domingo, 27 de junho de 2010

Na varanda

Meu copo de leite gelado sobre a mesa. Meus sonhos presos na cabeça, lá fora uma chuva forte molhava e parecia derreter o chão. Escorria pela calçada até entrar numa vala e de lá seguia o caminho até o nada. Chuva, pequenas e solitárias gotas que unidas podem destruir todo o mundo, que correm em direção ao nada, que secam, que fervem e voltam ao céu. Viram nuvens pra depois descer, correr e perseguir o mesmo caminho em diferentes lugares. Meu rosto sente o frio que a chuva traz e meu corpo quente aos poucos cede à pressão. Meus sonhos secos parecem agora querer chuver. Da janela do meu quarto eu vejo a chuva molhar o telhado das outras casas, vejo ela molhar as roupas estendidas no varal e estragar o trabalho das lavadeiras, do meu quarto eu vejo a chuva cumprir seu sentido. Vejo minha vida perder o rumo e aos poucos querer escorrer para o nada. Na minha cama, o único espaço quente do meu quadrado frio, eu deito e abraço meu corpo tentando fingir ter alguém ali para me ajudar a secar. Na varanda eu vejo as pessoas serem molhadas pela chuva, algumas parecem estar apavoradas ao serem tocadas e invadidas pelas pequenas gotas, outras parecem não se interessar e até gostarem de estar ali, ficam paradas em pé no meio da rua esperando a chuva passar. Eu olho e toco a chuva com as pontas do dedo, estendo meu braço até onde as gotas podem me tocar, mas não me invadir. É gelada, fria, solitária, as gotas sozinhas parecem querer gelar, juntas parecem querer destruir. Penso em voltar pra cama quente, tomar meu copo de leite gelado e dormir, ou pelo menos tentar, mas prefiro ficar na varanda, esperar a chuvar passar, ver o que acontece com as pessoas em pé diante da rua molhada, as que se apavoram com os céus, os telhados marrons e o céu cinza. Prefiro sentir o frio no rosto e a àgua tocando as pontas dos dedos. Prefiro ficar ali, parado, observando. Prefiro molhar e deixar escorrer para o nada até voltar ao céu novamente.

- Estevão Eduardo -

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