terça-feira, 18 de maio de 2010

Em nome do Filho

"Um padre é alguém que orienta, que responde, que acalenta, sendo assim, somos semelhantes a Deus, ou seja, precisamos estar acima das pessoas normais para que só assim possamos ajudá-las." Isso foi a primeira coisa que Edgard escutou ao chegar no seminário. Não era oobviamente algo de tão ruim, afinal estar acima das outras pessoas lhe torna alguém especial, superior, inatingível. Era assim que por algum tempo pareceu sua nova carreira aos olhos do pobre jovem de apenas 15 anos. Pra chegar a essa conclusão precisamos primeiro saber como Edgard chegou ao seminário, mais precisamente como veio a se tornar padre. A história começou quando o menino tinha apenas cinco anos e sua mãe em uma promessa feito ao nosso Senhor, entregou seu filho, desde criança e sem conhecimento do próprio, nas mãos de Deus. Como se nosso Senhor realmente fosse se interessar em receber mais um, ou menos um. Mas enfim, sua mãe, religiosa fervorosa, ofereceu seu filho ao seminário quando esse completasse quinze anos em troca de que ele pudesse se recuperar de uma grave doença. Edgard finalmente foi curado, após seis meses de internamento, pelos médicos, pelo menos é o que parece, já que Deus não se pronunciou nem ao menos para dar sequer um diagnóstico. Sua mãe muito feliz agora sabia que teria que cumprir a promessa que havia feito, já que seu filho fora salvo e saiu ileso. Porém não foi fácil para a mãe de Edgard contar isso a ele, na verdade de morou alguns anos e ele só veio a saber disso quando tinha acabado de completar dez anos. Naquela época foi fácil para Edgard aceitar a promessa feita por sua mãe e que envolvia todo o resto de sua vida, afinal sua mãe não poupou os prós de se levar uma vida religiosa e não faltou pessoas para aconselhá-lo a de que aquele era o melhor modo de vida. Padres, "amigos", vizinhos, parentes religiosos, todos fizeram questão de acostumar Edgard a sua futura vida. E assim o próprio garoto foi se acostumando, já que tinha adquirido certa fé, mesmo sabendo que para ele Deus, em si, era algo bastante abstrato. Ele referia-se ao Senhor como uma pessoa inexistente, ou apenas como um ser impróprio responsável por nos controlar e com o tempo Edgard começou a sentir medo de Deus, mas do que amor, se é que uma criança pode amar alguém que nunca viu. Com o passar de alguns anos Edgard foi notando algo de diferente em seus sentimentos, nada que não pudesse ser superado ou que precisasse ter a atenção do Nosso Senhor. Enfim, um dia após completar quinze anos, Edgard foi mandado ao seminário para estudar teologia. Tudo ali pra ele era novo, e tudo que é novo é atraente, mesmo que não seja bom. Os padres muito educados aparentemente, as poucas freiras lembravam sua mãe e outras até sua avó, o local era calmo e tinha um ar que com o tempo poderia se tornar um pouco monótono. Não havia garotas, e a entrada das mesmas era proibida, talvez uma tentativa de impor o celibato desde cedo. Algumas aulas eram bastante interessantes, outras nem tanto, algumas cansativas e outras técnicas. Certo dia no quarto que dividia com seu colega, Pablo, Edgard se defrontou com uma situação que nunca tinha acontecido. Pablo era um garoto bem diferente de Edgard, era extrovertido e quem o conhecia duvidava de que talvez algum dia pudesse se tornar um padre, acreditava-se que nem virgem ela era mais, já que na sua vizinhança o comentário era que aos onze anos havia se deitado com a filha da vizinha, acontecimento extremamente comentado na época pela cidade. Mas Pablo havia ido parar no seminário pelos mesmos motivos injustos que Edgard, seu pai também havia feito uma promessa, mas de benefício próprio, e em troca teria oferecido o filho a Deus. No quarto Pablo sentia-se bem a vontade, mesmo com a presença de Edgard, com quem ele convivia a pouco tempo. E foi nessa noite que Edgard se deparou com Pablo se despindo, tirando cada parte de sua roupa de seminarista, ficando completamente nu, deixando a mostra suas costas de garoto homem, deixando à mostra seus músculos de menino adulto. Suas partes íntimas despidas de pudor. E Edgard sentiu-se envergonhado, sentiu um ardor nas orelhas, afinal nunca havia visto uma pessoa nua, nem ao menos a si próprio Edgard tinha coragem de olhar no espelho nu. Aquele momento pertubador cheio de segundos monótonos, cheio de orelhas ardentes e sangue pulsante deixou Edgard desconsertado, mas Pablo seguiu o ritmo deixando as roupas caírem no chão e dirigindo-se ao banheiro. Edgard adormeceu e pediu a Deus para que desse vergonha a Pablo. Infelizmente Deus não ouviu Edgard nesse dia. O tempo passou e Edgard foi acostumando-se à vida no seminário. Mas existiam coisas que ele ainda não entendia, ou preferia não entender. Certa vez encontrou uma freira beijando o padre Marcelo, seu professor, em uma sala vazia. Edgard ficou perguntando-se se aquilo era certo. Uma contradição estabeleceu-se em sua mente, qual a diferença entre ensinar e cumprir o ensinamento? Algumas vezes ele tinha achegado-se a mãe para contar essas coisas, mas a única vez que conseguiu recebeu de resposta um: "Pare de bobagem garoto, esses confinamento está deixando você maluco, mas é pro seu bem, logo logo você poderá sair e virar um lindo padre, assim como seus professores". Mas Edgard não queria ser como seus professores. Pablo continuava dando problemas aos Padres e as Freiras, cogitou-se a ideia de que talvez ele pudesse até ser expulso, mas renegaram a pedidos e clamores do pai dele. Agora Pablo nutria o costume de ir dormir completamente nu e lidar com a pele e a nudez foi algo complicado para Edgard. Todas as noites aquele corpo sobre a cama, aquela pele jovem que fervia atrás da orelha era algo que perturbava de uma forma estranha Edgard. Finalmente após saber que Pablo dormia nu, os Padres resolveram expulsar de uma vez por todas ele do seminário. Edgard sentiu-se alegre, pois parte do seu corpo agora podia dormir em paz todas as noites. A solidão crescera com o tempo e os acontecimentos sem explicações aumentavam a partir do momento em que os dias passavam. Com o tempo Edgard começou a nutrir certo ódio por estar ali e a pensar de que talvez tivera sido melhor morrer ao invés de lidar com algumas incertezas que aquele local trazia à sua mente e ao seu corpo. Passados quatro anos enfim ele saiu do seminário para servir em uma pequena igreja no interior da sua cidade. Depois de todo esse tempo Edgard ainda lembra dos seus vizinhos, "amigos', parentes, aconselhando-o a uma vida religiosa. Lembra-se todo dia do corpo de Pablo caído sobre a cama e de como ele desafiava a autoridade do Senhor, e os ardores que começam na orelha se desprendiam por todo o corpo. Lembra-se das freiras prestando serviços carnais aos padres nas salas escuras e vazias daquele seminário enorme. E raciocina que talve tivesse sido melhor sua mãe ter oferecido sua vida aos médicos, já que naquele momentos fora eles que tinham salvo sua vida.

- Estevão Eduardo -

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