Às quatro da tarde em ponto ele chegava na biblioteca, uma das poucas que haviam sobrado na cidade após tantas transformações naquela vila. Não era uma biblioteca muito grande, mas continha um grande acervo com inúmeras publicações, algumas que datavam de épocas tão distantes e outras que acabavam de ser lançadas clandestinamente. Os livros amontoavam-se em grandes prateleiras ao longo da grande sala, e eram divididos em classes pela bibliotecária Lúcia, que trabalhava lá há dez anos e por ordem de trabalho havia aprendido onde se encontrava cada pequeno livro e cada exemplar. Sua memória era melhor do que o novo computador que acabara de chegar por ordem do governo, ela sabia de longe o nome de todos os livros que lá estavam e por mais improvável que seja, ela já havia lido boa parte de todos os exemplares. Júlio tomara o hábito de ir sempre à biblioteca após seu pai ter viajado sem previsão de volta, pelo menos pelo que sua mãe dissera, desde que ele havia completado oito anos. Como na casa não havia sobrado nada de mais interessante a não ser contar as horas no grande relógio instalado na parede, Júlio decidiu visitar a biblioteca. Sua mãe não se opôs a ideia do filho, na verdade sua mãe nunca se opusera em nada, dependera sempre do seu marido, ele que era responsável por dar a última palavra, e com a viajem, sem volta, feita por ele, ficou mais difícil sobreviver às suas próprias decisões. A princípio as visitas não foram muitas, mas ao longo das semanas Júlio foi tomando gosto não só pela leitura que lá encontrava, mas pelo local em si, pelo silêncio absoluto, pela paz instalada à duras penas por Lúcia, a simpatia da bibliotecária que sempre o ajudava em suas leituras, por mais difíceis que pudessem parecer. E assim as visitas à biblioteca tornaram-se frequentes, ao longo de dois anos Júlio já havia lido cerca de cem livros, de autores diferentes, de temas diferentes, de abordagens diferentes. Era um mundo fantástico que ele criara, era o seu mundo. Todas as tardes ele enfiava-se entre as prateleiras da biblioteca, sentado nos corredores apertados e punha-se a ler desesperadamente, assim como quem mata a fome de um dia todo. O tempo era seu maior inimigo, várias vezes começava a ler e não se dava conta de que a tarde já descera montanha abaixo, notava apenas porque da janela da biblioteca podia ver a lua dando suas primeiras graças. O ambiente mágico não só do local, mas dos livros, que o transportavam à diferentes locais, atraía Júlio de uma forma hipnotizadora. Lá ele aprendeu idiomas que nunca antes havia visto e mesmo que não tenha terminado seus estudos tinha um conhecimento básico de tudo o que fosse possível. Foi lá que ele desenvolveu uma amizade com Lúcia, por quem nutrira um sentimento maternal e sentia-se mais à vontade do que com a própria mãe. Lá ele se deparou com seu primeiro amor, e lá mesmo aprendeu que os amores são flores que a gente rega, mas que mais dias menos dia sempre murcham. Entre aqueles livros ele aprendeu que Deus existe, mas que vive em outro planeta que não seja a Terra, e finalmente descobriu que não existe bem ou mal, e sim humanos, e os humanos são o bem e o mal de cada um. Ao se deparar com um livro ele lia o título, não preocupava-se com o autor pois não achava necessário, analisava a capa, a contra-capa, e por fim folheava-o perto do nariz para sentir o cheiro que o livro exalava, o cheiro que aquela estória trazia. E assim, Júlio punha-se a imaginar as tantas pessoas que tinham pego aquele mesmo livro que ele tinha nas mãos, as tantas pessoas que o leram, que choraram e acompanharam a aventuras e desventuras de cada personagem. Pra Júlio os personagens principais não eram os que estavam no livro, mas os que tinham lido o livro. Como cada um tinha se dado conta de quão importante, ou quão idiota, era aquela estória. E ao final de cada última página ele folheava com seus dedos tortos aquelas folhas cobertas de história, páginas que datavam anos que pra ele não existiram, e Júlio vivia um vida que não era a dele, uma estória que não lhe possuía, e isso o encantava, pois a paixão do leitor é não ser ele próprio, é se esconder atrás de uma estória que não seja a sua. Aos poucos arriscava-se à escrever alguns pequenos versos, mas escondia-os em seus bolsos. Mas de súbito veio a ideia de deixar escrito ao final de cada livro uma impressão sua sobre aquela estória, ou um verso qualquer que contivesse a emoção do texto ali escrito. Sua vontade era deixar sua visão, mesmo que pequena, em cada livro. E o fazia sempre, deixando algum pequeno verso na última página para que Lúcia não pudesse perceber, e após escrito sua impressão, deixava suas iniciais: J.L. Sua vontade era que em algum futuro distante um leitor qualquer pudesse ler aquela impressão rápida, porém eficaz. Certa vez, e apenas dessa vez, Júlio marcou um livro antes mesmo de lê-lo, o nome do livro era "As virgens suicidas". Ao pegar o exemplar e folheá-lo, algo chamou sua atenção, um cheiro forte de baunilha saía daquelas páginas velhas, um aroma forte de um doce tão fresco e tão gostoso. Isso perturbou-o de uma forma que nenhum outro livro o havia perturbado. Pôs-se então a pegar um lápis e escrever em letras miúdas atrás da última página: "Baunilha. Por que há livros que cheiram a baunilha e outros que cheiram à vida? J.L." Júlio não nunca acabou de ler o livro, fosse pelas circunstâncias, fosse porque nunca mais retornara à biblioteca. Ele decidira ir atrás do seu pai, mas o cheiro de baunilha ainda continuava em seu nariz da mesma forma quando cheirou aquele livro que encontrou tão apertado, tão solitário entre tantos outros.
- Estevão Eduardo -
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