sábado, 7 de agosto de 2010

Toque

Ela pôs a mão sobre aquele corpo frio, liso. Deslizou os dedos por entre as curvas de sua cintura, deixando escorrer por entre as mãos o pecado. Aquele corpo nu em frente ao espelho, sentindo cada pedaço do seu ventre, o cabelo por cima dos ombros, deslizando pelas costas, sendo conduzido pelo vento. Ela colocou as mãos no seios e os apertou forte, apalpou-os como nunca o fizera, sentiu aos poucos eles enrijecerem, deixou que o arrepio tomasse conta de seus braços, e sentindo a brisa fria da manhã entrar pela janela, ela deixou estar, só por esse momento. Deixou sentir o corpo esquentar. Levantou as mãos até o ombro e as foi posicionando na nuca, retirando cada fio de cabelo que pousava nas costas, sem pressa, pela primeira vez, sem pressa. E suspendeu o cabelo encaracolado como num ato de libertação, revelando agora seu local mais precioso, a nuca, que nesse momento sentira o frio matutino. E ela soltou um suspiro em forma de gozo, e em seus olhos entreabertos nada se notava, mas em sua boca um sorriso desprendera-se, e assim ficara até abrir os olhos novamente e se deparar com sua imagem em frente ao espelho. Ela olhou em seus próprios olhos, parada, segurando os cabelos. Retornou as mãos aos ombros e deixou-as ir caindo, abrindo espaço em cada curva daquele corpo frio, que se ouriçava a cada toque. E ela pôs as mãos sobre o ventre, deixou-as ali, como se estivesse sentindo um novo ser em seu interior, mas nada batia lá dentro, nada estava a morar naquele ventre, e só por um momento sua mente se desviou do errado. Foi abaixando as mãos sobre o ventre e deslizando-as até suas coxas, parou por um momento nesse ponto, mas seu corpo queria mais, seu corpo gritava e fervia por dentro, e seus dedos foram aos poucos abrindo caminhos até sua virilha e permanecendo por ali até o momento de, enfim, chegar ao seu destino. E ela pôs cada dedo, aos poucos, sem pressa, por cima de cada fenda, cada espaço que se abria dentro de si mesma, e com os olhos fechados ela sentia cada parte, até o momento de poder adentrar, por completo, em seu próprio caminho. Uma mão só sobre sua cria, a outra sobre os seios, alternando por cima de cada um, acariciando levemente e descendo para o ventre para, por fim, se encontrar com a outra mão. E seu corpo já não aguentava mais ficar em pé, de tanto que ele fervia, se retorcia, e ela caiu por completo no chão, mas não parou. Com a cabeça encostada no pé da cama e com suas pernas suspensas em frente ao espelho, ela continuou até perceber que já descobrira mais de si mesma do que qualquer outra pessoa poderia descobrir, ela pôde desfrutar de seu próprio amor, do seu próprio encanto, sem vergonhas, sem luzes apagadas, sem falsas promessas. Era ela e ela própria, e por fim, descansou.

- Estevão Eduardo -

domingo, 1 de agosto de 2010

Mais uma .

