sábado, 28 de março de 2009

Arrependimento mata

Os relógios marcavam cinco da manhã, quando a luz do sol nascente invadiu os olhos de Carol, que acabara de acordar. A visão privilegiada era com certeza uma das melhores, o mar estava a sua frente. Meia desnorteada Carol levantou-se quase em câmera lenta, apenas para sentar sobre a areia. Após recuperar os sentidos ficou de pé, sacudindo a areia das pernas e do cabelo. Naquele momento nada habitava os pensamentos dela, apenas uma forte dor de cabeça adquirida devido ao "porre" tomado na noite anterior. E a visão do sol por nascer refletindo sobre seu cabelo ondulado e loiro, e seus olhos verdes entreabertos com certeza era a melhor pintura que alguem poderia ter para começar o dia. Decidiu voltar para casa, entre as ruas Carol caminhava lentamente como que apreciando a paisagem, e sem pressa alguma de chegar a lugar algum. Decidiu acender um cigarro. O frio matinal gelava suas mãos enquanto o cigarro esquentava seus lábios rosados. Andando sobre o meio-fio, Carol se equilibrava e media seus passos milimetricamente, como se não tivesse nada a mais com o que se preocupar ou pensar. Deu mais uma tragada no cigarro antes de jogá-lo no meio da rua. As suas roupas surradas devido a má noite e seu longo cabelo que caia sobre seu rosto, davam-na uma aparência angelical. Segurava o calçado com as mãos, andando descalça por entre as ruas, o que lhe concedia um espiríto de liberdade maior do que já tinha, mas não tratava-se de liberdade exterior e sim interior. Soltando um sorriso no canto da boca deixou transparecer os acontecimentos da noite passada, o que nos concedeu a visão dos seus dentes tão brancos quanto a neve natalina. Ao andar mais um pouco percebemos que ela cantava algo, e ao ouvimos mais detalhadamente descobrimos que sussurrava a letra da música "Tiny Dancer". Aos poucos a alegria que habitava em seu corpo extravasou a ponto que a cada passo que dava aumentava o tom da música, misturando-a com leves passos de dança, ao ponto de poder gritar para todos que quisessem ouvir. Essa era uma das melhores visões que se podia ter. Era como ver o inferno aprisionado no céu querendo sair. Ao se aproximar de casa, Carol afastou seus cabelos que cobriam o seu rosto, colocando-os para tras, revelando ainda mais seu rosto que mais parecia desenhado a mão por uma alma divina. Ao entrar em casa, Carol já não brilhava mais. Foi a última vez que a vi. A última notícia que ouvi falar dela foi que no dia em que ela morreu, encontraram um papel que escrito com a letra dela dizia assim:

"Não me arrependo do que fiz, mas do que não fiz".

Demonstrando que mesmo tendo vivido apenas 17 anos, ela viveu!

(Estevão Eduardo)

Nenhum comentário: