Sua mãe sempre o fazia ir no banco detrás, mesmo ele já crescido, mas não era algo que lhe incomodava. De acordo com ela era melhor que seu filho fosse no banco detrás devido aos acidentes, algo que ela tinha um pavor imenso, e se aprendera a dirigir foi porque a necessidade lhe impôs. Pensava sempre nos imprevistos, nos possíveis acontecimentos que poderiam ocorrer na estrada, e se alguma vez, Deus os livre, mas ocorresse algo fatal, ao menos seu filho poderia sair ileso, já que o banco detrás, ao seu entendimento, trazia certa segurança. Sempre que saía de qualquer local checava se tudo estava absolutamente certo e no seu devido lugar, cinto, cadeira, se os freios e a embreagem estavam funcionando, para que só depois de todo esse ritual pudesse dar a partida no carro e seguir seu caminho, mas se seu filho estivesse com ela no mesmo carro a atenção era redobrada. Sua mãe sempre lhe chamara a atenção dessa excessiva preocupação, não que fosse ruim, mas que talvez um dia pudesse até endoidá-la, em sua mente passava a impressão de que sua querida filha poderia ter transtorno obsessivo compulsivo e que a saúde mental de seu neto poderia até estar sendo prejudicada, já que o menino, com 15 anos, estava na fase de construção da personalidade mental. Mas Cláudia não ligava para os comentários da mãe, sabia que aquilo poderia ser mera preocupação de mães, assim como tinha com seu filho. Ao partir em viagem, Cláudia sempre prestava atenção nos mínimos detalhes, sempre estava alerta a qualquer acontecimento no trânsito e ficava extremamente irritada quando via que alguém não respeitava à sinalização, os pedestres e as leis, sempre achava que esses descuidos é que poderiam causar sérios transtornos à outras pessoas e, oh Deus, à ela. De minutos em minutos sempre olhava pelo retrovisor para checar se estava tudo bem com seu filho, mas o menino parecia nunca ter expressão, era algo que preocupava Cláudia, com o rosto grudado na janela fechada do carro, o menino vislumbrava a paisagem, seja ela qual fosse. Dentro de seus olhos as imagens da cidade pareciam-lhes intocáveis, virgens, nunca conhecidas. As pessoas transitando de um lado para o outro sempre sem rumo, os animais sempre pendurados em coleiras, e quando não presos, soltos demais no meio da rua, abandonados, animais e pessoas. Cláudia até tentara entender um pouco o que se passava na mente de Lucas, mas desistira aos poucos, ao final constatara que poderia ser aquelas inúmeras fases adolescentes. Ela preocupava-se apenas com a saúde física do filho, a mental não era algo tão grave, afinal para ela, ele não tinha nada, e realmente talvez ele não tivesse nada. Certo dia encontrara Lucas no banheiro desmaiado, ficara tão desesperada que não tivera coragem para levá-lo de carro até o hospital, teve de pedir a ajuda de um vizinho para que ele conduzisse o carro até o hospital mais próximo. Ainda assim Cláudia, mesmo desesperada com a situação do seu filho, que não aparentava nenhum corte ou pancada, quis checar se o carro estava em plenas condições de transportá-los, e levou o garoto no banco detrás. Depois desse dia, Cláudia obrigou seu filho a tomar banho sempre de porta aberta, o que constrangia o garoto certas vezes. O diagnóstico não havia sido algo tão grave, uma baixa de pressão, algo que o garoto herdara do pai. Ela nunca fizera uma viagem longa de carro, nem sozinha, muito menos com seu filho, e nem permitia que o garoto as fizesse, a não ser que ela soubesse quem o levaria e as condições nas quais ele fosse. Era um cuidado excessivo não só consigo, mas também com Lucas. Todos a criticavam, mesmo não sendo uma crítica abusiva, de que ela deveria deixá-lo mais livre, e ela própria livrar-se dessas "paranoias". Talvez fosse cuidado excessivo realmente, mas é que Cláudia sabia, ela sentia no fundo de sua alma que não era algo sem explicação que a fizera agir de tal modo, ela bem sabia que tinha de proteger-se para que algo de terrível não lhe afligisse, afinal se ela morresse, quem cuidaria de Lucas? Quem se preocuparia com sua saúde física? Quem estaria lá para socorrê-lo se sua pressão baixasse novamente? Quem o lembraria de tomar seus remédios nas horas exatas? Ela era a parte principal da vida dele, e ela sabia-o. Mas tomara cuidado com ele também porque sem ele, ela não era nada. Cláudia já havia perdido seu marido pra morte, devido à uma complicação pós cirúrgica, e agora naquela vida, Cláudia só tinha seu filho, e Lucas só tinha ela, era um convivência recíproca. Ela não se preocupava tanto com a saúde mental de seu filho porque só a presença dele a reconfortava, só o fato de ele estar ali, no banco detrás, a deixava surpresa e cheia de vida, e era essa vida que ela não queria perder. Cláudia era cuidadosa porque sabia o valor da vida, mesmo sem saber que nem tudo é eterno.
- Estevão Eduardo -