Eu parei. Soltei um leve suspiro que tomou todo o meu corpo. Minha cabeça doía. Meus braços soltos, meu corpo leve, tremendo a cada toque que o vento, daqueles do mês de Julho, me tocava à pele. Não arrepiava porque nunca fui propício a arrepios, mesmo que acompanhados de grandes surpresas. Mas não era uma surpresa que me vinha a mente naquele exato momento. Também não diria que houvesse sido uma revelação, até porque, já me havia sido revelado e esse era um dos meus "maus", a maldita revelação de cada dia. Mas naquele momento percebi que não me foi difícil acordar. Há dias que vinha numa dificuldade incrível de acordar, não porque era difícil de fazê-lo, mas sim, porque era deprimente. Cada dia eu abria os olhos e nascia novamente, mas aí a maldita revelação me vinha de surdina à mente, se enfiando de guela abaixo, recordando cada lembrança amarga, coisas que não se têm quem acaba de nascer. Mas nesse dia, nesse dia, eu já não havia deplorado ter que encarar a verdade, talvez porque no dia anterior eu havia falado o que se prendia na minha garganta. Vomitado minhas desconfianças e torturas à respeito de algo que nunca se viu, nem ouviu, apenas histórias. E eu ali, sentindo a brisa do vento forte, que já não era mais brisa, tentando me segurar nas paredes de minha própria segurança, apenas para me manter firme, apenas para dizer a mim mesmo que eu já havia desfalecido e que agora, de uma forma ou de outra, já não precisava deplorar ter que acordar, porque de certa forma, e isso é o mais irônico, aquela situação já não me doía. Já havia saído de mim. E eu, eu passei a falar pra mim mesmo, agora ouvindo minha própria voz, não a do pensamento, que só ouve a si mesma, mas a voz que saía da minha garganta e pulava pra fora da boca, e que se fazia chegar até os ouvidos, como agora uma nova revelação. Mas que não me afligia. Respirar tem sido uma das minhas maiores obras primas, talvez minha maior superação, pois aos poucos venho desistindo de entender os desígnios não só de deus, mas do ser humano, e respirar é o que me basta. Olhar pro mar, sem ter que me importar em sabê-lo quem o criou, ou se pessoas, no mais alto clímax de sua paixão, se amaram naquelas areias, fazendo-me recordar algo de que nunca tive a oportunidade de viver. Respirar é definitivamente minha arte suprema, sem ela não seria o artista que sou, e quando pará-lo talvez, assim quando o destino bem lhe entender, estarei destinado a ser lembrado. Lembrado como o cansado de pensar, de nunca arriscar, de parar, saltar leves suspiros, exceto os da minha arte, e assim apenas existir.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Solidão

Todos nós precisamos da nossa dose diária de solidão, afinal sem ela não buscaríamos, por entre as ruelas da vida, algo que a complemente. Às vezes nos jogamos nesse mar fundo da solidão porque queremos desesperadamente que alguém entre nessa água fria pra nos salvar. Sentimos a necessidade de estar sempre prestes a ser salvos por algo, ou alguém, talvez seja por isso que a religião seja uma das melhores formas de acabar com a solidão, pelo menos aparentemente. Deus é do tamanho do vazio que cada um tem, mas ninguém sabe o tamanho do vazio que nos corrompe, até porque também não sabemos a largura de Deus, e se as suas medidas são suficientes o bastante para fechar o vão da vida que pertence a cada um. Porque nossa vida tem o tamanho que cada um lhe proporciona. E cabe a nós decidirmos se Deus será suficiente pra suprir a solidão que é ser humano, ou se teremos que recorrer a nós mesmos em busca de algo que feche o ciclo do estar só.
- Estevão Eduardo -

terça-feira, 27 de julho de 2010

Meu próximo

Porque qualquer um pode notar
Ao me ver passando na rua
Ou apenas lendo um livro qualquer
Sentado num banco esperando a vida passar

Qualquer um pode ver nos meus olhos
Vendo-me rir de pequenas palhaçadas
Ou olhando fundo nos olhos de qualquer rapaz
Ou apenas deixando transparecer essa minha vontade de viver

Uma senhora muito velha
Ou um senhor muito respeitoso
Todos podem notar que eu vivo um dia após o outro
Sempre numa réplica mal feita do dia anterior

E eu posso ser essa pequena areia
Que Deus, por uma desordem do universo, quis criar
Esperando a felicidade que só existe nos filmes
Ou, quem sabe, só olhando pro próximo que chegar.

- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A viagem.

