sábado, 7 de agosto de 2010

Toque

Ela pôs a mão sobre aquele corpo frio, liso. Deslizou os dedos por entre as curvas de sua cintura, deixando escorrer por entre as mãos o pecado. Aquele corpo nu em frente ao espelho, sentindo cada pedaço do seu ventre, o cabelo por cima dos ombros, deslizando pelas costas, sendo conduzido pelo vento. Ela colocou as mãos no seios e os apertou forte, apalpou-os como nunca o fizera, sentiu aos poucos eles enrijecerem, deixou que o arrepio tomasse conta de seus braços, e sentindo a brisa fria da manhã entrar pela janela, ela deixou estar, só por esse momento. Deixou sentir o corpo esquentar. Levantou as mãos até o ombro e as foi posicionando na nuca, retirando cada fio de cabelo que pousava nas costas, sem pressa, pela primeira vez, sem pressa. E suspendeu o cabelo encaracolado como num ato de libertação, revelando agora seu local mais precioso, a nuca, que nesse momento sentira o frio matutino. E ela soltou um suspiro em forma de gozo, e em seus olhos entreabertos nada se notava, mas em sua boca um sorriso desprendera-se, e assim ficara até abrir os olhos novamente e se deparar com sua imagem em frente ao espelho. Ela olhou em seus próprios olhos, parada, segurando os cabelos. Retornou as mãos aos ombros e deixou-as ir caindo, abrindo espaço em cada curva daquele corpo frio, que se ouriçava a cada toque. E ela pôs as mãos sobre o ventre, deixou-as ali, como se estivesse sentindo um novo ser em seu interior, mas nada batia lá dentro, nada estava a morar naquele ventre, e só por um momento sua mente se desviou do errado. Foi abaixando as mãos sobre o ventre e deslizando-as até suas coxas, parou por um momento nesse ponto, mas seu corpo queria mais, seu corpo gritava e fervia por dentro, e seus dedos foram aos poucos abrindo caminhos até sua virilha e permanecendo por ali até o momento de, enfim, chegar ao seu destino. E ela pôs cada dedo, aos poucos, sem pressa, por cima de cada fenda, cada espaço que se abria dentro de si mesma, e com os olhos fechados ela sentia cada parte, até o momento de poder adentrar, por completo, em seu próprio caminho. Uma mão só sobre sua cria, a outra sobre os seios, alternando por cima de cada um, acariciando levemente e descendo para o ventre para, por fim, se encontrar com a outra mão. E seu corpo já não aguentava mais ficar em pé, de tanto que ele fervia, se retorcia, e ela caiu por completo no chão, mas não parou. Com a cabeça encostada no pé da cama e com suas pernas suspensas em frente ao espelho, ela continuou até perceber que já descobrira mais de si mesma do que qualquer outra pessoa poderia descobrir, ela pôde desfrutar de seu próprio amor, do seu próprio encanto, sem vergonhas, sem luzes apagadas, sem falsas promessas. Era ela e ela própria, e por fim, descansou.

- Estevão Eduardo -

domingo, 1 de agosto de 2010

Mais uma .

Eu parei. Soltei um leve suspiro que tomou todo o meu corpo. Minha cabeça doía. Meus braços soltos, meu corpo leve, tremendo a cada toque que o vento, daqueles do mês de Julho, me tocava à pele. Não arrepiava porque nunca fui propício a arrepios, mesmo que acompanhados de grandes surpresas. Mas não era uma surpresa que me vinha a mente naquele exato momento. Também não diria que houvesse sido uma revelação, até porque, já me havia sido revelado e esse era um dos meus "maus", a maldita revelação de cada dia. Mas naquele momento percebi que não me foi difícil acordar. Há dias que vinha numa dificuldade incrível de acordar, não porque era difícil de fazê-lo, mas sim, porque era deprimente. Cada dia eu abria os olhos e nascia novamente, mas aí a maldita revelação me vinha de surdina à mente, se enfiando de guela abaixo, recordando cada lembrança amarga, coisas que não se têm quem acaba de nascer. Mas nesse dia, nesse dia, eu já não havia deplorado ter que encarar a verdade, talvez porque no dia anterior eu havia falado o que se prendia na minha garganta. Vomitado minhas desconfianças e torturas à respeito de algo que nunca se viu, nem ouviu, apenas histórias. E eu ali, sentindo a brisa do vento forte, que já não era mais brisa, tentando me segurar nas paredes de minha própria segurança, apenas para me manter firme, apenas para dizer a mim mesmo que eu já havia desfalecido e que agora, de uma forma ou de outra, já não precisava deplorar ter que acordar, porque de certa forma, e isso é o mais irônico, aquela situação já não me doía. Já havia saído de mim. E eu, eu passei a falar pra mim mesmo, agora ouvindo minha própria voz, não a do pensamento, que só ouve a si mesma, mas a voz que saía da minha garganta e pulava pra fora da boca, e que se fazia chegar até os ouvidos, como agora uma nova revelação. Mas que não me afligia. Respirar tem sido uma das minhas maiores obras primas, talvez minha maior superação, pois aos poucos venho desistindo de entender os desígnios não só de deus, mas do ser humano, e respirar é o que me basta. Olhar pro mar, sem ter que me importar em sabê-lo quem o criou, ou se pessoas, no mais alto clímax de sua paixão, se amaram naquelas areias, fazendo-me recordar algo de que nunca tive a oportunidade de viver. Respirar é definitivamente minha arte suprema, sem ela não seria o artista que sou, e quando pará-lo talvez, assim quando o destino bem lhe entender, estarei destinado a ser lembrado. Lembrado como o cansado de pensar, de nunca arriscar, de parar, saltar leves suspiros, exceto os da minha arte, e assim apenas existir.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Solidão

Todos nós precisamos da nossa dose diária de solidão, afinal sem ela não buscaríamos, por entre as ruelas da vida, algo que a complemente. Às vezes nos jogamos nesse mar fundo da solidão porque queremos desesperadamente que alguém entre nessa água fria pra nos salvar. Sentimos a necessidade de estar sempre prestes a ser salvos por algo, ou alguém, talvez seja por isso que a religião seja uma das melhores formas de acabar com a solidão, pelo menos aparentemente. Deus é do tamanho do vazio que cada um tem, mas ninguém sabe o tamanho do vazio que nos corrompe, até porque também não sabemos a largura de Deus, e se as suas medidas são suficientes o bastante para fechar o vão da vida que pertence a cada um. Porque nossa vida tem o tamanho que cada um lhe proporciona. E cabe a nós decidirmos se Deus será suficiente pra suprir a solidão que é ser humano, ou se teremos que recorrer a nós mesmos em busca de algo que feche o ciclo do estar só.
- Estevão Eduardo -

terça-feira, 27 de julho de 2010

Meu próximo

Porque qualquer um pode notar
Ao me ver passando na rua
Ou apenas lendo um livro qualquer
Sentado num banco esperando a vida passar

Qualquer um pode ver nos meus olhos
Vendo-me rir de pequenas palhaçadas
Ou olhando fundo nos olhos de qualquer rapaz
Ou apenas deixando transparecer essa minha vontade de viver

Uma senhora muito velha
Ou um senhor muito respeitoso
Todos podem notar que eu vivo um dia após o outro
Sempre numa réplica mal feita do dia anterior

E eu posso ser essa pequena areia
Que Deus, por uma desordem do universo, quis criar
Esperando a felicidade que só existe nos filmes
Ou, quem sabe, só olhando pro próximo que chegar.

- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A viagem.

Às quatro da tarde em ponto ele chegava na biblioteca, uma das poucas que haviam sobrado na cidade após tantas transformações naquela vila. Não era uma biblioteca muito grande, mas continha um grande acervo com inúmeras publicações, algumas que datavam de épocas tão distantes e outras que acabavam de ser lançadas clandestinamente. Os livros amontoavam-se em grandes prateleiras ao longo da grande sala, e eram divididos em classes pela bibliotecária Lúcia, que trabalhava lá há dez anos e por ordem de trabalho havia aprendido onde se encontrava cada pequeno livro e cada exemplar. Sua memória era melhor do que o novo computador que acabara de chegar por ordem do governo, ela sabia de longe o nome de todos os livros que lá estavam e por mais improvável que seja, ela já havia lido boa parte de todos os exemplares. Júlio tomara o hábito de ir sempre à biblioteca após seu pai ter viajado sem previsão de volta, pelo menos pelo que sua mãe dissera, desde que ele havia completado oito anos. Como na casa não havia sobrado nada de mais interessante a não ser contar as horas no grande relógio instalado na parede, Júlio decidiu visitar a biblioteca. Sua mãe não se opôs a ideia do filho, na verdade sua mãe nunca se opusera em nada, dependera sempre do seu marido, ele que era responsável por dar a última palavra, e com a viajem, sem volta, feita por ele, ficou mais difícil sobreviver às suas próprias decisões. A princípio as visitas não foram muitas, mas ao longo das semanas Júlio foi tomando gosto não só pela leitura que lá encontrava, mas pelo local em si, pelo silêncio absoluto, pela paz instalada à duras penas por Lúcia, a simpatia da bibliotecária que sempre o ajudava em suas leituras, por mais difíceis que pudessem parecer. E assim as visitas à biblioteca tornaram-se frequentes, ao longo de dois anos Júlio já havia lido cerca de cem livros, de autores diferentes, de temas diferentes, de abordagens diferentes. Era um mundo fantástico que ele criara, era o seu mundo. Todas as tardes ele enfiava-se entre as prateleiras da biblioteca, sentado nos corredores apertados e punha-se a ler desesperadamente, assim como quem mata a fome de um dia todo. O tempo era seu maior inimigo, várias vezes começava a ler e não se dava conta de que a tarde já descera montanha abaixo, notava apenas porque da janela da biblioteca podia ver a lua dando suas primeiras graças. O ambiente mágico não só do local, mas dos livros, que o transportavam à diferentes locais, atraía Júlio de uma forma hipnotizadora. Lá ele aprendeu idiomas que nunca antes havia visto e mesmo que não tenha terminado seus estudos tinha um conhecimento básico de tudo o que fosse possível. Foi lá que ele desenvolveu uma amizade com Lúcia, por quem nutrira um sentimento maternal e sentia-se mais à vontade do que com a própria mãe. Lá ele se deparou com seu primeiro amor, e lá mesmo aprendeu que os amores são flores que a gente rega, mas que mais dias menos dia sempre murcham. Entre aqueles livros ele aprendeu que Deus existe, mas que vive em outro planeta que não seja a Terra, e finalmente descobriu que não existe bem ou mal, e sim humanos, e os humanos são o bem e o mal de cada um. Ao se deparar com um livro ele lia o título, não preocupava-se com o autor pois não achava necessário, analisava a capa, a contra-capa, e por fim folheava-o perto do nariz para sentir o cheiro que o livro exalava, o cheiro que aquela estória trazia. E assim, Júlio punha-se a imaginar as tantas pessoas que tinham pego aquele mesmo livro que ele tinha nas mãos, as tantas pessoas que o leram, que choraram e acompanharam a aventuras e desventuras de cada personagem. Pra Júlio os personagens principais não eram os que estavam no livro, mas os que tinham lido o livro. Como cada um tinha se dado conta de quão importante, ou quão idiota, era aquela estória. E ao final de cada última página ele folheava com seus dedos tortos aquelas folhas cobertas de história, páginas que datavam anos que pra ele não existiram, e Júlio vivia um vida que não era a dele, uma estória que não lhe possuía, e isso o encantava, pois a paixão do leitor é não ser ele próprio, é se esconder atrás de uma estória que não seja a sua. Aos poucos arriscava-se à escrever alguns pequenos versos, mas escondia-os em seus bolsos. Mas de súbito veio a ideia de deixar escrito ao final de cada livro uma impressão sua sobre aquela estória, ou um verso qualquer que contivesse a emoção do texto ali escrito. Sua vontade era deixar sua visão, mesmo que pequena, em cada livro. E o fazia sempre, deixando algum pequeno verso na última página para que Lúcia não pudesse perceber, e após escrito sua impressão, deixava suas iniciais: J.L. Sua vontade era que em algum futuro distante um leitor qualquer pudesse ler aquela impressão rápida, porém eficaz. Certa vez, e apenas dessa vez, Júlio marcou um livro antes mesmo de lê-lo, o nome do livro era "As virgens suicidas". Ao pegar o exemplar e folheá-lo, algo chamou sua atenção, um cheiro forte de baunilha saía daquelas páginas velhas, um aroma forte de um doce tão fresco e tão gostoso. Isso perturbou-o de uma forma que nenhum outro livro o havia perturbado. Pôs-se então a pegar um lápis e escrever em letras miúdas atrás da última página: "Baunilha. Por que há livros que cheiram a baunilha e outros que cheiram à vida? J.L." Júlio não nunca acabou de ler o livro, fosse pelas circunstâncias, fosse porque nunca mais retornara à biblioteca. Ele decidira ir atrás do seu pai, mas o cheiro de baunilha ainda continuava em seu nariz da mesma forma quando cheirou aquele livro que encontrou tão apertado, tão solitário entre tantos outros.

- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Momentos efêmeros.

Meu nojo é o meu ser. Essa porra que nunca chega. Essas palavras soltas que não voltam. Esses olhares sujos de sol. O mar cheirando a mel. O céu coberto de cinza, escrevendo a chuva por cima das nossas cabeças velhas de tanto pensar. E eu estou pouco me fodendo pra tudo isso, eu estou ajudando a mim mesmo, sendo egoísta o suficiente pra ser meu próprio terapeuta. Porque eu não sou eterno, eu não sou o sol se pondo atrás das montanhas, eu sou a nuvem que chora, o passado que nunca passa, eu sou um nada, dentro de um tudo. E se eu escrevo é porque eu não posso falar do que eu sinto, e se eu sinto é porque algo está errado comigo. Deus deveria ter me feito homem o suficiente apenas para sê-lo. Mas agora o tudo é tarde, apenas as horas se passam, mas as dores são ilusões, são coisas da nossa cabeça, são músicas que tocam nos nossos ouvidos, mesmo que não haja quem as cante. Eu sou apenas porque existo, e isso me conforta, existir me conforta, respirar a vida me dói. Só. Mas foda-se, e daí?

- Estevão Eduardo -

O banco detrás

Sua mãe sempre o fazia ir no banco detrás, mesmo ele já crescido, mas não era algo que lhe incomodava. De acordo com ela era melhor que seu filho fosse no banco detrás devido aos acidentes, algo que ela tinha um pavor imenso, e se aprendera a dirigir foi porque a necessidade lhe impôs. Pensava sempre nos imprevistos, nos possíveis acontecimentos que poderiam ocorrer na estrada, e se alguma vez, Deus os livre, mas ocorresse algo fatal, ao menos seu filho poderia sair ileso, já que o banco detrás, ao seu entendimento, trazia certa segurança. Sempre que saía de qualquer local checava se tudo estava absolutamente certo e no seu devido lugar, cinto, cadeira, se os freios e a embreagem estavam funcionando, para que só depois de todo esse ritual pudesse dar a partida no carro e seguir seu caminho, mas se seu filho estivesse com ela no mesmo carro a atenção era redobrada. Sua mãe sempre lhe chamara a atenção dessa excessiva preocupação, não que fosse ruim, mas que talvez um dia pudesse até endoidá-la, em sua mente passava a impressão de que sua querida filha poderia ter transtorno obsessivo compulsivo e que a saúde mental de seu neto poderia até estar sendo prejudicada, já que o menino, com 15 anos, estava na fase de construção da personalidade mental. Mas Cláudia não ligava para os comentários da mãe, sabia que aquilo poderia ser mera preocupação de mães, assim como tinha com seu filho. Ao partir em viagem, Cláudia sempre prestava atenção nos mínimos detalhes, sempre estava alerta a qualquer acontecimento no trânsito e ficava extremamente irritada quando via que alguém não respeitava à sinalização, os pedestres e as leis, sempre achava que esses descuidos é que poderiam causar sérios transtornos à outras pessoas e, oh Deus, à ela. De minutos em minutos sempre olhava pelo retrovisor para checar se estava tudo bem com seu filho, mas o menino parecia nunca ter expressão, era algo que preocupava Cláudia, com o rosto grudado na janela fechada do carro, o menino vislumbrava a paisagem, seja ela qual fosse. Dentro de seus olhos as imagens da cidade pareciam-lhes intocáveis, virgens, nunca conhecidas. As pessoas transitando de um lado para o outro sempre sem rumo, os animais sempre pendurados em coleiras, e quando não presos, soltos demais no meio da rua, abandonados, animais e pessoas. Cláudia até tentara entender um pouco o que se passava na mente de Lucas, mas desistira aos poucos, ao final constatara que poderia ser aquelas inúmeras fases adolescentes. Ela preocupava-se apenas com a saúde física do filho, a mental não era algo tão grave, afinal para ela, ele não tinha nada, e realmente talvez ele não tivesse nada. Certo dia encontrara Lucas no banheiro desmaiado, ficara tão desesperada que não tivera coragem para levá-lo de carro até o hospital, teve de pedir a ajuda de um vizinho para que ele conduzisse o carro até o hospital mais próximo. Ainda assim Cláudia, mesmo desesperada com a situação do seu filho, que não aparentava nenhum corte ou pancada, quis checar se o carro estava em plenas condições de transportá-los, e levou o garoto no banco detrás. Depois desse dia, Cláudia obrigou seu filho a tomar banho sempre de porta aberta, o que constrangia o garoto certas vezes. O diagnóstico não havia sido algo tão grave, uma baixa de pressão, algo que o garoto herdara do pai. Ela nunca fizera uma viagem longa de carro, nem sozinha, muito menos com seu filho, e nem permitia que o garoto as fizesse, a não ser que ela soubesse quem o levaria e as condições nas quais ele fosse. Era um cuidado excessivo não só consigo, mas também com Lucas. Todos a criticavam, mesmo não sendo uma crítica abusiva, de que ela deveria deixá-lo mais livre, e ela própria livrar-se dessas "paranoias". Talvez fosse cuidado excessivo realmente, mas é que Cláudia sabia, ela sentia no fundo de sua alma que não era algo sem explicação que a fizera agir de tal modo, ela bem sabia que tinha de proteger-se para que algo de terrível não lhe afligisse, afinal se ela morresse, quem cuidaria de Lucas? Quem se preocuparia com sua saúde física? Quem estaria lá para socorrê-lo se sua pressão baixasse novamente? Quem o lembraria de tomar seus remédios nas horas exatas? Ela era a parte principal da vida dele, e ela sabia-o. Mas tomara cuidado com ele também porque sem ele, ela não era nada. Cláudia já havia perdido seu marido pra morte, devido à uma complicação pós cirúrgica, e agora naquela vida, Cláudia só tinha seu filho, e Lucas só tinha ela, era um convivência recíproca. Ela não se preocupava tanto com a saúde mental de seu filho porque só a presença dele a reconfortava, só o fato de ele estar ali, no banco detrás, a deixava surpresa e cheia de vida, e era essa vida que ela não queria perder. Cláudia era cuidadosa porque sabia o valor da vida, mesmo sem saber que nem tudo é eterno.

- Estevão Eduardo -

domingo, 11 de julho de 2010

Aos poucos

Porque eu sei a verdade e ela me machuca. Preferia não sabê-la, escondê-la, enterrá-la junto com meus medos. Ela me dói, me sangra pelos poros. Gostaria de estar e ser néscio, assim como todos os outros, renunciar ao certo, não aprender com o errado. Porque assim como a vida é vazia os sonhos também o são, e dá-los uma explicação é retirar o seu brilho, o brilho da mentira, do estar, do ser. Porque minha vida é grande o bastante pra explodir, mas meus sentimentos são tão pequenos, tão menores quanto os queria. E meus medos, todos eles, me doem. A realidade é fria, dura e eu não estou pronto pra nascer, não estou pra renunciar, pra explodir de amor, pra dar início a algo que não me foi dado. E nessa hora inconjunta meus pensamentos se desfazem, correm pra lugar nenhum, sem aviso de chegada, e essa insegurança, essa incerteza me faz morrer aos poucos, desistir aos poucos, viver aos poucos. Migalhas são o que sobram, somente o resto da vida do que poderia ter sido, mas não foi. E eu não canto, não canto porque não amo, pois o amor não me foi dado, o ardor da paixão não me foi entregue, e eu contemplo a tristeza da solidão por não amar, por não ser amado. Talvez amanhã eu anule a verdade, faça a força necessária pra esquecê-la, durma o bastante pra não acordar, junte as horas desconexas e jogue-as no ar. Pois a vida é o vazio maior que alguém pode receber e preenchê-la não é nossa comissão, aceitá-la é a nossa verdade, engoli-la, expeli-la quem sabe. E eu guardo nos olhos essas incertezas, choro para poder entregá-las ao chão, e não grito de dor, pois já não a sinto. E a felicidade passa ao meu lado, dando adeus, cumprimentado-me, olhando em meus olhos, sorrindo um sorriso maroto, traindo-me, mas eu a deixo, ela passa, olha de longe, porque a verdade dói, meus sonhos me fazem querer abraçar a felicidade, mas a verdade não deixa, passa. Tudo isso está guardado, esperando a hora, mas quando será a hora da verdade? Só a felicidade sabe.

- Estevão Eduardo -

Clichês existem

Durante quatro anos eu fui seu animal de estimação
Seu pior amigo
Seu menor amante.

Durante longos quatro anos eu fui seu único confidente
Sua menor paixão
Seu indevido amor.

Durante todos esses anos nunca lhe neguei um único olhar
Sempre pus esperança nesse meu plano inefável
Nunca consegui, nem por um momento, te esquecer.

Durante esses efêmeros quatros anos eu esperei pacientemente
Eu te encontrei em lugares estranhos
Nunca sonhei, dormindo, com você.

Nesses quatro anos eu aprendi inúmeras coisas
Aprendi que o destino existe, mas que a vontade é que faz o momento
Descobri que Deus não nos quer juntos.

Descobri, nesses quatro anos
Que o tempo pode passar, mas que, às vezes, o amor é eterno
Que você é terrivelmente engraçado, quando assim o quer.

Em quatro anos eu já troquei seu nome duas vezes
Esperei o inesperado acontecer
Coloquei em suas mãos a nossa sorte.

Nesses imbecis quatro anos eu fui atrás de você em lugares inimagináveis
Eu gritei seu nome nas ruas
Mas fiquei mudo em frente à sua face.

As horas desses anos correram pra você
Caminharam pra mim
Não fez efeito no real.

Nesse tempo você foi meu sol
Minha respiração quando me faltava
Meu único motivo de ter caído do altar.

E nesses quatro anos eu te dei todos os motivos pra ficares
Dei-te o cetro, a coroa
O trono para morares ao meu lado, mesmo que sem reino.

Eu mudei nesses quatro anos
Eu amei outras pessoas
Eu quis outras pessoas.

Mas dentro desses pequenos, mas significativos, quatro anos
Eu descobri que o tempo pode passar o tempo que lhe convier
Mas pode-se passar mais quatros anos, eu sempre estarei aqui.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Minha mulher

Deus, como eu a amo.
Se ela tão soubesse que eu fiz cem versos sem rimas e ela ainda estaria me negando
Se tão somente ela soubesse que desenhei seu rosto em folhas pra não a esquecer
Ou que guardei na memória, mesmo fraca, o cheiro do seu perfume tão doce quanto o mel
Tão leve quanto o ar, se ela soubesse que eu não sei como chegar em sua casa
Mas que gostaria de poder estar sentado em seu colo desfrutando dos seus lábios
Que chorei lágrimas de amor e que as enxuguei tão triste, tão só, tão esperançoso
Deus, se assim o Senhor quiser, e assim tenho certeza
Fazes com aquela menina, tão inocente, mas tão bonita em seu andar, me note
Traga-me uma flor, sua melhor flor, para que eu possa cheirá-la toda manhã
Sentir a brisa dos cachos de seu cabelo sobre meu peito
Minhas mãos por cima da sua cintura tão fina, tão mulher com ar de menina
E que ela perdoe-me por estar assim, tão firme, tão duro dentro de mim
Que ela cante no meu ouvido sua mais sinceras aventuras
E que eu, tão velho, tão cansado, possa realizar todas elas
E que pegue na minha mão, abrace-me contra seu seio farto e me faça homem
Assim como todos os outros com quem já estive.

