- O que lhe incomoda?
- Esse silêncio, essa falta do que fazer, esse medo de dizer o que penso...
- Me conte sobre seu dia
- Eu acordei, me arrumei para ir ao trabalho, saí de casa me dirigi até o carro e fui direto para o escritório, lá todos estavam nervosos com alguns problemas que eventualmente apareciam, eu como sempre apenas observava aqueles rostos cheios de angústia que procuravam um motivo para continuar, assim como eu, fiz todas as exigências do meu chefe, que não é lá uma má pessoa, na verdade até tenho um pouco de pena dele, a mulher morreu ano passado, o filho está envolvido com drogas e a filha já não o respeita mais, todos fingem que não sabem, mais apenas ele sabe a dor que sente. No horário do almoço fui com um amigo ao restaurante, enquanto almoçavámos do lado de fora, uma moça chegou e pediu-nos um trocado, eu não pude recusar e lhe dei, logo me lembrei que a lei nos proíbe de dar esmolas, mas por um momento olhei para ela e vi em seu rosto toda sua história estampada em cada marca que ali estava, seu olhos diziam palavras que me lembrava a angústia da morte, por um momento me senti tão inútil e fraco que pensei em desistir de tudo, afinal eu tenho tudo e ela o que tem?! Ao voltar para o escritótio percebi que apenas esse breve momento do dia havia me atormentado de uma forma que nunca havia sentido. Chegando lá foi dado um aviso a todos que tínhamos fechado um contrato com uma grande empresa e que por isso nossas vendas aumentariam, todos ficaram tão felizes, mas eu não pude esconder a tristeza que eu sentia...
- Mas tristeza com o que?
- Eu não sei explicar, é algo que está tão dentro de mim que não consigo expor.
- Continue me dizendo como foi o resto do dia
- Eu passei a tarde trabalhando e ao voltar para casa a noite meus vizinhos estavam discutindo como sempre, mas desta vez algo me chamou atenção, o filho deles, que creio estar com uns dez anos, estava sentado na escada chorando, aquela cena me comoveu tanto que de alguma forma eu queria ajuda-lo mas não sabia como, isso me deixou quebrado por dentro, afinal ele era apenas uma criança, como poderia estar passando por uma situação dessas quando seus pais deviam lhe dar amor e carinho?! Entrei para dentro do meu apartamento, mas aquilo ainda me perturbava. Numa tentativa de distração liguei a Tv e notícias ruins invadiam meus ouvidos, decidi desliga-la. Fui ate o banheiro, afinal sempre que tomava banho me sentia renovado, mas tudo que havia visto e ouvido ainda me perturbava de uma forma que não sabia, afinal se eu pudesse ajudaria a todos. Não nascemos para sofrer e sim viver, concordo que o mundo não é um "mar de rosas", mas porque meu chefe tinha de sofrer com tantas perdas? Porque aquela moça tão jovem estava começando sua vida daquela forma? E porque uma criança era tratada daquele jeito, como ela contaria suas angustias a seus pais se estes só faziam brigar?
- E por qual motivo você decidiu se matar?
- Pelo mesmo sentimento de inutilidade, afinal quando eu era vivo tambem não conseguia ajuda-las, pelo mesmo motivo de que eu não tinha motivo de continuar
- E hoje você tem?
- Não. E sinto que nunca terei.
(Estevão Eduardo)
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