desafiava a autoridade do Senhor, e os ardores que começam na orelha se desprendiam por todo o corpo. Lembra-se das freiras prestando serviços carnais aos padres nas salas escuras e vazias daquele seminário enorme. E raciocina que talve tivesse sido melhor sua mãe ter oferecido sua vida aos médicos, já que naquele momentos fora eles que tinham salvo sua vida.
- Estevão Eduardo -
- Estevão Eduardo -
Minhas costas
Ouro coberto de sol, repleto de brilho espesso
A carne é tão fraca que chega a tremer de desejo
Eu grito, choro, me toco, vejo um corpo que passa
Explodo em sentimentos de um lívido prazer
A mão que cumprimenta é a mesma que dá o troco
A boca que fala é a mesma que percorre o corpo
Minhas costas, arauto de gozo extremo, tocada pela vento
Pelas mãos de quem não está, pelos dedos solitários
Meus olhos são a porta aberta ao pecado
Deixados para lembrar do passado
O futuro trás as incertezas do amor
O prazer trás as certezas do momento
Corpo que enlaça o nada, tocado, passado, deitado
Falta alguém
Falta outro corpo
Ou será assim mesmo só e deixado para amar sozinho?
- Estevão Eduardo -
A carne é tão fraca que chega a tremer de desejo
Eu grito, choro, me toco, vejo um corpo que passa
Explodo em sentimentos de um lívido prazer
A mão que cumprimenta é a mesma que dá o troco
A boca que fala é a mesma que percorre o corpo
Minhas costas, arauto de gozo extremo, tocada pela vento
Pelas mãos de quem não está, pelos dedos solitários
Meus olhos são a porta aberta ao pecado
Deixados para lembrar do passado
O futuro trás as incertezas do amor
O prazer trás as certezas do momento
Corpo que enlaça o nada, tocado, passado, deitado
Falta alguém
Falta outro corpo
Ou será assim mesmo só e deixado para amar sozinho?
- Estevão Eduardo -
domingo, 16 de maio de 2010
A visão do mundo pelo olho de um anjo
Um belo dia Deus acordou e resolveu que iria destruir toda a humanidade. Mas não foi uma decisão tomada da noite pro dia. Foi algo bastante planejado, minunciosamente programado para ser executado. Cada cidade que iria ser destruída e por ordem de prioridade, cada pecador que seria julgado, poucos obviamente já que a maioria seria destruída sem julgamento algum. Resolveu que ninguém iria escapar, todos sem exceção deveriam ser mortos. Ele estava cansado de ver tanta violência, tanta fome, miséria e guerra. Estava indignidado com o desejo de homens por outros homens, com a ganância da humanidade, com a idolatria prestada a outros deuses. Havia chegado a hora em que todos deveriam responder pelos seus atos. Mas algo deveria ser feito antes da destruição completa. Em uma reunião realizada nos céus, entre Deus e seus anjos, eles discutiram a possibilidade da humanidade ser avisada antes e talvez mudar de proceder em um período de tempo estimulado pelo Senhor. Achando a ideia pertinente e interessante Deus resolveu acatar a sugestão, afinal o que era um mísero ano para Ele, tão acostumado a viver durante séculos. Assim, ele resolveu mandar um de seus anjos mais importantes para a Terra com o intuito de avisar aos humanos que eles seriam destruídos, a não ser que mudassem de proceder. Essa mudança incluía alguns fatores importantes como a única e exclusiva adoração ao Deus Supremo, a promoção da Paz, os ajustes aos conceito familiar correto, o uso natural do sexo oposto, entre outras coisas que deveriam ser ajustadas no período de um ano. O Anjo Branco, responsável por vim até a Terra, era um dos anjos mais importantes entre o círculo angelical. Ele era bastante respeitado entre os outros, tinha boa conduta e acima de tudo era fiel. Mas o problema era que ele era bastantes compassivo, algo que talvez pudesse interferir em sua tarefa, afinal Deus queria alguém com oponência, com um espírito guerreiro. Mesmo assim Deus resolveu enviar o Anjo Branco até a Terra. A forma como o Anjo viria até a Terra seria obviamente de humano, já que ele seria um profeta, mas se quisesse poderia assumir a forma espiritual a qualquer hora. Deus estipulou algumas regras para que o Anjo viesse para o planeta dos humanos. Entre eles estava não se envolver emocionalmente e fisicamente com nenhum humano, não se compadecer com seus erros, não interferir nas decisões divinas, avisar a todas as pessoas da Terra no período estipulado e para isso ele podia usar dos meios de comunicação humanos ou até dos poderes angelicais que possuía. Enfim, sua tarefa devia apenas avisar aos humanos de sua repentina destruição. Chegara o dia que o Anjo Branco desceria até o planeta Terra, e foi um dia bastante movimentado nos céus, já que era um acontecimento decisivo no decorrer da história dos humanos. Por fim, o Anjo tomou forma de humano e desceu até os seres imperfeitos. Mal sabia Deus que o rumo dessa história mudaria drasticamente, mal sabia Deus que os humanos eram só humanos, mal sabia Deus que um anjo poderia se apaixonar.