- Estevão Eduardo -

Porque

Às vezes só o silêncio me basta. Às vezes, e são muitas durante um dia, eu fico procurando na imensidão do universo um único motivo para estar aqui, obviamente deve haver alguma alegria nesse exercício que é viver. Mas quando eu olho em direção ao céu, ou ao nada, eu me sinto pequeno, frágil, solitário. Sinto-me longe de cada um, por mais perto que eu esteja. Sinto que ninguém estará ao meu lado quando meus pensamentos começarem a fazer sentido. Penso que o que sinto passará, assim como o vento que acaba de chegar aos meus ouvidos dizendo-me que logo estará indo embora. Vejo que num mar de angústia eu não sou o único a estar se afogando, mas a distância entre cada um é que dirá quem, ao final, sobreviverá. Olhando pro céu eu me pergunto se há uma outra galáxia, igual à esta, em que outro ser, assim como eu, pensa nas mesmas coisas que eu penso, mas de tanto pensar eu canso. Pensar me cansa ao ponto de fazer minha cabeça doer e por fim adormecer, único ponto em que paro de pensar nos "por quês". Cansei de fazer perguntas a Deus, cansei de esperar por respostas que nunca chegam, e por vezes canso de está sempre de malas prontas, mas nunca viajar. Às vezes penso se não estou sendo egoísta, ou quem sabe ingrato com toda felicidade que me é concedida, e aí paro de refletir, finjo uma falsa alegria, danço, canto, bebo e no final da noite durmo. Acordo, e quando abro os olhos, estou eu lá novamente, com os mesmos desejos, com as mesmas preces repetidas, com o mesmo orgulho besta e sempre esmorecendo ao ponto de cair em frente à qualquer novidade que me faça brilhar. E assim caminham os dias, longos em seus minutos, rápidos em sua conjuntura. E o que resta depois de tudo isso? Nada, e é para o nada que estou me direcionando, estou começando à arriscar, ver que é possível quebrar um dia ao meio. Estou passando cinza na vida, sem cor, sem brilho, sem vida. Estou passando aos poucos, rastejando-me, deixando cair ao chão meus objetos mais preciosos, sem volta, sem destino, aos poucos, como todos fazem comigo, sempre aos poucos. Um dia eu chego, um dia eu me encontro com meus próprios pensamentos, um dia oco, de ideias ocas, de perguntas ocas. Eu paro, um dia eu paro de querer fazer sentido, e esse dia será um dia feliz.

- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Filo

Nunca perguntei a Deus se ele estava certo
Nunca tive essa oportunidade
Jamais cheguei perto do fogo o suficiente para que me queimasse
Sempre estive atrás da linha da segurança
Nunca plantei uma árvore
Nunca brotei dos meus próprios galhos
Apenas floresci o suficiente para estar vivo
Nunca fiquei embriagado de amor
Nunca chorei por uma pessoa que chorou por mim
Sempre fui inapto à reciprocidade, mesmo querendo
Nunca me casei
E espero não ter filhos, não que seja um escolha
Talvez nunca aconteça naturalmente
Nunca quis viver o suficiente pra ver minha própria morte
Nunca me perguntei se após a vida há vida
Nunca quis saber de outros plantetas
Sempre estive focado nessa realidade dolorosa que é ser eu
Jogado sobre a Terra com sonhos demais
Perguntas demais, respostas de menos
E a vida continua com ou sem Deus, respostas, amores, filhos
Vida, sem, com.

- Estevão Eduardo -

Despedida

Ele havia me ensinado tantas coisas. Graças a sua inteligência eu encontrei uma saída pra mim mesmo. Foi por meio dele que descobri Gabriel Garcia Marquez, que li os relatos de Capote, que consegui diferenciar as mais famosas óperas, que deixei cair ao chão meus medos, que desenhei pela primeira vez o que sentia. Ele me conduzia a um abismo enorme, eu não parava de cair, mas não me importava, fazia-me ouvir sinos tocarem lentamente uma canção antiga. Com suas mãos ele tocava cada parte da minha frágil casa feita de pedra, as pequenas rachaduras ele curava, a desordem instalada ele organizava, a escuridão ele fazia sumir. E aos poucos o ato de cair não me era tão novo, parecia-me um conforto está sempre à beira de um caos, à espera de algo novo que ele com toda certeza traria para minha vida, e não obstante ele nunca me decepcionara. Sua voz rouca parecia trovoar sobre um céu de estrelas, e quando ele falava, num ato reconfortante, meus ouvidos tremiam, sentiam a dor, e a dor era prazerosa. Graças a ele eu descobri que a vida não é feita de planos, e que por mais que tracemos um destino sempre chegamos a lugar algum. Ele me fez ver que depois das nuvens existem apenas estrelas, e que não devemos temer a morte quando se ama alguém, ainda que o amor seja vida. E agora, ali, sentado sobre o sofá, ele parecia querer me dizer com os olhos secos que não faria diferença dali por diante. Eu disse pra mim mesmo que não cairia mais, que teria de me acostumar a pôr os pés em terra firme. Que teria de me acostumar a não ler mais livros que trouxessem a lembrança dos "tempos de cólera". Dali por diante, abaixo dos céus haveria apenas eu, e acima apenas as nuvens. Ele soltou mais algumas palavras roucas e deu um trago demorado no cigarro, parecia querer sumir entre a fumaça, olhava atentamente o branco se dissipar no ar. Eu mirava seus olhos secos, pensava em como sua calça rasgada me fizera rir durante algumas tardes. E ele deu mais um gole no café que estava na xícara sobre a mesa. Num ato impensado pôs a xícara sobre sua perna esquerda, apoiando-a com a mão. Ficou longos cinco minutos sem trovejar brandamente. Sua voz muda parecia um céu nublado. E no silêncio ficaram presos longos cinco minutos, que, naquele instante, pareceram uma eternidade. Disse-lhe que levaria notícias sobre Ana e que aos poucos teria de me acostumar à nova mudança. Minha voz parecia não querer sair, minhas forças pareciam chuviscar no molhado. E ele seco, tão árido, compenetrado. Pôs a xícara de café na mesa ao lado, apagou o cigarro no cinzeiro, pôs a mão sobre as pernas, olhou para mim, disse-me que era o certo, logo ele, tão longe de certos e errados. Logo ele, tão certo de que era errado, tão livre para errar, tão longe do que não era banal. Sem palavras levantou-se, atravessou a sala, olhou mais uma vez em direção ao nada, e seco, foi embora. Logo ele, tão possessivo, tão daquela casa, tão parte do que eu me tornara, tão dentro do meu futuro incerto, foi-se. E eu, aos poucos, fiquei sentindo o pouco da fumaça que ele deixara, do café sobre a mesa, dos livros que ele me ensinara a gostar e que esqueceu sobre a cabeceira do seu quarto. Aos poucos eu comecei a sentir como era pouco tudo o que restara, como era grande o que ele tinha me feito descobrir, como era vazia aquela casa sem os trovões de cada noite, sem a luz de cada manhã, sem a descoberta de cada dia. Cada dia.

- Estevão Eduardo -

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Quilombo Groove

Minha terra nunca dorme. Minha terra tem estrelas que brilham e ofuscam as luzes
de outras cidades, na minha terra as luzes brilham com mais força, o tambor bate
mais alto e a cidade nunca descansa. Lugar de homens bravos, do maracatu
atômico, das ruas repletas de história pra contar. Do Recife Antigo e os falos
do artista, das vilas que viraram cidades, da Olinda imortal, patrimônio do
mundo. Do sertão que passa sede, das crianças adultas, das mulheres valentes, do
banditismo. Na minha terra os coqueiros são mais altos, as frutas mais doces, os
oceanos mais largos, os rios mais longos e destruidores. Na minha terra o mangue
tem história, o pato nasce na lama e os homens nascem no mato. Olinda, com suas
ladeiras, suas noites e seu batuque. Recife, com suas pontes, seus rios, seu
brilho que nunca se apaga. Levo em mim cada parte desse estado, cada monte de
Jaboatão, cada serra de Gravatá, todos os lugares que os leões frequentam. No
meu sangue corre a lama dos mangues, toca o tambor dos maracatus, sofre as
enchentes dessa Veneza, a mais bonita de todas. Terra de Chico, dos zumbis, do
Manuel, do João Cabral, dos caranguejos com cérebro. Sou Pernambucano, sou Leão
do Norte, faço parte desse mundo, dessa vila, desse Estado que guarda o passado
visando o futuro.

- Estevão Eduardo -

domingo, 27 de junho de 2010

Na varanda

Meu copo de leite gelado sobre a mesa. Meus sonhos presos na cabeça, lá fora uma chuva forte molhava e parecia derreter o chão. Escorria pela calçada até entrar numa vala e de lá seguia o caminho até o nada. Chuva, pequenas e solitárias gotas que unidas podem destruir todo o mundo, que correm em direção ao nada, que secam, que fervem e voltam ao céu. Viram nuvens pra depois descer, correr e perseguir o mesmo caminho em diferentes lugares. Meu rosto sente o frio que a chuva traz e meu corpo quente aos poucos cede à pressão. Meus sonhos secos parecem agora querer chuver. Da janela do meu quarto eu vejo a chuva molhar o telhado das outras casas, vejo ela molhar as roupas estendidas no varal e estragar o trabalho das lavadeiras, do meu quarto eu vejo a chuva cumprir seu sentido. Vejo minha vida perder o rumo e aos poucos querer escorrer para o nada. Na minha cama, o único espaço quente do meu quadrado frio, eu deito e abraço meu corpo tentando fingir ter alguém ali para me ajudar a secar. Na varanda eu vejo as pessoas serem molhadas pela chuva, algumas parecem estar apavoradas ao serem tocadas e invadidas pelas pequenas gotas, outras parecem não se interessar e até gostarem de estar ali, ficam paradas em pé no meio da rua esperando a chuva passar. Eu olho e toco a chuva com as pontas do dedo, estendo meu braço até onde as gotas podem me tocar, mas não me invadir. É gelada, fria, solitária, as gotas sozinhas parecem querer gelar, juntas parecem querer destruir. Penso em voltar pra cama quente, tomar meu copo de leite gelado e dormir, ou pelo menos tentar, mas prefiro ficar na varanda, esperar a chuvar passar, ver o que acontece com as pessoas em pé diante da rua molhada, as que se apavoram com os céus, os telhados marrons e o céu cinza. Prefiro sentir o frio no rosto e a àgua tocando as pontas dos dedos. Prefiro ficar ali, parado, observando. Prefiro molhar e deixar escorrer para o nada até voltar ao céu novamente.

- Estevão Eduardo -

domingo, 20 de junho de 2010

A mosca

Ela havia acabado de nascer. Era uma mosca como todas as outras, pelo menos no que diz respeito à aparência. Estavam ali todas as centenas de olhos, um par de asas, que logo aprendeu a usar, e perninhas tão finas, porém tão ágeis. Moscas não têm muito tempo de vida, aliás, elas têm apenas de vinte e cinco a trinta dias de sobrevivência, ou seja, perspectiva de vida muito pouca, se é que há alguma. Nossa mosca era comum, ou como chamam, mosca doméstica, fazia parte do grande conjunto da maioria de seu grupo de insetos, que tem como principal finalidade perseguir e destruir a paciência de qualquer ser vivo. Logo que nasceu aprendeu a voar, apesar de não saber como nasceu e nem ao menos como aprendeu a voar ela estava ali, e havia acabado de nascer e aprendera a alçar voo logo nos primeiros minutos. Assim que voou foi embora, nem despediu-se de sua genitora ou de qualquer familiar mais próximo, mas talvez isso seja normal no mundo em que ela vive. Tratou logo de procurar alimento, o que diga-se de passagem não foi tão difícil, ao lado da casa em que nasceu havia outra casa, devia ser um desses conjugados que nós humanos sempre arrumamos um jeito de fazer. Lá encontrou comida farta à mesa, principalmente porque àquela hora já devia ser de refeição, seja qual for. Posou sobre um pão e começou a devorá-lo, obviamente a seu modo, o que pra nós não representa muita coisa, pra não dizer absolutamente nada. Ficou farta, mas não deixou o seu posto, afinal até então ninguém a tangera dali. Ficou a observar como os seres humanos, tão grandes em sua altura, e tão fortes possuíam apenas dois olhos para ver tudo o que os rodeava, enquanto ela, tão frágil e recém vinda ao mundo, tinha centenas de olhos com sensores que percebia qualquer movimento ao seu redor. Alçou voo mais um vez, mas dessa vez sobrevoou um ser humano ao seu redor e percebeu que ele nem notara sua pequena presença ali no ar, talvez perturbando-o. Tentou mais uma vez, agora em outro ser humano que também estava à mesa, e mais uma vez nada. Eles nem sequer notaram sua presença. Posou um pouco mais longe e começou a pensar que talvez os humanos realmente não conseguissem sentir o que lhes ocorria ao redor, afinal, dois olhos só não servem para absolutamente nada. Decidiu que iria mais além. Alçou voo novamente e dessa vez posou encima do ombro de um dos humanos, e nada. Nem sequer tangeram-na. Desconfiou de que aqueles gigantes realmente poderiam ser amigos e que talvez não precisasse ficar tão desconfiada daquele modo. Então foi pousar no ombro do outro humano, e mais uma vez nada. Sentiu-se feliz, sentiu que poderia fazer parte do círculo de amizade daqueles gigantes tão atraentes, afinal eles nem sequer se incomodaram com sua presença ali, mesmo que pequena. Foi então, assim como todo amigo, desfrutar e partilhar do que tinha ali na mesa, ou seja, foi comer de novo. Começou pelo queijo, onde passou um bom tempo, depois foi até uma superfície lisinha e fria, que mais parecia uma fruta. Comeu bastante e até bebeu algo que também estava ali por cima, apesar dos humanos não terem visto a parte da bebida, mas enfim. Ficou observando-os enquanto trocavam palavras e sinais, que ela não entendia nada, mas achava bonito eles se comunicando, apesar de na sua opinião falarem muito alto. Planejou o que poderiam fazer juntos, afinal ela tinha ainda cerca de vinte e cinco dias pela frente e se desse sorte poderia ter até mais, daí poderia aproveitar bastantes com seus novos amigos gigantes. Imaginou a quantidade enorme que comida que teria, as conversas que fingiriam ter e pensou até em procurar seus familiares pra deixá-los com um pouco de inveja, queria gabar-se. Pensou, refletiu, comeu, observou. Estava à planejar encima da mesa, quando de repente um forte peso veio sobre suas pequenas costas e esmagou suas patas e também destruiu uma de suas asas. Na hora não conseguiu pensar em nada, a dor era imensa, como aquilo havia acontecido e o que poderia ter causado aquilo? Ela se contorcia em dor e aos poucos podia ver seus pequenos órgãos saindo de suas pequenas entranhas, devido a forte pancada. Passou alguns segundos assim, quando sentiu novamente e por último outra forte rajada de peso sobre sua outra asa e sobre sua cabeça. Após essa segunda pancada ela resistiu durante alguns ligeiros segundos e não conseguiu pensar em absolutamente nada que não fosse nos seus planos e de como eles não seriam concretizados. Deu seu último suspiro e por fim morreu no seu primeiro dia de vida. Quando acabou de tomar café, Jorge retirou a mesa e por fim com um pequeno estalo dos dedos chutou a mosca morta longe.