Às quatro da tarde em ponto ele chegava na biblioteca, uma das poucas que haviam sobrado na cidade após tantas transformações naquela vila. Não era uma biblioteca muito grande, mas continha um grande acervo com inúmeras publicações, algumas que datavam de épocas tão distantes e outras que acabavam de ser lançadas clandestinamente. Os livros amontoavam-se em grandes prateleiras ao longo da grande sala, e eram divididos em classes pela bibliotecária Lúcia, que trabalhava lá há dez anos e por ordem de trabalho havia aprendido onde se encontrava cada pequeno livro e cada exemplar. Sua memória era melhor do que o novo computador que acabara de chegar por ordem do governo, ela sabia de longe o nome de todos os livros que lá estavam e por mais improvável que seja, ela já havia lido boa parte de todos os exemplares. Júlio tomara o hábito de ir sempre à biblioteca após seu pai ter viajado sem previsão de volta, pelo menos pelo que sua mãe dissera, desde que ele havia completado oito anos. Como na casa não havia sobrado nada de mais interessante a não ser contar as horas no grande relógio instalado na parede, Júlio decidiu visitar a biblioteca. Sua mãe não se opôs a ideia do filho, na verdade sua mãe nunca se opusera em nada, dependera sempre do seu marido, ele que era responsável por dar a última palavra, e com a viajem, sem volta, feita por ele, ficou mais difícil sobreviver às suas próprias decisões. A princípio as visitas não foram muitas, mas ao longo das semanas Júlio foi tomando gosto não só pela leitura que lá encontrava, mas pelo local em si, pelo silêncio absoluto, pela paz instalada à duras penas por Lúcia, a simpatia da bibliotecária que sempre o ajudava em suas leituras, por mais difíceis que pudessem parecer. E assim as visitas à biblioteca tornaram-se frequentes, ao longo de dois anos Júlio já havia lido cerca de cem livros, de autores diferentes, de temas diferentes, de abordagens diferentes. Era um mundo fantástico que ele criara, era o seu mundo. Todas as tardes ele enfiava-se entre as prateleiras da biblioteca, sentado nos corredores apertados e punha-se a ler desesperadamente, assim como quem mata a fome de um dia todo. O tempo era seu maior inimigo, várias vezes começava a ler e não se dava conta de que a tarde já descera montanha abaixo, notava apenas porque da janela da biblioteca podia ver a lua dando suas primeiras graças. O ambiente mágico não só do local, mas dos livros, que o transportavam à diferentes locais, atraía Júlio de uma forma hipnotizadora. Lá ele aprendeu idiomas que nunca antes havia visto e mesmo que não tenha terminado seus estudos tinha um conhecimento básico de tudo o que fosse possível. Foi lá que ele desenvolveu uma amizade com Lúcia, por quem nutrira um sentimento maternal e sentia-se mais à vontade do que com a própria mãe. Lá ele se deparou com seu primeiro amor, e lá mesmo aprendeu que os amores são flores que a gente rega, mas que mais dias menos dia sempre murcham. Entre aqueles livros ele aprendeu que Deus existe, mas que vive em outro planeta que não seja a Terra, e finalmente descobriu que não existe bem ou mal, e sim humanos, e os humanos são o bem e o mal de cada um. Ao se deparar com um livro ele lia o título, não preocupava-se com o autor pois não achava necessário, analisava a capa, a contra-capa, e por fim folheava-o perto do nariz para sentir o cheiro que o livro exalava, o cheiro que aquela estória trazia. E assim, Júlio punha-se a imaginar as tantas pessoas que tinham pego aquele mesmo livro que ele tinha nas mãos, as tantas pessoas que o leram, que choraram e acompanharam a aventuras e desventuras de cada personagem. Pra Júlio os personagens principais não eram os que estavam no livro, mas os que tinham lido o livro. Como cada um tinha se dado conta de quão importante, ou quão idiota, era aquela estória. E ao final de cada última página ele folheava com seus dedos tortos aquelas folhas cobertas de história, páginas que datavam anos que pra ele não existiram, e Júlio vivia um vida que não era a dele, uma estória que não lhe possuía, e isso o encantava, pois a paixão do leitor é não ser ele próprio, é se esconder atrás de uma estória que não seja a sua. Aos poucos arriscava-se à escrever alguns pequenos versos, mas escondia-os em seus bolsos. Mas de súbito veio a ideia de deixar escrito ao final de cada livro uma impressão sua sobre aquela estória, ou um verso qualquer que contivesse a emoção do texto ali escrito. Sua vontade era deixar sua visão, mesmo que pequena, em cada livro. E o fazia sempre, deixando algum pequeno verso na última página para que Lúcia não pudesse perceber, e após escrito sua impressão, deixava suas iniciais: J.L. Sua vontade era que em algum futuro distante um leitor qualquer pudesse ler aquela impressão rápida, porém eficaz. Certa vez, e apenas dessa vez, Júlio marcou um livro antes mesmo de lê-lo, o nome do livro era "As virgens suicidas". Ao pegar o exemplar e folheá-lo, algo chamou sua atenção, um cheiro forte de baunilha saía daquelas páginas velhas, um aroma forte de um doce tão fresco e tão gostoso. Isso perturbou-o de uma forma que nenhum outro livro o havia perturbado. Pôs-se então a pegar um lápis e escrever em letras miúdas atrás da última página: "Baunilha. Por que há livros que cheiram a baunilha e outros que cheiram à vida? J.L." Júlio não nunca acabou de ler o livro, fosse pelas circunstâncias, fosse porque nunca mais retornara à biblioteca. Ele decidira ir atrás do seu pai, mas o cheiro de baunilha ainda continuava em seu nariz da mesma forma quando cheirou aquele livro que encontrou tão apertado, tão solitário entre tantos outros.