- Estevão Eduardo -
- Estevão Eduardo -
terça-feira, 11 de maio de 2010
Simples
Você costumava rir das minhas palhaçadas
A gente costumava criar inveja nos nossos amigos
Você dizia que era adulto demais e que já devíamos casar
Ela cansava de dizer que não dava
Eu sorria do rosto de raiva que você fazia
Eu costumava me divertir das suas iras infundadas
Os livros que você me emprestava e eu nunca devolvia continuam no mesmo lugar
A gente dormia junto durante horas
Preferia calar em vez de falar e estragar o que era belo
E somente as vezes durante a tarde você me trazia um copo d'água
E assim, como quem não queria nada, você era a parte mais importante que eu acabei deixando lá trás.
Os sonhos que a gente tinha você costumava esconder, era só isso e nada mais.
- Estevão Eduardo -
A gente costumava criar inveja nos nossos amigos
Você dizia que era adulto demais e que já devíamos casar
Ela cansava de dizer que não dava
Eu sorria do rosto de raiva que você fazia
Eu costumava me divertir das suas iras infundadas
Os livros que você me emprestava e eu nunca devolvia continuam no mesmo lugar
A gente dormia junto durante horas
Preferia calar em vez de falar e estragar o que era belo
E somente as vezes durante a tarde você me trazia um copo d'água
E assim, como quem não queria nada, você era a parte mais importante que eu acabei deixando lá trás.
Os sonhos que a gente tinha você costumava esconder, era só isso e nada mais.
- Estevão Eduardo -
O mundo lá fora
Era a coisa mais incrível que eu já tinha visto em toda a minha vida. De longe não parecia tão perigoso, mas a medida que se aproximava algo dentro de mim me avisava para me proteger. Eu não tinha a menor noção de como aquele tornado havia se formado, ou pelo menos ninguém havia avisado nos noticiários de que um tornado passaria bem na minha rua. A verdade é que até hoje eu nunca soube como se forma um tornado, mas no momento isso não vem ao caso, já que daqui a poucos minutos um deles passará pela minha casa e infelizmente talvez amanhã eu já não esteja vivo. Meu primeiro impulso foi sair de casa e correr atrás dos meus pais que tinha ido passar um final de semana em um chalé à 30 km da minha casa, ou seja, seria impossível eu conseguir chegar até eles, com certeza o tornado me pegaria pelo caminho. Então decidi ligar para eles rapidamente, enquanto tentava discar os números olhava pela janela e ao mesmo tempo resolvi descer até o sótão e ficar por lá mesmo, já que eu tinha visto em algum desses programas educacionais chatos que passam em tardes de domingo, dizendo que o melhor que se pode fazer é ir para um local seguro, mais precisamente um sótão, já que é subterrâneo. Infelizmente meus pais não atendiam, mas mesmo que eles atendessem a verdade é que não faria diferença alguma já que eles não poderiam se tele transportar pra cá e me salvar, ou se conseguisse fazer isso, acabariam morrendo. Com o passar dos segundo fui rapidamente me acostumando à ideia de que eu iria morrer, e talvez não fosse legal ficar avisando aos meus pais esse tipo de coisa, principalmente antes que aconteça, pode parecer até suicídio. Nada de ligar pra eles. Nesses últimos momentos resolvi pedir perdão para Deus, mas será que ele me escutaria? Será que ele me perdoaria? Comecei a lembrar de tudo e percebi que não me arrependo do que fiz, ou seja, Deus não precisa me perdoar já que eu mesmo não me arrependo de nada. Quer saber, dane-se, daqui a pouco