- Estevão Eduardo -

terça-feira, 15 de junho de 2010

Nostalgia

Às vezes, incoscientemente, eu tenho saudade de coisas que não aconteceram. Talvez não haja explicações certas e abalizadas à respeito disso, mas é algo que completa os meus dias, à medida que eles vão se acabando.
- Estevão Eduardo -

domingo, 13 de junho de 2010

Ele

"Estava perdido", foi o que constatei ao vê-lo passar três vezes seguidas pela mesma rua. Algo em sua face também deixava nítido seu incômodo em não reconhecer o lugar, talvez uma mistura de medo, de tristeza. Do alto do prédio eu observava calado o ocorrido. Em sua primeira passada pela rua logo observei-o, um garoto bonito, alto, vestia-se bem, pensei comigo mesmo: "qual a distância entre eu e ele?". Deveria ter sido o amor de muitas pessoas, deveria ter amado tantas outras, mas ao passar pela rua era nítida sua indiferença ao lugar. Senti uma ponta de saudade ao vê-lo indo embora. Pela segunda vez ao passar notei que havia algo errado. Um espanto contido pintava-se em seus olhos. Pensei que talvez o destino tivesse sendo bondoso o bastante em conceder-me a visão de um espelho duas vezes seguidas. Pela terceira vez tive a absoluta certeza de que estava perdido, só, vulnerável, sob o meu olhar. A rua deserta, as lojas fechadas, aquele ar de antiguidade em que vivia a rua deixava seu corpo mais parte do local. Ninguém passava para ajudá-lo, nenhuma alma caridosa prestava-se ao favor de ir ao seu encontro oferecê-lo o caminho de volta. Ele olhava para todos os lados, esperava ainda que alguém gritasse o seu nome, talvez em sua cabeça perguntava-se: "como vim parar aqui?". Numa tentativa frustrada de acalmar-se, sentou-se num banco de frente à loja de um velho amigo do meu avô. Tentou conter o medo, era sensível vê-lo abraçar o nada. Pensei em ajudá-lo, afinal teria feito isso logo na segunda vez que percebi que ele estava perdido, mas não me conti em ver aquele garoto vagando. Pela primeira vez não quis ajudar alguém, não fiz sequer um esforço para tentar mostrá-lo as ruas seguintes, nem ao menos mexi um pé ao seu encontro. Observando-o por mais um tempo vi que ele estava chorando. Com a cabeça encostada nos joelhos, as pernas dobradas encima do banco, as mãos abraçando as pernas. Eu senti suas lágrimas na minha boca, o amargo dos seus olhos no meu ser. E de repente, num acesso de alegria contida ainda não percebida, notei que ele era meu, ali sentado, tão vulnerável, tão inocente, tão sozinho. Apenas eu poderia mostrá-lo a saída, a volta. Dependia de mim se queria soltá-lo ou apenas continuar guardando-o por mais tempo. Eu nunca havia me sentido tão próximo de alguém assim. Eu nunca tinha descoberto tanto a respeito de alguém que não fosse eu próprio. E ali estava ele, um espelho refletindo o meu maior sentimento. O que fazer de mim? O que fazer dele? Estava perdido.

- Estevão Eduardo -

terça-feira, 1 de junho de 2010

Meu OntemAmanhã

Dez copos de água, uma bolsa cheia de seguros de vida, uma cabeça repleta de sonhos, seis telefonemas, cinco músicas cantadas durante o dia, três olhares que me façam acreditar que ainda exista amor, seis risos insossos, uma noite bem dormida, duas frases que valham a pena ser faladas, um sol brando, uma alegria disfarçada, um choro de dor, alguém que te abrace, uma companhia silenciosa, a simples tristeza de acordar e a dor de dormir sozinho. Como conseguir um dia perfeito?
- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 28 de maio de 2010

À salvo

Eu desenho sobre mim retas que não se encontram
Eu derramo ilusões num mar de desejos, às vezes sem querer
Grito nomes que não escutam e que se fazem de surdos ou preferem calar
Rasgo, Tento, Repasso, Trago de volta à tona a vontade ser, querer, estar
Sento por cima do divino e me prosto soberano
Decido que daqui por diante quero a vida mais leve, independente, a brisa que vem do leste
E se eu não te espero é por que talvez eu já tenha ido embora
Eu vou de ônibus e caminho por lugares desconhecidos
Dentro de mim trago cada pedaço dessa cidade, ruas, avenidas, pontes e vilas
Desbravo a vontade que tenho de mergulhar nesse rio que é você
E por vezes sonho em poder entender o real sentido da vida
Comer? Ser comido? Existir é viver? Talvez
E por mais que o silêncio seja a mais bela tradução de todas as palavras
As palavras que têm no silêncio doem mais do que um discurso armado
E as estrelas? Que porra querem as estrelas a mais do que já damos a elas?
Talvez eu seja apenas só, talvez eu derrame menos linhas nessa reta que é a vida
É isso.

- Estevão Eduardo -

sábado, 22 de maio de 2010

Meu gole diário

Sobre a mesa o café ainda quente, preste a esfriar com o tempo. Um livro aberto na página noventa e sete. E eu não parecia interessado em nenhum dos dois. Na cafeteria o sol ainda insistia em aparecer, porém tímido, com a chegada da noite já dava adeus aos que estavam ali. O mundo me era invisível na cafeteria, os problemas eram imperceptíveis. Minha relação consistia basicamente entre eu, meu café e meu livro, e mesmo assim nem tudo parecia completo. A tarde amarga parecia querer dormir e o tempo parecia não acompanhar o relógio. Um aceno de mão e eu peço um pouco mais de açúcar ao garçom. Ele até que é simpático, mas não vou perguntar o nome dele. Daqui a meia hora eu tenho aula mas não sei se quero ir. Acho que vou continuar com meu livro por aqui mesmo, talvez eu peça mais uma xícara de café, ou melhor, acho que vou pedir uma água pra tirar o amargo do café - ou da vida. Mas cadê o garçom? Onde será que ele foi? Ah, está ali atendendo uma senhora, muito idosa por sinal. Na mesa à frente uma outra senhora vai embora com seu marido, os dois parecem tão apaixonados. Eu fico pensando como alguém pode gostar de outra por tanto tempo, eu acho que vira costume, sei lá. Mas eu bem que gostaria de ficar velho assim. Enfim, é melhor eu ir me preparando pra ir embora, eu não posso perder a aula de hoje, um professor vai substituir o antigo, dizem que ele é bem jovem e mais simpático que o outro. Eu e essa minha mania de acreditar no destino. Vou pedir ao garçom pra trazer uma água e minha conta, ou é melhor eu ir lá? Não, não, deixa ele vim até aqui mesmo. Vou chamá-lo assim que encontrá-lo. Na mesa à minha frente um jovem senta, ele com certeza atraiu muitos olhares, mas também, não é por menos. Encontrei! Chamo o garçom com um aceno de mão e ele vem até a minha mesa. "Tu pode trazer a conta e uma garrafa de água, por favor", "ok". Ele tá olhando pra mim. Não, deve ser engano, eu acho que estou com alguma sujeira ou mancha no rosto, ele não pode estar olhando pra mim. Ele continua olhando, odeio isso, me faz sentir a pior pessoa do mundo, senão intimidado. Meu Deus. Vou fingir que não estou olhando também, já sei, vou atender o celular e falar alguma coisa, só pra ver se ele para. Tiro o celular da bolsa, "alô, não, não, daqui a pouco eu tô chegando, acho que daqui a uns dez minutos, é, tá bom, tchau, beijo." Olho pra ele e ele tá olhando pra moça do outro lado, ainda bem. Lá vem o garçom, ótimo. Ele me entrega a água e a nota. R$ 5,50. Pelo visto não é só o gosto do café que era amargo, mas enfim, tirei uma nota de cinco e fiquei procurando uma moeda de cinquenta no fundo da bolsa, não queria pegar uma nota de dez e dar a ele, isso daria mais trabalho e eu me atrasaria, já que ele ainda teria que pegar meu troco. Achei, uma moeda de cinquenta. Entreguei ao garçom, coloquei meu livro dentro da bolsa, pendurei-a nas costas e água ia segurando na mão. Ia até a porta de saída, mas não aguentei e olhei de novo pro jovem da outra mesa e não para minha surpresa ele também estava olhando na minha direção, foi quando ele soltou um sorriso tímido e desviou o olhar. Merda, só me resta agora três horas seguidas de aula.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Independência grupal

Meu vizinho têm a triste mania de pregar sua independência absoluta. Têm a falha ideia de um mundo individualista. Ontem ele me pediu uma xícara de açúcar. Meu vizinho têm a triste mania de pregar a independência. Têm a falha ideia de um mundo socialista.
- Estevão Eduardo -

Uníssono

Todos nós temos o direito de ficar calados
Todos temos a independência necessária pra nos tornarmos dependentes de alguma ideia ou conceito
Todos temos Deus em nossas casas, resta saber se o deixaremos no nosso quarto ou no sótão sozinho
Todos podem cuidar de seus animais da forma como bem entende, mostrando-lhes carinho dando leves dentadas em sua carne macia
Todos nós podemos nos fingir de mortos e esperar que alguém que nos ressuscite
Todos os humanos, exceto Jesus, são imperfeitos, o que faz cada um de nós único, assim como todos os outros
Todos temos o direito de errar e escolher permancer no erro
Cada um pode fazer a diferença que lhe bem entende e ainda assim permanecer alegre
Todos temos o direito de expressar o que sentimos, desde que saibamos do que estamos falando.