- Estevão Eduardo -

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Momentos efêmeros.

Meu nojo é o meu ser. Essa porra que nunca chega. Essas palavras soltas que não voltam. Esses olhares sujos de sol. O mar cheirando a mel. O céu coberto de cinza, escrevendo a chuva por cima das nossas cabeças velhas de tanto pensar. E eu estou pouco me fodendo pra tudo isso, eu estou ajudando a mim mesmo, sendo egoísta o suficiente pra ser meu próprio terapeuta. Porque eu não sou eterno, eu não sou o sol se pondo atrás das montanhas, eu sou a nuvem que chora, o passado que nunca passa, eu sou um nada, dentro de um tudo. E se eu escrevo é porque eu não posso falar do que eu sinto, e se eu sinto é porque algo está errado comigo. Deus deveria ter me feito homem o suficiente apenas para sê-lo. Mas agora o tudo é tarde, apenas as horas se passam, mas as dores são ilusões, são coisas da nossa cabeça, são músicas que tocam nos nossos ouvidos, mesmo que não haja quem as cante. Eu sou apenas porque existo, e isso me conforta, existir me conforta, respirar a vida me dói. Só. Mas foda-se, e daí?

- Estevão Eduardo -

O banco detrás

Sua mãe sempre o fazia ir no banco detrás, mesmo ele já crescido, mas não era algo que lhe incomodava. De acordo com ela era melhor que seu filho fosse no banco detrás devido aos acidentes, algo que ela tinha um pavor imenso, e se aprendera a dirigir foi porque a necessidade lhe impôs. Pensava sempre nos imprevistos, nos possíveis acontecimentos que poderiam ocorrer na estrada, e se alguma vez, Deus os livre, mas ocorresse algo fatal, ao menos seu filho poderia sair ileso, já que o banco detrás, ao seu entendimento, trazia certa segurança. Sempre que saía de qualquer local checava se tudo estava absolutamente certo e no seu devido lugar, cinto, cadeira, se os freios e a embreagem estavam funcionando, para que só depois de todo esse ritual pudesse dar a partida no carro e seguir seu caminho, mas se seu filho estivesse com ela no mesmo carro a atenção era redobrada. Sua mãe sempre lhe chamara a atenção dessa excessiva preocupação, não que fosse ruim, mas que talvez um dia pudesse até endoidá-la, em sua mente passava a impressão de que sua querida filha poderia ter transtorno obsessivo compulsivo e que a saúde mental de seu neto poderia até estar sendo prejudicada, já que o menino, com 15 anos, estava na fase de construção da personalidade mental. Mas Cláudia não ligava para os comentários da mãe, sabia que aquilo poderia ser mera preocupação de mães, assim como tinha com seu filho. Ao partir em viagem, Cláudia sempre prestava atenção nos mínimos detalhes, sempre estava alerta a qualquer acontecimento no trânsito e ficava extremamente irritada quando via que alguém não respeitava à sinalização, os pedestres e as leis, sempre achava que esses descuidos é que poderiam causar sérios transtornos à outras pessoas e, oh Deus, à ela. De minutos em minutos sempre olhava pelo retrovisor para checar se estava tudo bem com seu filho, mas o menino parecia nunca ter expressão, era algo que preocupava Cláudia, com o rosto grudado na janela fechada do carro, o menino vislumbrava a paisagem, seja ela qual fosse. Dentro de seus olhos as imagens da cidade pareciam-lhes intocáveis, virgens, nunca conhecidas. As pessoas transitando de um lado para o outro sempre sem rumo, os animais sempre pendurados em coleiras, e quando não presos, soltos demais no meio da rua, abandonados, animais e pessoas. Cláudia até tentara entender um pouco o que se passava na mente de Lucas, mas desistira aos poucos, ao final constatara que poderia ser aquelas inúmeras fases adolescentes. Ela preocupava-se apenas com a saúde física do filho, a mental não era algo tão grave, afinal para ela, ele não tinha nada, e realmente talvez ele não tivesse nada. Certo dia encontrara Lucas no banheiro desmaiado, ficara tão desesperada que não tivera coragem para levá-lo de carro até o hospital, teve de pedir a ajuda de um vizinho para que ele conduzisse o carro até