"Estava perdido", foi o que constatei ao vê-lo passar três vezes seguidas pela mesma rua. Algo em sua face também deixava nítido seu incômodo em não reconhecer o lugar, talvez uma mistura de medo, de tristeza. Do alto do prédio eu observava calado o ocorrido. Em sua primeira passada pela rua logo observei-o, um garoto bonito, alto, vestia-se bem, pensei comigo mesmo: "qual a distância entre eu e ele?". Deveria ter sido o amor de muitas pessoas, deveria ter amado tantas outras, mas ao passar pela rua era nítida sua indiferença ao lugar. Senti uma ponta de saudade ao vê-lo indo embora. Pela segunda vez ao passar notei que havia algo errado. Um espanto contido pintava-se em seus olhos. Pensei que talvez o destino tivesse sendo bondoso o bastante em conceder-me a visão de um espelho duas vezes seguidas. Pela terceira vez tive a absoluta certeza de que estava perdido, só, vulnerável, sob o meu olhar. A rua deserta, as lojas fechadas, aquele ar de antiguidade em que vivia a rua deixava seu corpo mais parte do local. Ninguém passava para ajudá-lo, nenhuma alma caridosa prestava-se ao favor de ir ao seu encontro oferecê-lo o caminho de volta. Ele olhava para todos os lados, esperava ainda que alguém gritasse o seu nome, talvez em sua cabeça perguntava-se: "como vim parar aqui?". Numa tentativa frustrada de acalmar-se, sentou-se num banco de frente à loja de um velho amigo do meu avô. Tentou conter o medo, era sensível vê-lo abraçar o nada. Pensei em ajudá-lo, afinal teria feito isso logo na segunda vez que percebi que ele estava perdido, mas não me conti em ver aquele garoto vagando. Pela primeira vez não quis ajudar alguém, não fiz sequer um esforço para tentar mostrá-lo as ruas seguintes, nem ao menos mexi um pé ao seu encontro. Observando-o por mais um tempo vi que ele estava chorando. Com a cabeça encostada nos joelhos, as pernas dobradas encima do banco, as mãos abraçando as pernas. Eu senti suas lágrimas na minha boca, o amargo dos seus olhos no meu ser. E de repente, num acesso de alegria contida ainda não percebida, notei que ele era meu, ali sentado, tão vulnerável, tão inocente, tão sozinho. Apenas eu poderia mostrá-lo a saída, a volta. Dependia de mim se queria soltá-lo ou apenas continuar guardando-o por mais tempo. Eu nunca havia me sentido tão próximo de alguém assim. Eu nunca tinha descoberto tanto a respeito de alguém que não fosse eu próprio. E ali estava ele, um espelho refletindo o meu maior sentimento. O que fazer de mim? O que fazer dele? Estava perdido.
- Estevão Eduardo -
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