- Estevão Eduardo -

terça-feira, 18 de maio de 2010

Em nome do Filho

"Um padre é alguém que orienta, que responde, que acalenta, sendo assim, somos semelhantes a Deus, ou seja, precisamos estar acima das pessoas normais para que só assim possamos ajudá-las." Isso foi a primeira coisa que Edgard escutou ao chegar no seminário. Não era oobviamente algo de tão ruim, afinal estar acima das outras pessoas lhe torna alguém especial, superior, inatingível. Era assim que por algum tempo pareceu sua nova carreira aos olhos do pobre jovem de apenas 15 anos. Pra chegar a essa conclusão precisamos primeiro saber como Edgard chegou ao seminário, mais precisamente como veio a se tornar padre. A história começou quando o menino tinha apenas cinco anos e sua mãe em uma promessa feito ao nosso Senhor, entregou seu filho, desde criança e sem conhecimento do próprio, nas mãos de Deus. Como se nosso Senhor realmente fosse se interessar em receber mais um, ou menos um. Mas enfim, sua mãe, religiosa fervorosa, ofereceu seu filho ao seminário quando esse completasse quinze anos em troca de que ele pudesse se recuperar de uma grave doença. Edgard finalmente foi curado, após seis meses de internamento, pelos médicos, pelo menos é o que parece, já que Deus não se pronunciou nem ao menos para dar sequer um diagnóstico. Sua mãe muito feliz agora sabia que teria que cumprir a promessa que havia feito, já que seu filho fora salvo e saiu ileso. Porém não foi fácil para a mãe de Edgard contar isso a ele, na verdade de morou alguns anos e ele só veio a saber disso quando tinha acabado de completar dez anos. Naquela época foi fácil para Edgard aceitar a promessa feita por sua mãe e que envolvia todo o resto de sua vida, afinal sua mãe não poupou os prós de se levar uma vida religiosa e não faltou pessoas para aconselhá-lo a de que aquele era o melhor modo de vida. Padres, "amigos", vizinhos, parentes religiosos, todos fizeram questão de acostumar Edgard a sua futura vida. E assim o próprio garoto foi se acostumando, já que tinha adquirido certa fé, mesmo sabendo que para ele Deus, em si, era algo bastante abstrato. Ele referia-se ao Senhor como uma pessoa inexistente, ou apenas como um ser impróprio responsável por nos controlar e com o tempo Edgard começou a sentir medo de Deus, mas do que amor, se é que uma criança pode amar alguém que nunca viu. Com o passar de alguns anos Edgard foi notando algo de diferente em seus sentimentos, nada que não pudesse ser superado ou que precisasse ter a atenção do Nosso Senhor. Enfim, um dia após completar quinze anos, Edgard foi mandado ao seminário para estudar teologia. Tudo ali pra ele era novo, e tudo que é novo é atraente, mesmo que não seja bom. Os padres muito educados aparentemente, as poucas freiras lembravam sua mãe e outras até sua avó, o local era calmo e tinha um ar que com o tempo poderia se tornar um pouco monótono. Não havia garotas, e a entrada das mesmas era proibida, talvez uma tentativa de impor o celibato desde cedo. Algumas aulas eram bastante interessantes, outras nem tanto, algumas cansativas e outras técnicas. Certo dia no quarto que dividia com seu colega, Pablo, Edgard se defrontou com uma situação que nunca tinha acontecido. Pablo era um garoto bem diferente de Edgard, era extrovertido e quem o conhecia duvidava de que talvez algum dia pudesse se tornar um padre, acreditava-se que nem virgem ela era mais, já que na sua vizinhança o comentário era que aos onze anos havia se deitado com a filha da vizinha, acontecimento extremamente comentado na época pela cidade. Mas Pablo havia ido parar no seminário pelos mesmos motivos injustos que Edgard, seu pai também havia feito uma promessa, mas de benefício próprio, e em troca teria oferecido o filho a Deus. No quarto Pablo sentia-se bem a vontade, mesmo com a presença de Edgard, com quem ele convivia a pouco tempo. E foi nessa noite que Edgard se deparou com Pablo se despindo, tirando cada parte de sua roupa de seminarista, ficando completamente nu, deixando a mostra suas costas de garoto homem, deixando à mostra seus músculos de menino adulto. Suas partes íntimas despidas de pudor. E Edgard sentiu-se envergonhado, sentiu um ardor nas orelhas, afinal nunca havia visto uma pessoa nua, nem ao menos a si próprio Edgard tinha coragem de olhar no espelho nu. Aquele momento pertubador cheio de segundos monótonos, cheio de orelhas ardentes e sangue pulsante deixou Edgard desconsertado, mas Pablo seguiu o ritmo deixando as roupas caírem no chão e dirigindo-se ao banheiro. Edgard adormeceu e pediu a Deus para que desse vergonha a Pablo. Infelizmente Deus não ouviu Edgard nesse dia. O tempo passou e Edgard foi acostumando-se à vida no seminário. Mas existiam coisas que ele ainda não entendia, ou preferia não entender. Certa vez encontrou uma freira beijando o padre Marcelo, seu professor, em uma sala vazia. Edgard ficou perguntando-se se aquilo era certo. Uma contradição estabeleceu-se em sua mente, qual a diferença entre ensinar e cumprir o ensinamento? Algumas vezes ele tinha achegado-se a mãe para contar essas coisas, mas a única vez que conseguiu recebeu de resposta um: "Pare de bobagem garoto, esses confinamento está deixando você maluco, mas é pro seu bem, logo logo você poderá sair e virar um lindo padre, assim como seus professores". Mas Edgard não queria ser como seus professores. Pablo continuava dando problemas aos Padres e as Freiras, cogitou-se a ideia de que talvez ele pudesse até ser expulso, mas renegaram a pedidos e clamores do pai dele. Agora Pablo nutria o costume de ir dormir completamente nu e lidar com a pele e a nudez foi algo complicado para Edgard. Todas as noites aquele corpo sobre a cama, aquela pele jovem que fervia atrás da orelha era algo que perturbava de uma forma estranha Edgard. Finalmente após saber que Pablo dormia nu, os Padres resolveram expulsar de uma vez por todas ele do seminário. Edgard sentiu-se alegre, pois parte do seu corpo agora podia dormir em paz todas as noites. A solidão crescera com o tempo e os acontecimentos sem explicações aumentavam a partir do momento em que os dias passavam. Com o tempo Edgard começou a nutrir certo ódio por estar ali e a pensar de que talvez tivera sido melhor morrer ao invés de lidar com algumas incertezas que aquele local trazia à sua mente e ao seu corpo. Passados quatro anos enfim ele saiu do seminário para servir em uma pequena igreja no interior da sua cidade. Depois de todo esse tempo Edgard ainda lembra dos seus vizinhos, "amigos', parentes, aconselhando-o a uma vida religiosa. Lembra-se todo dia do corpo de Pablo caído sobre a cama e de como ele desafiava a autoridade do Senhor, e os ardores que começam na orelha se desprendiam por todo o corpo. Lembra-se das freiras prestando serviços carnais aos padres nas salas escuras e vazias daquele seminário enorme. E raciocina que talve tivesse sido melhor sua mãe ter oferecido sua vida aos médicos, já que naquele momentos fora eles que tinham salvo sua vida.

- Estevão Eduardo -

Minhas costas

Ouro coberto de sol, repleto de brilho espesso
A carne é tão fraca que chega a tremer de desejo
Eu grito, choro, me toco, vejo um corpo que passa
Explodo em sentimentos de um lívido prazer
A mão que cumprimenta é a mesma que dá o troco
A boca que fala é a mesma que percorre o corpo
Minhas costas, arauto de gozo extremo, tocada pela vento
Pelas mãos de quem não está, pelos dedos solitários
Meus olhos são a porta aberta ao pecado
Deixados para lembrar do passado
O futuro trás as incertezas do amor
O prazer trás as certezas do momento
Corpo que enlaça o nada, tocado, passado, deitado
Falta alguém
Falta outro corpo
Ou será assim mesmo só e deixado para amar sozinho?

- Estevão Eduardo -

domingo, 16 de maio de 2010

A visão do mundo pelo olho de um anjo

Um belo dia Deus acordou e resolveu que iria destruir toda a humanidade. Mas não foi uma decisão tomada da noite pro dia. Foi algo bastante planejado, minunciosamente programado para ser executado. Cada cidade que iria ser destruída e por ordem de prioridade, cada pecador que seria julgado, poucos obviamente já que a maioria seria destruída sem julgamento algum. Resolveu que ninguém iria escapar, todos sem exceção deveriam ser mortos. Ele estava cansado de ver tanta violência, tanta fome, miséria e guerra. Estava indignidado com o desejo de homens por outros homens, com a ganância da humanidade, com a idolatria prestada a outros deuses. Havia chegado a hora em que todos deveriam responder pelos seus atos. Mas algo deveria ser feito antes da destruição completa. Em uma reunião realizada nos céus, entre Deus e seus anjos, eles discutiram a possibilidade da humanidade ser avisada antes e talvez mudar de proceder em um período de tempo estimulado pelo Senhor. Achando a ideia pertinente e interessante Deus resolveu acatar a sugestão, afinal o que era um mísero ano para Ele, tão acostumado a viver durante séculos. Assim, ele resolveu mandar um de seus anjos mais importantes para a Terra com o intuito de avisar aos humanos que eles seriam destruídos, a não ser que mudassem de proceder. Essa mudança incluía alguns fatores importantes como a única e exclusiva adoração ao Deus Supremo, a promoção da Paz, os ajustes aos conceito familiar correto, o uso natural do sexo oposto, entre outras coisas que deveriam ser ajustadas no período de um ano. O Anjo Branco, responsável por vim até a Terra, era um dos anjos mais importantes entre o círculo angelical. Ele era bastante respeitado entre os outros, tinha boa conduta e acima de tudo era fiel. Mas o problema era que ele era bastantes compassivo, algo que talvez pudesse interferir em sua tarefa, afinal Deus queria alguém com oponência, com um espírito guerreiro. Mesmo assim Deus resolveu enviar o Anjo Branco até a Terra. A forma como o Anjo viria até a Terra seria obviamente de humano, já que ele seria um profeta, mas se quisesse poderia assumir a forma espiritual a qualquer hora. Deus estipulou algumas regras para que o Anjo viesse para o planeta dos humanos. Entre eles estava não se envolver emocionalmente e fisicamente com nenhum humano, não se compadecer com seus erros, não interferir nas decisões divinas, avisar a todas as pessoas da Terra no período estipulado e para isso ele podia usar dos meios de comunicação humanos ou até dos poderes angelicais que possuía. Enfim, sua tarefa devia apenas avisar aos humanos de sua repentina destruição. Chegara o dia que o Anjo Branco desceria até o planeta Terra, e foi um dia bastante movimentado nos céus, já que era um acontecimento decisivo no decorrer da história dos humanos. Por fim, o Anjo tomou forma de humano e desceu até os seres imperfeitos. Mal sabia Deus que o rumo dessa história mudaria drasticamente, mal sabia Deus que os humanos eram só humanos, mal sabia Deus que um anjo poderia se apaixonar.

- Estevão Eduardo -

terça-feira, 11 de maio de 2010

Simples

Você costumava rir das minhas palhaçadas
A gente costumava criar inveja nos nossos amigos
Você dizia que era adulto demais e que já devíamos casar
Ela cansava de dizer que não dava
Eu sorria do rosto de raiva que você fazia
Eu costumava me divertir das suas iras infundadas
Os livros que você me emprestava e eu nunca devolvia continuam no mesmo lugar
A gente dormia junto durante horas
Preferia calar em vez de falar e estragar o que era belo
E somente as vezes durante a tarde você me trazia um copo d'água
E assim, como quem não queria nada, você era a parte mais importante que eu acabei deixando lá trás.

Os sonhos que a gente tinha você costumava esconder, era só isso e nada mais.

- Estevão Eduardo -

O mundo lá fora

Era a coisa mais incrível que eu já tinha visto em toda a minha vida. De longe não parecia tão perigoso, mas a medida que se aproximava algo dentro de mim me avisava para me proteger. Eu não tinha a menor noção de como aquele tornado havia se formado, ou pelo menos ninguém havia avisado nos noticiários de que um tornado passaria bem na minha rua. A verdade é que até hoje eu nunca soube como se forma um tornado, mas no momento isso não vem ao caso, já que daqui a poucos minutos um deles passará pela minha casa e infelizmente talvez amanhã eu já não esteja vivo. Meu primeiro impulso foi sair de casa e correr atrás dos meus pais que tinha ido passar um final de semana em um chalé à 30 km da minha casa, ou seja, seria impossível eu conseguir chegar até eles, com certeza o tornado me pegaria pelo caminho. Então decidi ligar para eles rapidamente, enquanto tentava discar os números olhava pela janela e ao mesmo tempo resolvi descer até o sótão e ficar por lá mesmo, já que eu tinha visto em algum desses programas educacionais chatos que passam em tardes de domingo, dizendo que o melhor que se pode fazer é ir para um local seguro, mais precisamente um sótão, já que é subterrâneo. Infelizmente meus pais não atendiam, mas mesmo que eles atendessem a verdade é que não faria diferença alguma já que eles não poderiam se tele transportar pra cá e me salvar, ou se conseguisse fazer isso, acabariam morrendo. Com o passar dos segundo fui rapidamente me acostumando à ideia de que eu iria morrer, e talvez não fosse legal ficar avisando aos meus pais esse tipo de coisa, principalmente antes que aconteça, pode parecer até suicídio. Nada de ligar pra eles. Nesses últimos momentos resolvi pedir perdão para Deus, mas será que ele me escutaria? Será que ele me perdoaria? Comecei a lembrar de tudo e percebi que não me arrependo do que fiz, ou seja, Deus não precisa me perdoar já que eu mesmo não me arrependo de nada. Quer saber, dane-se, daqui a pouco eu vou tá morto e Deus continuará vivo e isso basta, depois mais pessoas morrerão e eu serei apenas mais um. Será que o tornado já está mais próximo? Acabo de me lembrar de que gostaria de pelo menos dizer aos meus pais que eu os amo, na verdade eu nunca disse isso a eles, e me arrependo apenas disso, mas eu poderia consertar com apenas uma ligação, mas percebo que seria muito cliché ligar pra eles enquanto me ouvem dizendo "eu amo você" e o vento me arrastando e desintegrando todo o meu corpo e a linha telefônica também obviamente. Mas quando eu morrer eles vão ter mais coisas pra se preocupar do que ficar lembrando se algum dia eu já disse que amava eles. Acabo de ouvir uns latidos de cachorros, dizem que eles pressentem as coisas, será que o tornado já está se aproximando? Droga, acabo de lembrar que não tenho nenhum amor pra recordar no meu último minuto de vida. Isso é triste, mas daqui a pouco passa. Amor não correspondido não conta essas horas, apenas se for pra deixar uma vontade de realizar coisas que não tive coragem antes. O vento está bem mais forte, estou começando a sentir um frio muito grande, será a morte se aproximando? Ouço som de vidraças quebrando. É, acho que agora é a minha hora. Acho que chegou o momento de dizer a adeus...

08h30 . O despertador toca. Droga. Ter de acordar e lidar com um tornado todos os dias é tão angustiante quanto é viver.

- Estevão Eduardo -

segunda-feira, 10 de maio de 2010

ligações ao longo da vida .

E : - Não é nada demais. É só que eu acordei um pouco confuso hoje de manhã, como se algumas perguntas estivessem sem respostas, eu não dava a mínima em procurar respondê-las. Algumas coisas ditas durante o dia me deixaram um pouxo triste e até provocaram um certo desentendimento entre mim e algumas pessoas, mas é só. Talvez eu tenha amadurecido demais conforme a época, talvez eu não queira mais fingir algumas coisas.

D : - Você tá estranho, quer que eu vá até aí daqui a pouco? Talvez possamos conversar, tomar alguma coisa ou quem sabe comer?

E : - Não, não. Desculpa por tá ligando, eu só precisava contar algumas coisas, é sério. É que às vezes quando eu não falo certas palavras elas acabam se soltando por elas próprias, e eu odeio falar sozinho.

D : - Então tá. Bem, é que eu vou precisar sair daqui a pouco, então eu não vou poder ficar por muito tempo aqui, mas se você quiser ligar pra mim lá pelas 22h00 eu vou está em casa.

E : - Tá bem, mas eu não sei se lá pelas 22h00 eu vou está com tanto assunto para falar.

D : - Não têm problema, nós inventamos algo. Ou quem sabe apenas fiquemos calados.

- Estevão Eduardo -

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Fios soltos

07:30. Essa é a hora que meu despertador costuma tocar. Nem sempre foi assim, houve dias em que eu acordava às 08:00, e por incrível que possa parecer foram meus melhores dias. Passo minutos intermiváveis sobre a cama à espera de algo, mas nada acontece. Nem sei porque tenho despertador se de nada me serve. Durante as manhãs a vida parece tão insossa, às vezes acho a manhã o horário mais depressivo de todo o dia, pois você sabe que tem um longo dia pela frente, um longo dia vazio e repleto de nada. Há três meses que larguei meu emprego. Trabalhava em um escritório de advocacia, mas nem sempre gostei de trabalhar com isso, foi mais um sonho do meu tio do que meu. Somente há três meses, logo após a morte do meu tio é que vi que nada mais me prendia ao meu emprego e resolvi pedir demissão. Que meu tio não me ouça, mas foi a melhor coisa que já me aconteceu em toda vida. De lá pra cá venho sobrevivendo de umas economias que tinha feito há alguns anos, quando pretendia viajar para o Canadá, mas parece que agora já não vou poder mais, afinal nem sei porquê queria ir pro Canadá, eu nao sei falar inglês muito menos francês, eu acho que era mais um sonho de criança, quando eu ouvia meu tio falar sobre sua viagem à uma cidade de nome esquisito, eu acho que era Toronto. Mas a vida não é facil quando você está desempregado, apesar de você não gostar de seu antigo emprego, mas também desde que larguei o trabalho não procurei outro. Venho tentando me achar durante todo esse tempo, afinal desde os meus 17 anos que eu me perdi na vida de outras pessoas e acabei deixando a minha pelo caminho. Porém a lentidão dos dias não ajuda. Certos dias parece que nunca acabam e algumas semanas parece que nem passaram. Tempo pra pensar eu tenho suficiente, mas pensar no que eu sou ou no que eu poderia ter sido me deixa angustiado. Um dia desses eu me lembrei que quando eu era pequeno queria ser veterinário, sempre gostei de animais, mas não podia cuidar deles continuando a comer carne animal, era como ser um médico e nas refeições comer carne humana, que nojo. Desisti de ser veterinário ontem. Não lembro muito da minha infância, muito menos dos desejos que tinha quando era pequeno, se é que tinha desejos. Lembro vagamente do meu tio falando sobre como o mundo era injusto com as pessoas, eu nunca entendia, vim compreender aos 17 quando me apaixonei sem ser correspondido. Não posso dizer que sou uma pessoa infeliz, pois tenho tudo que uma pessoa saudável poderia ter, mas isso basta, uma vez, certa senhora me falou que falicidade provinha de você ter aquilo que sempre deseja. Mas pensando direitinho ninguém pode ser feliz, já que nem todo mundo tem o que deseja, até porque seria muito difícil você ser realizado em sentido profissional, amoroso, econômico, blábláblá. Eu acho que as coisas poderiam ser muito mais fáceis se a felicidade pudesse ser comprada, vinhesse em uma caixa enrolada em um laço, assim todas as pessoas seriam bem-sucedidas sem ter de se preocupar em desejar algo e não ter. Mas talvez a essência que mantenha a vida seja a procura por algo inacessível. Meus planos para a tarde geralmente incluem visitar uma cafeteria aqui perto de casa, eu gosto do ambiente calmo e do cheiro de lá. Gosto também de observar as pessoas e vê a reação delas em algumas situações. Durante a noite eu procuro sempre algo pra assistir na televisão, ou na maioria das vezes procuro ler algum livro, o que é bem mais interessante. Talvez eu devesse ser escritor, mas o que me impede é o fato de eu gostar muito de ser quem eu sou, apesar das minhas desventuras. Resolvi que amanhã eu resolvo o que vou fazer da minha vida, mas por enquanto eu estou pensando se coloco o despertador pra tocar às 07:30 ou 08:00.

- Estevão Eduardo -

Nossos segredos

Obviamente há algo sobre todos nós que deveria ser enterrado, deixado morto por baixo da terra. Há algo de nós que ultrapassa a dor de viver, que chega a ser eterno enquanto há vida. Há muito sobre cada um que poderia nem existir e que de alguma outra forma deveria ser mantida em silêncio em respeito à vida. Existe um monstro em cada pessoa que deveria ser morto ao nascer e que não tivesse voz ao falar, que não existisse enquanto há alegria.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sodoma

Talvez um dia enxerguemos onde foi que erramos durante todo esse tempo.
Um dia pararemos de chorar pelos que ainda estão vivos.
Ou talvez façamos menos orações e mais ações.
Uma noite talvez não mais ouviremos as mesmas vozes que pairam sobre a cabeça.
As roupas talvez não sirvam mais e tenhamos que emagrecer dez quilos.
Realizaremos mais nossos sonhos ao invés de sonhar mais com a realidade.
Falaremos mais, em voz baixa, tendo sempre o que falar.
Deixaremos de lado o tudo que preenche o nada e seremos felizes sendo vazios.
Olhe para o céu. O que você vê?
Nuvens, estrelas, gotas de chuva, Lua?
Pois é, eu também.

- Estevão Eduardo -

domingo, 18 de abril de 2010

É meu direito querer ser feliz

Era a minha fazenda. Eu tinha o direito de plantar nela o que eu sempre quis. Cultivei durante tempo o suficiente para que tudo o que fosse necessário crescesse e desse frutos. Plantas de todas as cores e formas. Frutos de todos o sabores e tamanhos. Animais, tinham poucos. Algumas cabeças de gado ali, umas cabras aqui, enfim, somente o suficiente para dar alimento a toda família. Meus filhos, todos crescidos, preferiram se mudar para a cidade grande, onde encontraram mais chances para seguirem suas vidas. Nunca quiseram construir suas casas e famílias perto de mim e da minha esposa, exceto o mais novo, mas infelizmente ele morreu aos quatorze anos em um acidente de carro. Desculpe-me, mas eu não quero me deter nesse assunto, é algo que eu não gosto de relembrar. Minha esposa ainda mora comigo, mas não pode mais mexer-se, muito menos realizar qualquer tarefa. Infelizmente ela também estava no carro quando ocorreu o acidente com meu filho. Ela teve o que alguns médicos chamam de derrame e não pode mais movimentar os músculos, inclusive os da face, o que a impossibilita de falar. Isso ocorreu há sete anos. E há cinco anos que todos os meus outros três filhos partiram para a cidade grande. Nesse meio tempo várias coisas ocorreram, não muito importante obviamente, mas o suficiente para movimentar um pouco essa minha vida. Não que eu esteja reclamando, morar nessa fazenda foi uma escolha minha há trinta anos atrás, e de modo algum eu a deixaria agora. Esse lugar tem algo de pacífico, que nessas cidades grandes não têm. Eu vi meus filhos nascerem aqui, crescerem aqui, morrerem aqui. Eu e minhas esposa fomos bastante felizes, tivemos nossos momentos de alegria, tristeza e encanto, quando finalmente nasceu nosso primeiro neto. Eu sempre acordei cedo para poder passear pelos arredores da fazenda, me certificando se tudo estava na perfeita forma e se o trabalhos dos empregados estava rendendo. Tínhamos cinco empregados que trabalhavam na roça e com o gado, mas infelizmente um teve de parar de trabalhar por causa da saúde, nada grava, porém destrutivo a longo prazo, logo ficamos apenas com quatro trabalhores. Na casa trabalhava duas senhoras cuidando das nossas refeições e de nossas necessidades, mas com a impossibilidade da minha esposa tivemos que contratar mais duas moças, uma para ajudar na casa e outra para tomar conta de minha mulher, por tempo integral. Eram pessoas de bem, pelo menos eu acho, nunca tive interesse de saber sobre suas vidas. Nunca me interessei por ninguém que realmente não chamava a minha atenção. Pra falar a verdade se me perguntassem hoje qual o nome de todos eles que trabalham aqui dificilmente eu conseguirei responder. Apesar de receber cuidados integrais, sempre cuidei e dei a maior atenção à minha esposa. Lembro-me que assim que ocorreu o acidente e ela teve que voltar pra casa, eu passava praticamente o dia todo, todos os dias ao seu lado, tentando consolá-la e tentando exprimir, por ela, a tristeza que sentia pela perda de nosso filho. Já que não podia falar, ela só chorava e foi assim por um bom tempo. As pessoas sempre me falavam que era da vontade de Deus que tudo isso ocorresse, mas eu sempre tentava não associar Deus a isso, na verdade eu nunca associei Deus a nada. Talvez isso seja bom. Meus passeios matinais pelas redondezas tornaram-se mais frequentes quando nossos outros filhos nos deixaram. E mesmo que não quisesse admitir, mas um enorme abismo se abria entre eu e minha esposa. Será realmente que tudo que nos ligava era apenas nossos filhos, e que agora que todos eles foram embora, cada um à sua forma, nada mais nos ligava? Embora essa fosse uma pergunta frequente eu tentava não achar a resposta. Alguns dias adiante trouxeram a leveza das chuvas outonais, o que serviu para me deixar mais preso em casa durante as manhãs. Deitado ao lado da minha esposa eu conversava com ela, relembrando fatos tão marcantes de nossas vidas, não os tristes, esses não merecem ser lembrados, mas o alegres, ou até aqueles mais estranhos, sem respostas. Mas ela não podia retribuir, ela não sorria, ela não movia o olho. Mas por dentro talvez ela gritasse. Chorasse. Eu sabia que ela podia me ouvir, mas era muito egoísmo da sua parte não responder. Infelizmente não inventamos nenhuma forma pra nos comunicar, se é que exista alguma, mas enfim, preferimos continuar sendo egoístas, eu apenas falando, ela apenas escutando. Minha fazenda tinha se tornado definitivamente fazia. Repleta de silêncio por todos os lugares. Cheia de nada que preenchesse o vazio que era do tamanho do terreno lá fora. Talvez eles voltem. Talvez um dia meu caçula queira ficar e morar conosco. Talvez minha esposa invente uma nova maneira pra se comunicar. A fazenda é minha eu a mantenho porque tenho esperança de que algum dia tudo volte a ser como era no início.

