O vento enlaça meu pescoço, enquanto o crepúsculo desce sobre minha pele quente recém saída da cama. E de repente um razio me consome, um vazio tão grande que me deixa pequeno, talvez até invisível, mas não invisível para outros e sim pra mim. Para outros me sinto nu agora, preciso urgentemente me cobrir. Mas de que importa? Me sinto só e por incrível que pareça não necessito de compania, há um certo prazer nessa solidão instântanea. Nada fere minha alma, nem mesmo o silêncio, que antes era o meu pior inimigo, agora não me assusta. Afinal onde está minha alma agora? Onde estão meus sentimentos? Há dias que procuro o motivo por ter me tornado tão frio, tão só e tão recluso num local onde não é meu mundo. Não conheço. Estou cego. Cego diante daquilo que antes me assustava e me dava prazer, agora nem o desejo imenso de me satisfazer me machuca mais. Olhei meu reflexo no vidro e tive nojo de mim mesmo, vergonha da pessoa que eu era e que agora me tornei, até parece que em meu rosto está escrito o que nunca revelei. Parei por uns segundos diante do meu quarto e não o reconheci, nem sei se ao menos eu estava ali, pelo menos meus pensamentos não, onde estariam então? A sua falta nem me fez falta agora, do que adiantaria ter você aqui, se esse vazio me consome e eu assim não poderia me entregar totalmente a você - quero dizer, eu nunca vou poder me entregar completamente a você... Mas o que está acontecendo então? Por que não sinto dor, porque minhas lágrimas não caem mais? Talvez a visão do vazio que eu tivesse penetrou completamente dentro de mim e agora começo a olhar não em volta, mas pra dento de mim mesmo. A visão dos beijos apaixonados, da alegria momentânea e da tristeza alheia já não me causam inveja. Me sinto agora morto. Quando renascerei? A resposta talvez venha com um fim, ou talvez com um novo começo. Pra dizer a verdade os começos sempre me dão tédio, e os fins, amo-os intensamente, me dão a noção de completo. Completo? Pelo que? Não sei. Só um verdadeiro motivo agora me daria a alegria de chegar até o fim.
- Estevão Eduardo -
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