Sobre a mesa o café ainda quente, preste a esfriar com o tempo. Um livro aberto na página noventa e sete. E eu não parecia interessado em nenhum dos dois. Na cafeteria o sol ainda insistia em aparecer, porém tímido, com a chegada da noite já dava adeus aos que estavam ali. O mundo me era invisível na cafeteria, os problemas eram imperceptíveis. Minha relação consistia basicamente entre eu, meu café e meu livro, e mesmo assim nem tudo parecia completo. A tarde amarga parecia querer dormir e o tempo parecia não acompanhar o relógio. Um aceno de mão e eu peço um pouco mais de açúcar ao garçom. Ele até que é simpático, mas não vou perguntar o nome dele. Daqui a meia hora eu tenho aula mas não sei se quero ir. Acho que vou continuar com meu livro por aqui mesmo, talvez eu peça mais uma xícara de café, ou melhor, acho que vou pedir uma água pra tirar o amargo do café - ou da vida. Mas cadê o garçom? Onde será que ele foi? Ah, está ali atendendo uma senhora, muito idosa por sinal. Na mesa à frente uma outra senhora vai embora com seu marido, os dois parecem tão apaixonados. Eu fico pensando como alguém pode gostar de outra por tanto tempo, eu acho que vira costume, sei lá. Mas eu bem que gostaria de ficar velho assim. Enfim, é melhor eu ir me preparando pra ir embora, eu não posso perder a aula de hoje, um professor vai substituir o antigo, dizem que ele é bem jovem e mais simpático que o outro. Eu e essa minha mania de acreditar no destino. Vou pedir ao garçom pra trazer uma água e minha conta, ou é melhor eu ir lá? Não, não, deixa ele vim até aqui mesmo. Vou chamá-lo assim que encontrá-lo. Na mesa à minha frente um jovem senta, ele com certeza atraiu muitos olhares, mas também, não é por menos. Encontrei! Chamo o garçom com um aceno de mão e ele vem até a minha mesa. "Tu pode trazer a conta e uma garrafa de água, por favor", "ok". Ele tá olhando pra mim. Não, deve ser engano, eu acho que estou com alguma sujeira ou mancha no rosto, ele não pode estar olhando pra mim. Ele continua olhando, odeio isso, me faz sentir a pior pessoa do mundo, senão intimidado. Meu Deus. Vou fingir que não estou olhando também, já sei, vou atender o celular e falar alguma coisa, só pra ver se ele para. Tiro o celular da bolsa, "alô, não, não, daqui a pouco eu tô chegando, acho que daqui a uns dez minutos, é, tá bom, tchau, beijo." Olho pra ele e ele tá olhando pra moça do outro lado, ainda bem. Lá vem o garçom, ótimo. Ele me entrega a água e a nota. R$ 5,50. Pelo visto não é só o gosto do café que era amargo, mas enfim, tirei uma nota de cinco e fiquei procurando uma moeda de cinquenta no fundo da bolsa, não queria pegar uma nota de dez e dar a ele, isso daria mais trabalho e eu me atrasaria, já que ele ainda teria que pegar meu troco. Achei, uma moeda de cinquenta. Entreguei ao garçom, coloquei meu livro dentro da bolsa, pendurei-a nas costas e água ia segurando na mão. Ia até a porta de saída, mas não aguentei e olhei de novo pro jovem da outra mesa e não para minha surpresa ele também estava olhando na minha direção, foi quando ele soltou um sorriso tímido e desviou o olhar. Merda, só me resta agora três horas seguidas de aula.
- Estevão Eduardo -
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