o hospital mais próximo. Ainda assim Cláudia, mesmo desesperada com a situação do seu filho, que não aparentava nenhum corte ou pancada, quis checar se o carro estava em plenas condições de transportá-los, e levou o garoto no banco detrás. Depois desse dia, Cláudia obrigou seu filho a tomar banho sempre de porta aberta, o que constrangia o garoto certas vezes. O diagnóstico não havia sido algo tão grave, uma baixa de pressão, algo que o garoto herdara do pai. Ela nunca fizera uma viagem longa de carro, nem sozinha, muito menos com seu filho, e nem permitia que o garoto as fizesse, a não ser que ela soubesse quem o levaria e as condições nas quais ele fosse. Era um cuidado excessivo não só consigo, mas também com Lucas. Todos a criticavam, mesmo não sendo uma crítica abusiva, de que ela deveria deixá-lo mais livre, e ela própria livrar-se dessas "paranoias". Talvez fosse cuidado excessivo realmente, mas é que Cláudia sabia, ela sentia no fundo de sua alma que não era algo sem explicação que a fizera agir de tal modo, ela bem sabia que tinha de proteger-se para que algo de terrível não lhe afligisse, afinal se ela morresse, quem cuidaria de Lucas? Quem se preocuparia com sua saúde física? Quem estaria lá para socorrê-lo se sua pressão baixasse novamente? Quem o lembraria de tomar seus remédios nas horas exatas? Ela era a parte principal da vida dele, e ela sabia-o. Mas tomara cuidado com ele também porque sem ele, ela não era nada. Cláudia já havia perdido seu marido pra morte, devido à uma complicação pós cirúrgica, e agora naquela vida, Cláudia só tinha seu filho, e Lucas só tinha ela, era um convivência recíproca. Ela não se preocupava tanto com a saúde mental de seu filho porque só a presença dele a reconfortava, só o fato de ele estar ali, no banco detrás, a deixava surpresa e cheia de vida, e era essa vida que ela não queria perder. Cláudia era cuidadosa porque sabia o valor da vida, mesmo sem saber que nem tudo é eterno.

- Estevão Eduardo -

domingo, 11 de julho de 2010

Aos poucos

Porque eu sei a verdade e ela me machuca. Preferia não sabê-la, escondê-la, enterrá-la junto com meus medos. Ela me dói, me sangra pelos poros. Gostaria de estar e ser néscio, assim como todos os outros, renunciar ao certo, não aprender com o errado. Porque assim como a vida é vazia os sonhos também o são, e dá-los uma explicação é retirar o seu brilho, o brilho da mentira, do estar, do ser. Porque minha vida é grande o bastante pra explodir, mas meus sentimentos são tão pequenos, tão menores quanto os queria. E meus medos, todos eles, me doem. A realidade é fria, dura e eu não estou pronto pra nascer, não estou pra renunciar, pra explodir de amor, pra dar início a algo que não me foi dado. E nessa hora inconjunta meus pensamentos se desfazem, correm pra lugar nenhum, sem aviso de chegada, e essa insegurança, essa incerteza me faz morrer aos poucos, desistir aos poucos, viver aos poucos. Migalhas são o que sobram, somente o resto da vida do que poderia ter sido, mas não foi. E eu não canto, não canto porque não amo, pois o amor não me foi dado, o ardor da paixão não me foi entregue, e eu contemplo a tristeza da solidão por não amar, por não ser amado. Talvez amanhã eu anule a verdade, faça a força necessária pra esquecê-la, durma o bastante pra não acordar, junte as horas desconexas e jogue-as no ar. Pois a vida é o vazio maior que alguém pode receber e preenchê-la não é nossa comissão, aceitá-la é a nossa verdade, engoli-la, expeli-la quem sabe. E eu guardo nos olhos essas incertezas, choro para poder entregá-las ao chão, e não grito de dor, pois já não a sinto. E a felicidade passa ao meu lado, dando adeus, cumprimentado-me, olhando em meus olhos, sorrindo um sorriso maroto, traindo-me, mas eu a deixo, ela passa, olha de longe, porque a verdade dói, meus sonhos me fazem querer abraçar a felicidade, mas a verdade não deixa, passa. Tudo isso está guardado, esperando a hora, mas quando será a hora da verdade? Só a felicidade sabe.

