- Você denovo por aqui? - Perguntou o Padre
- Por que, a minha presença lhe incomoda?! - indagou a Morte
- Não, já estou tão acostumado que nem ligo mais, mas o que lhe traz aqui?!
- O de sempre, mas agora foi Júlio da Rua Nove...
- Ele de novo?! - Interrompeu o Padre com grande espanto
- Me procurou novamente essa manhã, não fiquei muito surpreso, até já esperava por isso
- Como foi? - Indagou o Padre sentando-se sobre uma das cadeiras da Igreja
- Ele acordou, viu que seus pais não estavam mais em casa, passou um longo tempo olhando pela janela a chuva primaveril que caia sobre as árvores, logo depois foi até o banheiro pegou um dos soníferos de sua mãe e os tomou desesperadamente - Disse a Morte enquanto o Padre mirava-o atentamente - Até acho que foi menos doloroso do que a primeira vez, na qual ele fracassou
- Oh, pobre garoto, só de pensar que ele tinha uma vida toda pela frente me dá uma angústia - Falou o Padre desolado olhando atentamente um ponto fixo da sala
- Ele não foi o primeiro nem será o último
- Como você pode ser tão seco por dentro?! - Indagou o Padre assustado com tal afirmação
- É apenas o meu oficio - Aproximando-se um pouco continuou - Todos os dias tenho que vir buscar muitas pessoas, mas quando elas vem me procurar por conta própria eu não posso negá-las uma escolha delas...
- Mas e da primeira vez que Júlio tentou o suícidio você o deixou escapar - Interrompeu o Padre furioso
- Ele não tinha certeza da sua escolha, aquilo pareceu-me mais um pedido de socorro ou de atenção, mas dessa vez seus sentimentos eram outros e suas certezas já estavam confirmadas.
- Mas isso não lhe dava o direito de tirar sua própria vida...
- Que vida?! - Interrompeu a Morte furioso - Muitos apenas vivem para respirar, outros vivem apenas para existir, eu não o matei, nem ele mesmo se matou, na verdade ele já estava morto a muito tempo, morto por dentro, morto por cada sentimento que o corrompeu, por sua angustia, seus medos, seus sonhos perdidos. Da primeira vez eu tentei mostra-los que ele precisava de ajuda, apoio, voces pareceram não entender continuaram a se preocupar apenas com seus mundinhos pequenos e preenchidos por um vazio inútil. Dessa vez eu não pude negá-lo um desejo, desejo de liberdade. Júlio apenas existia e nada mais.
Levantando-se e pouco conformado o padre perguntou friamente:
- Os pais dele já sabem?
- Não. Irão saber hoje a noite quando chegarem.
- Quando será o enterro?
- Talvez amanhã.
- Pois bem, estarei lá. - Quando a Morte ia retirando-se o Padre perguntou - Posso lhe pedir uma coisa?
- Sim Padre.
- Preze pelos outro.
- Impossível Padre, impossível.
A Morte retirou-se da Igreja e foi cumprir suas tarefas bem longe dali.´
(Estevão Eduardo)
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