No alto da montanha morava um pássaro. Um pássaro lindo, com penas azuis e brancas que na luz do sol refletiam um dourado radiante. Ele vivia sozinho, não por opção própria, mas por uma fatalidade. Ao nascer sua mãe o abandonou enquanto dizia ir procurar alimento, e um certo dia ela nunca mais voltou. O pássaro ao crescer não entendia o porquê de sua mãe ter lhe abandonado e nunca mais ter voltado ao ninho que construíra, ele indagava-se, à medida que ia crescendo, se sua mãe o tivesse deixado por conta própria ou se ocorrera um incidente que a impediu de voltar. Ao longo do tempo o pássaro foi se acostumando a viver só, mas na verdade não era algo que lhe agradara, e o fato de ter sido deixado só muito cedo o impediu de aprender a voar, ensino passado de mãe para filho. Por muitas vezes tentava abrir as asas e alçar voo, mas detinha-se na insegurança do desconhecido, e ao olhar para baixo a altura o fazia temer a morte. Dias e noites passavam e o pequeno pássaro continuava só. Um grande gavião que lhe observava desde pequeno notou-o e decidiu ajudar-lha somente no necessário, ou seja, trazia-lhe diariamente algumas minhocas e pedaços de frutas, essas que os pássaros tanto adoram, e deixava-lha na beira da montanha toda manhã, sem exceção. Por várias vezes o pequeno pássaro tentara conversar com o grande gavião, pois via nele uma possibilidade de aprender a finalmente voar, mas o gavião ignorava-lha solenemente, e nem dirigia-lhe a palavra. O pássaro não entendia o porquê apesar do gavião se importar em não deixá-lo morrer, mas ainda assim evitava qualquer aproximação. Aos poucos foi se acostumando ao que não entendia. Mas a vida no alto da montanha era tediosa, ao ponto de a única diversão que o pequeno pássaro tinha era de ter um monólogo consigo mesmo, ou no desespero da solidão ter inventado jogos nos quais não necessitavam mais de um participante. Ainda com o tempo o pequeno pássaro aprendera a arte de olhar a distância, qualidade essa que não lhes é ensinada, e sim atribuída ainda na gestação. Do alto da montanha o pequeno pássaro observava outros pássaros alçarem voo, brincarem uns com os outros equilibrando-se como bailarinos no céu. A vida lá encima era tão bonita e a terra lá embaixo parecia tão frondosa. O pequeno pássaro sentia muitíssimo pesar por não poder voar e com o tempo a sua vontade foi aumentando e as tentativas de voo foram prolongando-se, mas o medo de morrer ainda assim tornava a ser maior. O pássaro começou a pensar quão seria triste se ele morresse ali encima da montanha sem nunca ter tentado, sem nunca ter ao menos aberto as asas no infinito que é o nada, porém mais uma vez a morte parecia-lhe muito perto. À medida que ia crescendo sentiu a necessidade de interagir com outros pássaros, e até um sentimento estranho apossou-se dele, algo como uma forte vontade de ser abraçado por enormes asas, de ser protegido em dias de chuva, de ter outro pássaro que enxugasse suas penas enquanto descansava. De longe outras aves o avistavam, mas a sua condição, ali no alto da montanha, assustava bastante alguns outros. O pequeno pássaro queria voar, queria conhecer o mundo, a terra, o céu, queria poder estar com outros pássaros, queria poder sentir o vento em sua asas, correr o perigo de ser capturado, sentir o bico de outro pássaro em seu bico. Queria ser um pássaro de verdade, ao invés de apenas existir. Após alguns dias, em sua longa jornada de trazer alimento ao pequenino, o gavião avistou algo inesperado que o deixou bastante assustado, o pequeno pássaro já não estava mais no ninho dormindo, como sempre, agora ele estava no céu, mas não no céu que conhecemos, o qual está sobre nossas cabeças, mas um céu maior de descobertas infinitas, de um sono profundo.
- Estevão Eduardo -
Nenhum comentário:
Postar um comentário