Era a minha fazenda. Eu tinha o direito de plantar nela o que eu sempre quis. Cultivei durante tempo o suficiente para que tudo o que fosse necessário crescesse e desse frutos. Plantas de todas as cores e formas. Frutos de todos o sabores e tamanhos. Animais, tinham poucos. Algumas cabeças de gado ali, umas cabras aqui, enfim, somente o suficiente para dar alimento a toda família. Meus filhos, todos crescidos, preferiram se mudar para a cidade grande, onde encontraram mais chances para seguirem suas vidas. Nunca quiseram construir suas casas e famílias perto de mim e da minha esposa, exceto o mais novo, mas infelizmente ele morreu aos quatorze anos em um acidente de carro. Desculpe-me, mas eu não quero me deter nesse assunto, é algo que eu não gosto de relembrar. Minha esposa ainda mora comigo, mas não pode mais mexer-se, muito menos realizar qualquer tarefa. Infelizmente ela também estava no carro quando ocorreu o acidente com meu filho. Ela teve o que alguns médicos chamam de derrame e não pode mais movimentar os músculos, inclusive os da face, o que a impossibilita de falar. Isso ocorreu há sete anos. E há cinco anos que todos os meus outros três filhos partiram para a cidade grande. Nesse meio tempo várias coisas ocorreram, não muito importante obviamente, mas o suficiente para movimentar um pouco essa minha vida. Não que eu esteja reclamando, morar nessa fazenda foi uma escolha minha há trinta anos atrás, e de modo algum eu a deixaria agora. Esse lugar tem algo de pacífico, que nessas cidades grandes não têm. Eu vi meus filhos nascerem aqui, crescerem aqui, morrerem aqui. Eu e minhas esposa fomos bastante felizes, tivemos nossos momentos de alegria, tristeza e encanto, quando finalmente nasceu nosso primeiro neto. Eu sempre acordei cedo para poder passear pelos arredores da fazenda, me certificando se tudo estava na perfeita forma e se o trabalhos dos empregados estava rendendo. Tínhamos cinco empregados que trabalhavam na roça e com o gado, mas infelizmente um teve de parar de trabalhar por causa da saúde, nada grava, porém destrutivo a longo prazo, logo ficamos apenas com quatro trabalhores. Na casa trabalhava duas senhoras cuidando das nossas refeições e de nossas necessidades, mas com a impossibilidade da minha esposa tivemos que contratar mais duas moças, uma para ajudar na casa e outra para tomar conta de minha mulher, por tempo integral. Eram pessoas de bem, pelo menos eu acho, nunca tive interesse de saber sobre suas vidas. Nunca me interessei por ninguém que realmente não chamava a minha atenção. Pra falar a verdade se me perguntassem hoje qual o nome de todos eles que trabalham aqui dificilmente eu conseguirei responder. Apesar de receber cuidados integrais, sempre cuidei e dei a maior atenção à minha esposa. Lembro-me que assim que ocorreu o acidente e ela teve que voltar pra casa, eu passava praticamente o dia todo, todos os dias ao seu lado, tentando consolá-la e tentando exprimir, por ela, a tristeza que sentia pela perda de nosso filho. Já que não podia falar, ela só chorava e foi assim por um bom tempo. As pessoas sempre me falavam que era da vontade de Deus que tudo isso ocorresse, mas eu sempre tentava não associar Deus a isso, na verdade eu nunca associei Deus a nada. Talvez isso seja bom. Meus passeios matinais pelas redondezas tornaram-se mais frequentes quando nossos outros filhos nos deixaram. E mesmo que não quisesse admitir, mas um enorme abismo se abria entre eu e minha esposa. Será realmente que tudo que nos ligava era apenas nossos filhos, e que agora que todos eles foram embora, cada um à sua forma, nada mais nos ligava? Embora essa fosse uma pergunta frequente eu tentava não achar a resposta. Alguns dias adiante trouxeram a leveza das chuvas outonais, o que serviu para me deixar mais preso em casa durante as manhãs. Deitado ao lado da minha esposa eu conversava com ela, relembrando fatos tão marcantes de nossas vidas, não os tristes, esses não merecem ser lembrados, mas o alegres, ou até aqueles mais estranhos, sem respostas. Mas ela não podia retribuir, ela não sorria, ela não movia o olho. Mas por dentro talvez ela gritasse. Chorasse. Eu sabia que ela podia me ouvir, mas era muito egoísmo da sua parte não responder. Infelizmente não inventamos nenhuma forma pra nos comunicar, se é que exista alguma, mas enfim, preferimos continuar sendo egoístas, eu apenas falando, ela apenas escutando. Minha fazenda tinha se tornado definitivamente fazia. Repleta de silêncio por todos os lugares. Cheia de nada que preenchesse o vazio que era do tamanho do terreno lá fora. Talvez eles voltem. Talvez um dia meu caçula queira ficar e morar conosco. Talvez minha esposa invente uma nova maneira pra se comunicar. A fazenda é minha eu a mantenho porque tenho esperança de que algum dia tudo volte a ser como era no início.
- Estevão Eduardo -
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