- Estevão Eduardo -

Clichês existem

Durante quatro anos eu fui seu animal de estimação
Seu pior amigo
Seu menor amante.

Durante longos quatro anos eu fui seu único confidente
Sua menor paixão
Seu indevido amor.

Durante todos esses anos nunca lhe neguei um único olhar
Sempre pus esperança nesse meu plano inefável
Nunca consegui, nem por um momento, te esquecer.

Durante esses efêmeros quatros anos eu esperei pacientemente
Eu te encontrei em lugares estranhos
Nunca sonhei, dormindo, com você.

Nesses quatro anos eu aprendi inúmeras coisas
Aprendi que o destino existe, mas que a vontade é que faz o momento
Descobri que Deus não nos quer juntos.

Descobri, nesses quatro anos
Que o tempo pode passar, mas que, às vezes, o amor é eterno
Que você é terrivelmente engraçado, quando assim o quer.

Em quatro anos eu já troquei seu nome duas vezes
Esperei o inesperado acontecer
Coloquei em suas mãos a nossa sorte.

Nesses imbecis quatro anos eu fui atrás de você em lugares inimagináveis
Eu gritei seu nome nas ruas
Mas fiquei mudo em frente à sua face.

As horas desses anos correram pra você
Caminharam pra mim
Não fez efeito no real.

Nesse tempo você foi meu sol
Minha respiração quando me faltava
Meu único motivo de ter caído do altar.

E nesses quatro anos eu te dei todos os motivos pra ficares
Dei-te o cetro, a coroa
O trono para morares ao meu lado, mesmo que sem reino.

Eu mudei nesses quatro anos
Eu amei outras pessoas
Eu quis outras pessoas.

Mas dentro desses pequenos, mas significativos, quatro anos
Eu descobri que o tempo pode passar o tempo que lhe convier
Mas pode-se passar mais quatros anos, eu sempre estarei aqui.

- Estevão Eduardo -

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Minha mulher

Deus, como eu a amo.
Se ela tão soubesse que eu fiz cem versos sem rimas e ela ainda estaria me negando
Se tão somente ela soubesse que desenhei seu rosto em folhas pra não a esquecer
Ou que guardei na memória, mesmo fraca, o cheiro do seu perfume tão doce quanto o mel
Tão leve quanto o ar, se ela soubesse que eu não sei como chegar em sua casa
Mas que gostaria de poder estar sentado em seu colo desfrutando dos seus lábios
Que chorei lágrimas de amor e que as enxuguei tão triste, tão só, tão esperançoso
Deus, se assim o Senhor quiser, e assim tenho certeza
Fazes com aquela menina, tão inocente, mas tão bonita em seu andar, me note
Traga-me uma flor, sua melhor flor, para que eu possa cheirá-la toda manhã
Sentir a brisa dos cachos de seu cabelo sobre meu peito
Minhas mãos por cima da sua cintura tão fina, tão mulher com ar de menina
E que ela perdoe-me por estar assim, tão firme, tão duro dentro de mim
Que ela cante no meu ouvido sua mais sinceras aventuras
E que eu, tão velho, tão cansado, possa realizar todas elas
E que pegue na minha mão, abrace-me contra seu seio farto e me faça homem
Assim como todos os outros com quem já estive.

- Estevão Eduardo -