- Estevão Eduardo -

sábado, 17 de abril de 2010

O jovem detento

Era a cela 59. Não era muito diferente das outras que se seguiam pelo corredor do presídio. Todas com quatro paredes brancas, uma porta de aço que impedia qualquer fuga, duas camas, um projeto de sanitário e uma janela muito bem fechada, que servia apenas para iluminar durante o dia. Chegara ali há dois meses e felizmente não tinha tido o desprazer de dividir a minúscula cela com ninguém. Ele já havia se acostumado a rotina do local. Todos os dias eram o mesmo processo. Ás sete da manhã se levantar para tomar café com os outros num enorme salão de refeições. E apesar desse ser um dos únicos momentos no qual podia interagir com outra pessoa, Yuri não era uma pessoa que gostava de partilhar experiências com estranhos. Ás dez da manhã eles voltavam cada um para suas celas, após tomar o famoso banho de sol, nos quais frequentemente havia desentendimentos e brigas entre alguns presos. Dali por diante o dia passava lento como um relógio que para ao meio dia. Sem muita noção de hora, ele guiava-se apenas pela luz do sol. As outras refeições lhe eram servidas em suas próprias celas, decisão essa tomada pelo diretor do presídio para evitar certos confrontos que poderiam acabar em grandes revoltas. Assim passou mais um mês na vida de Yuri, e ele só sabia porque alguns presos faziam questão de comentar nas refeições matinais, mas não era uma coisa que lhe importava o bastante. Certo dia durante o banho de sol um detento chegou a lhe perguntar o que tinha feito para estar ali. Yuri respondeu:

- Matei uma pessoa. - de forma frívola e direta, com os olhos atentos no nada.

- Todos nós estamos aqui por algum motivo, mas todos nós também tivemos motivos para fazer o que fizemos - respondeu o jovem que lhe fez a pergunta.

- Tanto faz. Se estamos aqui é porque devemos. Não me interessa o que fiz, nem porque o fiz. Eles não querem saber de motivos.

- Eu também matei uma pessoa. Mas não me arrependo. Eu acho que fiz o que deveria ser feito. Algumas pessoas não tem o direito de viver.

- Interessante - respondeu Yuri com a face ainda indiferente.

- Você não é muito de falar não é? - perguntou o jovem detento.

- Eu só falo o necessário.

- Sabe que desde que você chegou aqui eu te observo, e você tá sempre tão calado. Você deveria falar mais com os outros ou pelo menos arrumar uma briga de vez em quando. Você tem que fazer valer a pena estar aqui - Yuri soltou um pequeno sorriso.

- Eu soube que você matou sua esposa - disse o jovem detento num tom mais baixo depois de um certo tempo.

- Então porque me perguntou o motivo de eu estar aqui? - indagou Yuri mostrando agora um pouco mais de interesse.

- Sei lá, eu fiquei pensando que talvez você não estivesse a vontade para falar disso. Eu não queria parecer muito intruso nem queria que você me achasse um chato por estar fazendo tantas perguntas. Mas sabe o que eu acho? Você deve ter o seus motivos, assim como todos nós. Eu não vou perguntar os seus porque eu acho que talvez você não queira dizer e muito menos é do meu interesse, mas enfim...

- Cara, você fala muito - interrompeu Yuri soltando um sorriso mais aberto dessa vez.

- Ah - soltou um breve suspiro - todos sempre dizem isso. Mas se você quiser eu posso ir embora.

- Pra mim tanto faz - disse Yuri.

- Então tá eu vou ficar aqui, mesmo que você não queira conversar sobre isso mas eu acho que a gente pode conversar sobre outras coisas, tentar esquecer um pouco do porque estarmos presos - soltou um breve sorriso - você se importa se eu continuar falando? É porque aqui a gente se sente as vezes tão só, e eu sempre gostei muito de conversar, e durante todo esse tempo que estou aqui e já vai fazer um ano, a única pessoa com quem eu mais converso é comigo mesmo. Então pelo menos o fato de você está me ouvindo já ajuda e muito.

- Tá certo. Pode continuar falando - disse Yuri agora retomando a face indiferente.

Foi assim durante muitos dias. O jovem detento passava todas as três horas nas quais eles tinham para comer e ver o sol falando com Yuri. Não era bem uma conversa já que Yuri não participava muito. Poderíamos chamar de monólogo. No começo não era uma coisa que agradava muito à Yuri, mas ele não reclamava e com o tempo até foi achando razoável ter alguém para ouvir durante essas míseras três horas em "liberdade" da cela. Durante longos cinco anos, todos os dias, o jovem detento chegava à mesa onde Yuri estava sentado para poder falar a ele o que tinha sonhado, ou sobre o que gostava de fazer quando tinha liberdade, ou sobre seus familiares e de como odiava a cada um deles. Com o tempo chegou a lhe contar até alguns segredos, que Yuri preferia fingir não acreditar ou não estar escutando. Disse-lhe que morria de medo do seu companheiro de cela e que já tinha ido até a diretoria pedir para ficar na mesma cela que Yuri, mas que seu pedido não foi nem escutado por completo. Contou-lhe o porquê de ter matado seu melhor amigo, e até chorou ao dizer que por mais que tinha motivos o suficiente, ainda assim sentia muita falta dele e que saber que ele não estaria lá fora quando saísse não era uma das melhores lembranças. Certo dia chegou a encostar a cabeça no ombro de Yuri e apenas por um momento preferiu não falar nada, apenas ficar ali, e incrivelmente pra Yuri era como se ele tivesse falado certas coisas que ninguém nunca havia lhe falado. Aquele momento de silêncio valeu mais do que mil palavras que foram ditas durante muitos dias.

Depois de seis anos Yuri foi liberto por bom comportamento, e soube que o jovem detento ainda ficaria lá por um bom tempo. No dia em que foi liberto preferiu não comunicar ao jovem. Deixou o presídio sem nunca ter dividido a cela com ninguém. Saiu meio confuso sem saber o que fazer. Porém resolveu que iria reconstruir a vida em outra cidade, decisão tomada semanas antes de ser liberto. Conseguiu um emprego como garçom em um bar. Ganhava pouco, mas o bastante para se sustentar. Não se casou nunca mais. As vezes sentia falta do jovem detento falando-lhe sobre sua vida e passando horas narrando suas aventuras aqui fora. Yuri tinha aprendido que tanto fazia o que o jovem lhe falava, o que importava era quando ele falava, sua voz com o tempo se tornou mais bonita do que as palavras que ele proferia, mas Yuri não tinha se dado conta. Nunca mais ouviu falar do jovem detento, até procurou saber mas desistiu quando soube que ele já tinha sido liberto, exatamente três anos depois dele. Yuri não achou conveniente ir atrás dele, afinal o jovem detento era do mundo. Era impossível tentar encontrá-lo. Não houve sequer um dia no qual Yuri não lembrasse da voz inquietante do jovem detento. Mas o que ele não esqueceria jamais seria o momento de silêncio que guardou tantas palavras.

- Estevão Eduardo -

Lembre de mim, nem que seja pra me esquecer

Quando você chegar onde quer lembre de mim
Quando você for finalmente feliz lembre de mim
Quando tudo começar a fazer um mínimo de sentido me ligue
Quando você encontrar a pessoa certa, que faria tudo por você, me mande uma carta

Se tudo der certo eu torço para que você seja mais compreenssivo
Se tudo der certo eu espero não ter que chorar mais
Se eu não estiver mais lá, onde deveria estar, tomara que você se esqueça
Se por algum motivo relevante você quiser chorar, não conte a ninguém

Que tudo que se passou, no futuro, seja apenas motivo para vagas lembranças
Que seus filhos sejam mais felizes do que nós
Que minha vida comece da onde você deixou ela cair
Que o destino pare de nos pregar peças

Que a vida passe sem nunca ter acontecido.

- Estevão Eduardo -

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Exploda, isso basta

Desculpe-me mas eu vou explodir sua cabeça. Eu vou ter que forçar você a acreditar no Bem e no Mal. Isso é certo. Aquilo é errado. Seu pai é doido. Seu Pai é perfeito. Sua mãe é uma vagabunda. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Deus é bom. Seus vizinhos são maconheiros e prostitutas. Seus amigos são perversos e fazem sexo sem camisinha. Sua comida é cheia de pólvora e sua mão cheia de graxa. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Essa é a arma que terá que usar. Atire em sua cabeça. Roube a comida do seu próximo. Mate-o. A igreja é uma benção. O inferno é cheio de dor e enxofre. Fale "porra", se arrepende e peça perdão enquanto há vida. Desculpe-me mas eu vou ter explodir sua cabeça. Colonize esses índios. Acabe com suas casas. Destrua seus bens e estupre suas filhas. Coloque fogo em seus corpos e os cubra de terra. Grite em seus ouvidos e morda seus lábios até sangrar. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Coma seu cachorro. Vomite seu almoço. Engorde cinquenta quilos e os perda nas academias. Corra para os restaurantes e coma mais, mais, mais. Jogue fora o resto. Esfregue o lixo na cara dos pobres. Deixe seus restos mortais terem cheiro de hamburguér recém saído do forno. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Suba encima da mesa. Quebre os copos. Corte os pulsos com os cacos. Faça da cortina um gancho para a morte. Quebre as cadeiras nas costas de sua esposa. Induza seu gato a pular da janela de seu apartamento próprio do décimo andar, ou talvez você prefira jogar sua própria filha. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Declare morte aos diferentes. Quebre suas pernas. Mate seus amantes. Arraste seus restos mortais até as portas da igreja e os queime em praça pública. Antecipe o inferno concedido aos errantes, que o diabo providenciou tão cuidadosamente. Grite seus nomes o mais alto que puder. Desculpe-me mas eu vou ter que explodir sua cabeça. Seja racional. Mate. Coma. Viva em torno de uma mentira. Corra para o céu. Abrace Deus. Diga: "missão cumprida". Desculpe-me mas eu vou ter que explodir minha cabeça.

- Estevão Eduardo -

do verbo "Crescer".

Quando eu crescer quero ser igual a Deus. Não quero ter que me preocupar com os outros e com o que eles fazem de errado, muito menos as consequências. Não quero perder meu tempo pensando nas tragédias. Eu quero ser famoso, ser reconhecido no mundo inteiro e ter milhões de pessoas chamando pelo nome. Não precisar ter que dormir e nem pensar nas coisas horríveis que antecedem a noite. Muito menos ter que viver preocupando-se em acertar a cada mísero minuto e seguir linhas desenhadas por outras pessoas. Quero ser perfeito e não chorar por ser um simples humano. Não quero pagar pelos erros dos outros e muito menos ter que aguentar as consequências de atos inpensados. Não quero ter princípio, nem pais, obviamente não sentir falta de nenhum deles. Não precisar amar seria uma das melhores qualidades, principalmente não consumar o amor em atos carnais, seria bárbaro. Ter dezenas de e-mails na minha caixa de correio eletrônico e não ter que me preocupar em responder a todos. Não ter amigos e nem precisar agradá-los. Viver em eternas férias e poder visitar lugares maravilhosos sem ser notado. Mudar os pensamentos das pessoas e de vez em quando se esquecer de que existe um mundo aqui embaixo. Não ter defeitos, apenas qualidades. Poder está em todos os lugares, e não estar em nenhum ao mesmo tempo. Não precisar sonhar com o futuro e não ter obrigações domésticas, muito menos ter que trabalhar, até porque já teria gente o suficiente para suprir essa necessidades. Ter o poder de mudar as coisas, mas preferir ver até onde elas vão, só para poder provar minha superioridade. Quando eu crescer, se eu crescer, não quero ter que me preocupar com a existência de nenhum lugar a não ser com aquele que eu estou no exato momento de cada segundo, porque cada segundo por si só é único.