eu vou tá morto e Deus continuará vivo e isso basta, depois mais pessoas morrerão e eu serei apenas mais um. Será que o tornado já está mais próximo? Acabo de me lembrar de que gostaria de pelo menos dizer aos meus pais que eu os amo, na verdade eu nunca disse isso a eles, e me arrependo apenas disso, mas eu poderia consertar com apenas uma ligação, mas percebo que seria muito cliché ligar pra eles enquanto me ouvem dizendo "eu amo você" e o vento me arrastando e desintegrando todo o meu corpo e a linha telefônica também obviamente. Mas quando eu morrer eles vão ter mais coisas pra se preocupar do que ficar lembrando se algum dia eu já disse que amava eles. Acabo de ouvir uns latidos de cachorros, dizem que eles pressentem as coisas, será que o tornado já está se aproximando? Droga, acabo de lembrar que não tenho nenhum amor pra recordar no meu último minuto de vida. Isso é triste, mas daqui a pouco passa. Amor não correspondido não conta essas horas, apenas se for pra deixar uma vontade de realizar coisas que não tive coragem antes. O vento está bem mais forte, estou começando a sentir um frio muito grande, será a morte se aproximando? Ouço som de vidraças quebrando. É, acho que agora é a minha hora. Acho que chegou o momento de dizer a adeus...
08h30 . O despertador toca. Droga. Ter de acordar e lidar com um tornado todos os dias é tão angustiante quanto é viver.
- Estevão Eduardo -
08h30 . O despertador toca. Droga. Ter de acordar e lidar com um tornado todos os dias é tão angustiante quanto é viver.
- Estevão Eduardo -
segunda-feira, 10 de maio de 2010
ligações ao longo da vida .
E : - Não é nada demais. É só que eu acordei um pouco confuso hoje de manhã, como se algumas perguntas estivessem sem respostas, eu não dava a mínima em procurar respondê-las. Algumas coisas ditas durante o dia me deixaram um pouxo triste e até provocaram um certo desentendimento entre mim e algumas pessoas, mas é só. Talvez eu tenha amadurecido demais conforme a época, talvez eu não queira mais fingir algumas coisas.
D : - Você tá estranho, quer que eu vá até aí daqui a pouco? Talvez possamos conversar, tomar alguma coisa ou quem sabe comer?
E : - Não, não. Desculpa por tá ligando, eu só precisava contar algumas coisas, é sério. É que às vezes quando eu não falo certas palavras elas acabam se soltando por elas próprias, e eu odeio falar sozinho.
D : - Então tá. Bem, é que eu vou precisar sair daqui a pouco, então eu não vou poder ficar por muito tempo aqui, mas se você quiser ligar pra mim lá pelas 22h00 eu vou está em casa.
E : - Tá bem, mas eu não sei se lá pelas 22h00 eu vou está com tanto assunto para falar.
D : - Não têm problema, nós inventamos algo. Ou quem sabe apenas fiquemos calados.
- Estevão Eduardo -
D : - Você tá estranho, quer que eu vá até aí daqui a pouco? Talvez possamos conversar, tomar alguma coisa ou quem sabe comer?
E : - Não, não. Desculpa por tá ligando, eu só precisava contar algumas coisas, é sério. É que às vezes quando eu não falo certas palavras elas acabam se soltando por elas próprias, e eu odeio falar sozinho.
D : - Então tá. Bem, é que eu vou precisar sair daqui a pouco, então eu não vou poder ficar por muito tempo aqui, mas se você quiser ligar pra mim lá pelas 22h00 eu vou está em casa.
E : - Tá bem, mas eu não sei se lá pelas 22h00 eu vou está com tanto assunto para falar.
D : - Não têm problema, nós inventamos algo. Ou quem sabe apenas fiquemos calados.
