sexta-feira, 2 de julho de 2010

Despedida

Ele havia me ensinado tantas coisas. Graças a sua inteligência eu encontrei uma saída pra mim mesmo. Foi por meio dele que descobri Gabriel Garcia Marquez, que li os relatos de Capote, que consegui diferenciar as mais famosas óperas, que deixei cair ao chão meus medos, que desenhei pela primeira vez o que sentia. Ele me conduzia a um abismo enorme, eu não parava de cair, mas não me importava, fazia-me ouvir sinos tocarem lentamente uma canção antiga. Com suas mãos ele tocava cada parte da minha frágil casa feita de pedra, as pequenas rachaduras ele curava, a desordem instalada ele organizava, a escuridão ele fazia sumir. E aos poucos o ato de cair não me era tão novo, parecia-me um conforto está sempre à beira de um caos, à espera de algo novo que ele com toda certeza traria para minha vida, e não obstante ele nunca me decepcionara. Sua voz rouca parecia trovoar sobre um céu de estrelas, e quando ele falava, num ato reconfortante, meus ouvidos tremiam, sentiam a dor, e a dor era prazerosa. Graças a ele eu descobri que a vida não é feita de planos, e que por mais que tracemos um destino sempre chegamos a lugar algum. Ele me fez ver que depois das nuvens existem apenas estrelas, e que não devemos temer a morte quando se ama alguém, ainda que o amor seja vida. E agora, ali, sentado sobre o sofá, ele parecia querer me dizer com os olhos secos que não faria diferença dali por diante. Eu disse pra mim mesmo que não cairia mais, que teria de me acostumar a pôr os pés em terra firme. Que teria de me acostumar a não ler mais livros que trouxessem a lembrança dos "tempos de cólera". Dali por diante, abaixo dos céus haveria apenas eu, e acima apenas as nuvens. Ele soltou mais algumas palavras roucas e deu um trago demorado no cigarro, parecia querer sumir entre a fumaça, olhava atentamente o branco se dissipar no ar. Eu mirava seus olhos secos, pensava em como sua calça rasgada me fizera rir durante algumas tardes. E ele deu mais um gole no café que estava na xícara sobre a mesa. Num ato impensado pôs a xícara sobre sua perna esquerda, apoiando-a com a mão. Ficou longos cinco minutos sem trovejar brandamente. Sua voz muda parecia um céu nublado. E no silêncio ficaram presos longos cinco minutos, que, naquele instante, pareceram uma eternidade. Disse-lhe que levaria notícias sobre Ana e que aos poucos teria de me acostumar à nova mudança. Minha voz parecia não querer sair, minhas forças pareciam chuviscar no molhado. E ele seco, tão árido, compenetrado. Pôs a xícara de café na mesa ao lado, apagou o cigarro no cinzeiro, pôs a mão sobre as pernas, olhou para mim, disse-me que era o certo, logo ele, tão longe de certos e errados. Logo ele, tão certo de que era errado, tão livre para errar, tão longe do que não era banal. Sem palavras levantou-se, atravessou a sala, olhou mais uma vez em direção ao nada, e seco, foi embora. Logo ele, tão possessivo, tão daquela casa, tão parte do que eu me tornara, tão dentro do meu futuro incerto, foi-se. E eu, aos poucos, fiquei sentindo o pouco da fumaça que ele deixara, do café sobre a mesa, dos livros que ele me ensinara a gostar e que esqueceu sobre a cabeceira do seu quarto. Aos poucos eu comecei a sentir como era pouco tudo o que restara, como era grande o que ele tinha me feito descobrir, como era vazia aquela casa sem os trovões de cada noite, sem a luz de cada manhã, sem a descoberta de cada dia. Cada dia.

- Estevão Eduardo -

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