terça-feira, 11 de maio de 2010

O mundo lá fora

Era a coisa mais incrível que eu já tinha visto em toda a minha vida. De longe não parecia tão perigoso, mas a medida que se aproximava algo dentro de mim me avisava para me proteger. Eu não tinha a menor noção de como aquele tornado havia se formado, ou pelo menos ninguém havia avisado nos noticiários de que um tornado passaria bem na minha rua. A verdade é que até hoje eu nunca soube como se forma um tornado, mas no momento isso não vem ao caso, já que daqui a poucos minutos um deles passará pela minha casa e infelizmente talvez amanhã eu já não esteja vivo. Meu primeiro impulso foi sair de casa e correr atrás dos meus pais que tinha ido passar um final de semana em um chalé à 30 km da minha casa, ou seja, seria impossível eu conseguir chegar até eles, com certeza o tornado me pegaria pelo caminho. Então decidi ligar para eles rapidamente, enquanto tentava discar os números olhava pela janela e ao mesmo tempo resolvi descer até o sótão e ficar por lá mesmo, já que eu tinha visto em algum desses programas educacionais chatos que passam em tardes de domingo, dizendo que o melhor que se pode fazer é ir para um local seguro, mais precisamente um sótão, já que é subterrâneo. Infelizmente meus pais não atendiam, mas mesmo que eles atendessem a verdade é que não faria diferença alguma já que eles não poderiam se tele transportar pra cá e me salvar, ou se conseguisse fazer isso, acabariam morrendo. Com o passar dos segundo fui rapidamente me acostumando à ideia de que eu iria morrer, e talvez não fosse legal ficar avisando aos meus pais esse tipo de coisa, principalmente antes que aconteça, pode parecer até suicídio. Nada de ligar pra eles. Nesses últimos momentos resolvi pedir perdão para Deus, mas será que ele me escutaria? Será que ele me perdoaria? Comecei a lembrar de tudo e percebi que não me arrependo do que fiz, ou seja, Deus não precisa me perdoar já que eu mesmo não me arrependo de nada. Quer saber, dane-se, daqui a pouco eu vou tá morto e Deus continuará vivo e isso basta, depois mais pessoas morrerão e eu serei apenas mais um. Será que o tornado já está mais próximo? Acabo de me lembrar de que gostaria de pelo menos dizer aos meus pais que eu os amo, na verdade eu nunca disse isso a eles, e me arrependo apenas disso, mas eu poderia consertar com apenas uma ligação, mas percebo que seria muito cliché ligar pra eles enquanto me ouvem dizendo "eu amo você" e o vento me arrastando e desintegrando todo o meu corpo e a linha telefônica também obviamente. Mas quando eu morrer eles vão ter mais coisas pra se preocupar do que ficar lembrando se algum dia eu já disse que amava eles. Acabo de ouvir uns latidos de cachorros, dizem que eles pressentem as coisas, será que o tornado já está se aproximando? Droga, acabo de lembrar que não tenho nenhum amor pra recordar no meu último minuto de vida. Isso é triste, mas daqui a pouco passa. Amor não correspondido não conta essas horas, apenas se for pra deixar uma vontade de realizar coisas que não tive coragem antes. O vento está bem mais forte, estou começando a sentir um frio muito grande, será a morte se aproximando? Ouço som de vidraças quebrando. É, acho que agora é a minha hora. Acho que chegou o momento de dizer a adeus...

08h30 . O despertador toca. Droga. Ter de acordar e lidar com um tornado todos os dias é tão angustiante quanto é viver.

- Estevão Eduardo -

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