- Estevão Eduardo -
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Fios soltos
07:30. Essa é a hora que meu despertador costuma tocar. Nem sempre foi assim, houve dias em que eu acordava às 08:00, e por incrível que possa parecer foram meus melhores dias. Passo minutos intermiváveis sobre a cama à espera de algo, mas nada acontece. Nem sei porque tenho despertador se de nada me serve. Durante as manhãs a vida parece tão insossa, às vezes acho a manhã o horário mais depressivo de todo o dia, pois você sabe que tem um longo dia pela frente, um longo dia vazio e repleto de nada. Há três meses que larguei meu emprego. Trabalhava em um escritório de advocacia, mas nem sempre gostei de trabalhar com isso, foi mais um sonho do meu tio do que meu. Somente há três meses, logo após a morte do meu tio é que vi que nada mais me prendia ao meu emprego e resolvi pedir demissão. Que meu tio não me ouça, mas foi a melhor coisa que já me aconteceu em toda vida. De lá pra cá venho sobrevivendo de umas economias que tinha feito há alguns anos, quando pretendia viajar para o Canadá, mas parece que agora já não vou poder mais, afinal nem sei porquê queria ir pro Canadá, eu nao sei falar inglês muito menos francês, eu acho que era mais um sonho de criança, quando eu ouvia meu tio falar sobre sua viagem à uma cidade de nome esquisito, eu acho que era Toronto. Mas a vida não é facil quando você está desempregado, apesar de você não gostar de seu antigo emprego, mas também desde que larguei o trabalho não procurei outro. Venho tentando me achar durante todo esse tempo, afinal desde os meus 17 anos que eu me perdi na vida de outras pessoas e acabei deixando a minha pelo caminho. Porém a lentidão dos dias não ajuda. Certos dias parece que nunca acabam e algumas semanas parece que nem passaram. Tempo pra pensar eu tenho suficiente, mas pensar no que eu sou ou no que eu poderia ter sido me deixa angustiado. Um dia desses eu me lembrei que quando eu era pequeno queria ser veterinário, sempre gostei de animais, mas não podia cuidar deles continuando a comer carne animal, era como ser um médico e nas refeições comer carne humana, que nojo. Desisti de ser veterinário ontem. Não lembro muito da minha infância, muito menos dos desejos que tinha quando era pequeno, se é que tinha desejos. Lembro vagamente do meu tio falando sobre como o mundo era injusto com as pessoas, eu nunca entendia, vim compreender aos 17 quando me apaixonei sem ser correspondido. Não posso dizer que sou uma pessoa infeliz, pois tenho tudo que uma pessoa saudável poderia ter, mas isso basta, uma vez, certa senhora me falou que falicidade provinha de você ter aquilo que sempre deseja. Mas pensando direitinho ninguém pode ser feliz, já que nem todo mundo tem o que deseja, até porque seria muito difícil você ser realizado em sentido profissional, amoroso, econômico, blábláblá. Eu acho que as coisas poderiam ser muito mais fáceis se a felicidade pudesse ser comprada, vinhesse em uma caixa enrolada em um laço, assim todas as pessoas seriam bem-sucedidas sem ter de se preocupar em desejar algo e não ter. Mas talvez a essência que mantenha a vida seja a procura por algo inacessível. Meus planos para a tarde geralmente incluem visitar uma cafeteria aqui perto de casa, eu gosto do ambiente calmo e do cheiro de lá. Gosto também de observar as pessoas e vê a reação delas em algumas situações. Durante a noite eu procuro sempre algo pra assistir na televisão, ou na maioria das vezes procuro ler algum livro, o que é bem mais interessante. Talvez eu devesse ser escritor, mas o que me impede é o fato de eu gostar muito de ser quem eu sou, apesar das minhas desventuras. Resolvi que amanhã eu resolvo o que vou fazer da minha vida, mas por enquanto eu estou pensando se coloco o despertador pra tocar às 07:30 ou 08:00.
- Estevão Eduardo -
- Estevão Eduardo -
Nossos segredos
Obviamente há algo sobre todos nós que deveria ser enterrado, deixado morto por baixo da terra. Há algo de nós que ultrapassa a dor de viver, que chega a ser eterno enquanto há vida. Há muito sobre cada um que poderia nem existir e que de alguma outra forma deveria ser mantida em silêncio em respeito à vida. Existe um monstro em cada pessoa que deveria ser morto ao nascer e que não tivesse voz ao falar, que não existisse enquanto há alegria.
- Estevão Eduardo -
- Estevão Eduardo -
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