segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cena doméstica

Pra mim seria absolutamente normal se ela de sobressalto metesse a mão na minha cara, ou como sempre gostou de fazer um drama e chamar a atenção para suas necessidades e problemas incuráveis, talvez ela começasse a chorar e colocasse a mão sobre o peito como um prenúncio lógico de um desastre familiar. Já ele ficaria imóvel, ou se por alguma surpresa do destino começasse a palestrar o fato de sermos uma família pseudo-feliz, ficaria completo por saber que tudo que falou, pra todos, mas somente pra ele de certa forma fazia algum sentido. Por outro lado a única que eu sempre quis que ficasse do meu lado, com quem eu gostaria de poder me abrir, contar segredos e desejos e partilhar o fato de termos nascido de uma mesma fonte para torná-la não apenas um membro familiar porém mais que isso, uma amiga. Essa serviria apenas para dizer o quão infeliz eu tornei a todos e me crucificar numa estaca que ela construiu, preparada desde que nasci apenas para mim, como uma forma lógica de que sempre algo estava errado no meu modo de agir. Mas nem sempre fora assim, houve momentos bons de alegria, conversas e trocas de segredos tão secretos quanto o céu azul. Houve momentos em que quis chorar, mas isso passou, hoje talvez seja uma mistura simples de engano, tristeza e fuga. Os piores momentos, por incrível que pareça, sempre foram acompanhados dos melhores, e isso talvez tenha sido um pouco confuso para minha mente infantil. Os fins de semana em guerra por simples palavras soltas, ou ciúmes bobos. Brigas intermináveis por problemas facilmente resolvíveis e que com o tempo percebi que eram tão pequenos quando comparados a imensidão de medo que tenho de mim mesmo e deles quanto ao meu desejo. Simples e prática eram a forma como passavam de um desentendimento e hoje não é difícil vê-los, vez por outra, trocando farpas pequenas e feríveis, uns com os outro. De certa forma eu não sou o melhor, nem nunca serei, mas tomei partido por não tentar compreender e me tornar invisível em certos momentos do dia todo. Essa cena deprimível talvez não seja apenas a minha, mas foi simplesmente a que Deus criou.

- Estevão Eduardo -

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