- Estevão Eduardo -

Vocês

Que seja eterno enquanto dure
Que dure enquanto seja feliz
Que seja feliz enquanto há tempo
- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Nossas fotos de cada dia

Onde foram parar as minhas chaves? Eu tinha absoluta certeza que as tinha deixado sobre o sofá, mas você insiste em dizer que não sabe onde elas estão. Não me faça se atrasar, eu tenho que pegar o próximo ônibus, com destino para o inferno, então tenho que me apressar muitíssimo, antes que alguém mais perverso que o próprio diabo me mande pra lá. Não se preocupe com essas pequenas lágrimas que caem do meu rosto, são só imagens repetidas de outras décadas. Não me leve pra cama, é sério, eu preciso encontrar minhas chaves. Porque sempre que eu estou atrasado você insiste em me deitar sobre seu peito e me contar estórias engraçadas? Não pegue na minha mão fingindo não saber o que se passa na minha mente. Poxa amor, você tem que me mostrar e me ajudar a encontrar a porra das chaves. Não que eu queira, mas eu preciso muito ir embora. Não me agarre assim, eu sinto o cheiro da sua pele como ninguém mais poderia sentir. E eu odeio quando você começa a tirar fotos minhas inesperadas, você poderia só por um minuto crescer? Já é tarde, na verdade eu creio que já passa das dez da manhã, então seria bom que você comece a se aprontar e se vestir, tire esse pijama ridículo que sua mãe lhe deu no seu aniversário de dezenove anos e me ajude a encontrar minhas chaves. Pare de me fotografar. Pare de me levar pra cama. Já sei. As chaves devem estar na cozinha, eu acho que as deixei lá quando fui fazer um café pra você ontem à noite. Não, espere. Devem estar no banheiro. Pare de falar no meu ouvido que me ama. Não segure na minha mão desse jeito, eu estou muito atrasado pra poder falar de amor agora. Você continua insistindo. Você sempre foi assim. Difícil. Sempre sóbrio, diferente de você. Mas quer saber? Que se foda. Que se foda minhas chaves. Que se foda o inferno, ou o táxi lá embaixo me esperando. Eu vou ficar aqui com você, fingindo estar triste. Tirando fotos de nossos rostos cansados. Vou deixar você pegar na minha mão e observar as fotos que você grudou, de nós dois, no teto, cair sobre nossas cabeças. Talvez passe o tempo suficiente pra eu esquecer que existe um mundo lá fora. E que se passe o tempo. Amanhã eu juro que encontro minhas chaves.

- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Monstros

Pequenos monstros. Sob a luz refletora do sol tentam se safar de um dia serem destruídos. Tentam encontrar saídas para problemas diversos. Monstros repugnantes, por que ainda insistem em viver? Querem a todo custo achar um pouco de felicidade para esse insosso dia que começa com o sol machucando-os. Buscam tornar um pouco mais útil suas vidas insignificantes. Procuram em outros de sua espécie algo que lhes traga alegria. O Senhor acredita que eles crêem no Mal? Oh Céus, pobres coitados. Alguns mais espertos e inteligentes acabam com sua própria vida, antes mesmo que o destino, ou um de sua espécie, tão retardado quanto os outros, venha e lhe tire a vida. Outros dedicam a maior parte da sua miserável condição a se dedicar à algum outro. Se tão soubessem que aqui é tudo melhor e mais fácil. Mas felizmente - ou não - eles sempre arranjam uma solução. Maldita inclusão intelectual. Se fossem robôs, e não monstros (ir)racionais, talvez pudessem lidar mais facilmente com o fato de terem um conjunto de ordens a obedecer. Idiotas. Todos tão fadados a ignorância. Alguns até conseguem se libertar do corpo, e através da mente, buscar novas formas de evoluírem. Só alguns. Devemos continuar a guiá-los sem saber pra onde eles vão? Devo contá-lo que alguns, por vezes, cometem atos tão animalescos, que ver por outra, continuo me perguntando realmente se o Senhor não acredita na evolução. Perdoe-me por esta observação, apenas ocorreu-me um fato contraditóro durante algum tempo. E pensando assim, talvez chegue-se à conclusão de que talvez algo, ou alguém lhes conduzam a irracionalidade. Mas enfim, não é do meu departamento investigar esses casos. Chocou-me perceber a fé que eles têm em certas coisas. Coisas essas tão banais. Porque eles choram e se entregam por elas? Porque, na verdade, eles choram por tudo? Imbecis. O Senhor não os criou para que eles chorassem, nem mesmo lhes deu essa opção. Na verdade não lhes deu opção alguma a não ser a de quererem ser monstros ou robôs. Mas eu acho que eles estavam fadados sempre a serem monstros. Monstros que procuram respostas, monstros que querem se sentir completos. Monstros que se alegram de sua condição monstruosa. Definitivamente retardados o suficiente para achar que nos importamos com eles, ou quem sabe, que ouvimos tudo o que falam. Temos que informa-lhes que trabalhamos apenas com robôs, e que por enquanto não lidamos com seres pensantes. Senhor destrua-os logo, não que eu queira acabar com sua diversão, nem muito menos retardar seu horário de lazer, mas está se tornando cada vez mais insuportável ver esses monstros tentando, de alguma forma, sobreviver nesse resto de universo que o Senhor construiu. Dispense-os, imediatamente. Depois talvez se sentir entediado pode criar outros e começar tudo de novo.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Enquanto estamos em dúvida

Você não precisa se preocupar com sua consciência, você nem ao menos sabe o que é isso. Você não tem que chorar toda noite se sentindo culpado por apenas ser um ser humano. Talvez até quisesse curar meu mal, mas está com uma preguiça interminável que o impossibilita de ver, com os meus olhos, que não, eu não estou bem. Você quis provar pra todos que seu lado é o melhor e que não há outro que se preocupa tanto com o bem-estar alheio quanto ao que você criou. Você não tem pais pra lhe dizer que é feio brincar com as pessoas dessa maneira? Talvez meu castigo seja ter conhecido a moral e ter deixado, de uma só vez, que tudo que você nos ensinou fosse absorvido como àgua na esponja, mas eu to cheio demais pra me sentir devidamente afogado. Lá encima é tão alto que talvez você nos veja tão pequeno quanto devíamos parecer. As pessoas são boas assim mesmo, ou isso tudo é só ilusão? Eu queria que você fosse meu pai, só meu. Queria ir até a biblioteca de nossa casa e contar a você que eu não sou como os outro. Você diria que tudo bem, num estalar de dedos eu estaria totalmente perfeito da forma como você tinha planejado ao saber que eu ia nascer. Não importa o que eu sentisse, ou fizesse, imperfeito assim como eu sou, você daria um jeito de me olhar e concertar tudo em mim. Infelizmente você adotou todos nós e sente agora uma dificuldade imensa em olhar nos meus olhos e se importar com o que talvez possa ocorrer comigo. Tudo bem, tudo ainda está bem, enquanto você estiver apenas me ouvindo, eu estarei apenas falando.

- Estevão Eduardo -

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cena doméstica

Pra mim seria absolutamente normal se ela de sobressalto metesse a mão na minha cara, ou como sempre gostou de fazer um drama e chamar a atenção para suas necessidades e problemas incuráveis, talvez ela começasse a chorar e colocasse a mão sobre o peito como um prenúncio lógico de um desastre familiar. Já ele ficaria imóvel, ou se por alguma surpresa do destino começasse a palestrar o fato de sermos uma família pseudo-feliz, ficaria completo por saber que tudo que falou, pra todos, mas somente pra ele de certa forma fazia algum sentido. Por outro lado a única que eu sempre quis que ficasse do meu lado, com quem eu gostaria de poder me abrir, contar segredos e desejos e partilhar o fato de termos nascido de uma mesma fonte para torná-la não apenas um membro familiar porém mais que isso, uma amiga. Essa serviria apenas para dizer o quão infeliz eu tornei a todos e me crucificar numa estaca que ela construiu, preparada desde que nasci apenas para mim, como uma forma lógica de que sempre algo estava errado no meu modo de agir. Mas nem sempre fora assim, houve momentos bons de alegria, conversas e trocas de segredos tão secretos quanto o céu azul. Houve momentos em que quis chorar, mas isso passou, hoje talvez seja uma mistura simples de engano, tristeza e fuga. Os piores momentos, por incrível que pareça, sempre foram acompanhados dos melhores, e isso talvez tenha sido um pouco confuso para minha mente infantil. Os fins de semana em guerra por simples palavras soltas, ou ciúmes bobos. Brigas intermináveis por problemas facilmente resolvíveis e que com o tempo percebi que eram tão pequenos quando comparados a imensidão de medo que tenho de mim mesmo e deles quanto ao meu desejo. Simples e prática eram a forma como passavam de um desentendimento e hoje não é difícil vê-los, vez por outra, trocando farpas pequenas e feríveis, uns com os outro. De certa forma eu não sou o melhor, nem nunca serei, mas tomei partido por não tentar compreender e me tornar invisível em certos momentos do dia todo. Essa cena deprimível talvez não seja apenas a minha, mas foi simplesmente a que Deus criou.

- Estevão Eduardo -

domingo, 4 de abril de 2010

Viva

Ele possivelmente deveria ter ligado entre as três ou quatro da manhã, mas eu não entendo o porquê da indiferença, e acima de tudo eu não entendo o que lhe fazia querer gritar exatamente quando eu lhe dava uma bronca no meio de todos, ou quando talvez eu lhe chamava no canto e contava como era aterrador está dizendo coisas tão feias no meio de todos. O motivo foi que talvez ele não quis mais olhar pra trás em busca de tudo que tinha planejado somente pra ele e quem sabe tudo que desenhou e escreveu em seu caderno de pensamentos sejam reflexos de uma mudança, que aos meus olhos não passava de uma mera fase ruim. Certa vez conversamos a respeito de como tudo que fazíamos e falávamos era tão nojento aos olhos de certas pessoas e diante daquelas palavras soltas e de cunho odioso, você soltou um leve suspiro que pra mim foi um espelho ou talvez uma forma cansada de dizer que "tanto faz, afinal não estamos vivos?". Seu quarto bagunçado já era indício de que algo nele - ou seria em mim? - estava errado. Quando eu encontrei você na parada eu pensei em tudo que havia ocorrido, me chegou à cabeça a lembrança daquele dia em que você simplesmente ignorou o fato de que já havia quatro meses que não nos víamos. Eu quis parar o ônibus e lhe dizer um simples "oi". Você parecia alegre demais quando estava pra sair pra qualquer lugar que não fosse seu quarto, mas depois porém as coisas foram mudando e essa alegria transformou-se em mera distração. O cinema estava marcado para às quatro da tarde daquele dia de agosto tão cheio de ventos, mas ela lhe disse que não poderia ir ao encontro porque haveria provas na próxima semana pra ela, ou seja, tudo estava acabado. Foi engraçado o modo como nesse dia você resolveu dá um jeito em sua tristeza alheia e observar o quão ridículo as pessoas podem ser, sentado em um banco e olhando à todos que sua vida não parecia tão vazia - ou quem sabe fosse? Enfim quando você me contou a respeito de tudo que havia acontecido eu ri tão alto que você quis se esconder como ninguém além de você mesmo. Afinal porque logo eu teria sido o escolhido pra rir de suas desventuras? Não, isso bastava pra perceber que tudo que eu escrevera naquele seu caderno, você nem ao menos tinha notado, ou se dado ao luxo de abri-lo na última página, assim como você havia feito no meu. Mas deixemos pra lá detalhes tão inoportunos como a vontade que você teve de me matar naquele dia. Na semana passada você disse que não aguentava mais seus pais, seria verdade ou apenas uma desculpa pra puxar assunto diante daquele tédio que você criou pra todos que lhe rodeavam? Eu sei que eles não são as melhores pessoas, mas pais são pais, são todos iguais, querem nos controlar e pôr fim a nossa vida amorosa e pessoal, então tanto faz se você já não os aguentava, pra mim você continuava aquela criança que pedia um abraço sempre que achava que ia morrer por um simples machucado no coração. Talvez fosse o homem certo pra mudar a vida de muita gente mas preferiu ficar de ligar entre às três e quatro da manhã de um domingo insosso, pra mim. Eu sei que depois de todos aqueles remédios que você começara a tomar, me ligar àquela hora era a ideia mais tola e impossível de acontecer, mas com um pequeno atraso de quinze minutos - verifica-se quatro e quinze da manhã - você me liga pra dizer o quão triste está em observar as estrelas no céu e notar a diferença que é voar e pousar sobre o céu. Durante longos sessenta minutos, e o sol já dava sua graça mesmo que indiscretamente, você narrou tudo que sentia em relação à sua família, seus amigos e sobre Deus. Disse que não aguentava mais certas coisas, ideias e pessoas e que talvez fosse a hora certa pra fugir e tentar construir uma nova vida longe de tanta gente querendo decidir sua vida por você. Depois de uma longa prosa e já cansado de tanto chorar do outro lado e narrar a vida estafante enfim você me pergunta o que eu acho. Não pude responder tudo que queria, afinal aquela não era a hora e nem o meio certo, mas de um modo seco e rápido respondi um simples: "tanto faz, afinal não estamos vivos?".

- Estevão Eduardo -